O nó da eficiência: a sobrevivência logística no Brasil exige orquestração, não apenas caminhões

*Por Ewerton Caburon

O mercado de logística brasileiro vive um paradoxo que desafia a lógica tradicional dos negócios. De um lado, vejo o setor pulsar em ritmo acelerado: apenas no primeiro trimestre de 2026, mais de 168 mil novas empresas de logística foram abertas no país, impulsionadas pela descentralização e pela urgência do last mile. Do outro lado da mesma moeda, o custo logístico nacional voltou a cravar incômodos 15,5% do PIB, sufocado pela escalada do preço do óleo diesel e por uma das malhas tributárias mais complexas do planeta.

Para nós, que lidamos diretamente com embarcadores e transportadores, a mensagem das planilhas é clara: a era em que eficiência logística significava apenas colocar mais caminhões na rua ou negociar centavos no valor do frete acabou. Em tempos de margens espremidas e custos voláteis, a sobrevivência do setor depende de um conceito muito mais profundo e tecnológico: a orquestração simultânea das barreiras logísticas, fiscais e financeiras.

Historicamente, o debate sobre os gargalos do setor sempre foi a falta de infraestrutura física (estradas esburacadas ou a falta de ferrovias). Hoje, percebo que um dos maiores sorvedouros de receita acontece com o caminhão parado, motor ligado e pátio lotado.

Não se trata de lentidão no carregamento físico, mas de um apagão burocrático. Inconsistências mínimas entre o peso da carga e a Nota Fiscal Eletrônica (NF-e), ou pequenos atrasos na compensação de guias do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação) por Substituição Tributária (ICMS-ST) e do DIFAL (Diferencial de Alíquota)  em operações interestaduais, são suficientes para travar uma operação. Cada hora de um caminhão retido por entraves fiscais gera custos de diárias desnecessários e quebra o planejamento de toda a cadeia de suprimentos.

É nesse cenário de fricção contínua que a tecnologia precisa transcender o básico. Não basta rastrear o veículo; é preciso antecipar o fluxo da informação que valida aquela viagem.

Na minha visão de quem acompanha de perto as dores de centenas de embarcadores no país, a resposta para esse cenário de crise não está no aumento da força de trabalho (até porque o setor enfrenta um déficit crítico de mais de 120 mil motoristas profissionais), mas na automação inteligente.

O ecossistema logístico brasileiro é dinâmico e implacável. Quando o preço do diesel flutua e a ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre) reajusta a tabela de fretes, o impacto no fluxo de caixa do embarcador é imediato. Se a sua empresa não possui uma visão unificada que conecte a contratação do frete à emissão fiscal e ao pagamento na ponta, ela perde rentabilidade e previsibilidade em tempo real.

Por isso, defendo que a Inteligência Artificial e a hiperautomação deixaram de ser ferramentas de diferenciação competitiva para se tornarem itens de subsistência. A IA aplicada à orquestração logística nos permite auditar tabelas de frete complexas instantaneamente, prever inconsistências fiscais antes mesmo de o caminhão chegar à doca e automatizar processos que antes levavam dias de conferência manual. O papel da tecnologia hoje é eliminar o ruído entre o operacional, o fiscal e o financeiro.

A verdadeira transformação do mercado de logística passa por entender que transporte não é uma atividade isolada. Trata-se de um processo financeiro rodando sobre rodas. Quando um software calcula dinamicamente o valor do frete, considerando não apenas a distância, mas as alíquotas fiscais de fronteira e o consumo estimado de combustível, a empresa deixa de ser reativa e passa a ser estratégica.

O momento atual exige que os líderes de Supply Chain abandonem os sistemas fragmentados (os famosos “puxadinhos tecnológicos”) e migrem para plataformas capazes de centralizar a jornada da carga do início ao fim.

Em tempos de crise, eficiência não é um detalhe operacional. É o único caminho para manter o país abastecido e as empresas competitivas. A logística brasileira provou que tem resiliência e volume; agora, nós precisamos aplicar inteligência e orquestração para transformar esse movimento em lucro real.

*Ewerton Caburon é CEO e cofundador da emiteai, logtech considerada pioneira na transformação da orquestração logística no Brasil. É formado em Engenharia de Produção pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e possui sólida trajetória executivas, como na Ambev, Raízen e BBM Logística.

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