Como a orquestração logística está entregando os benefícios que 4PL prometia 

*Por André Mortari

Enquanto boa parte das discussões do setor logístico ainda se concentra na contratação de transportadoras, na redução do custo do frete ou na ampliação da capacidade operacional, acredito que a principal mudança em curso acontece na forma como toda essa operação é coordenada.

Essa discussão está diretamente relacionada à competitividade das empresas. De acordo com o Estudo Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras, elaborado pelo Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), os custos logísticos no Brasil alcançaram R$ 1,96 trilhão em 2025, o equivalente a 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

É nesse contexto que o conceito de Fourth-Party Logistics (4PL) ganha relevância. Tradicionalmente, ele é entendido como um modelo em que um integrador coordena toda a cadeia logística, conectando operadores, transportadoras, sistemas e processos. Mas, limitar o 4PL à figura de um operador específico é reduzir o potencial de transformação que ele representa.

O que realmente diferencia esse modelo é quem consegue orquestrá-lo. O mercado associava desempenho logístico à capacidade de contratar bons fornecedores. Essa lógica fez sentido em um contexto menos complexo, com menos canais de venda e cadeias de distribuição mais previsíveis. Hoje, no entanto, a realidade é outra, porque as empresas operam simultaneamente em diferentes marketplaces, lojas físicas, e-commerces e canais próprios, atendendo consumidores que esperam rapidez, visibilidade e flexibilidade em todas as etapas da entrega.

Ou seja, simplesmente aumentar o número de parceiros não resolve o problema. Em alguns casos, pode até ampliá-lo. É comum encontrar operações com excelentes transportadoras, bons operadores logísticos e sistemas robustos, mas que ainda enfrentam dificuldades para responder rapidamente às mudanças do mercado. Isso acontece porque cada elo da cadeia funciona de forma eficiente individualmente, mas sem uma coordenação capaz de transformar esse conjunto em uma operação integrada.

É justamente nesse ponto que vejo a orquestração logística aproximando as empresas brasileiras da lógica do 4PL –, embora alguns defendam que esse modelo só existe quando uma única empresa assume integralmente a gestão da cadeia logística. Respeito essa interpretação, mas acredito que ela já não reflete a realidade de muitas operações. A tecnologia permite integrar diferentes parceiros, automatizar decisões e criar inteligência operacional sem que seja necessário substituir fornecedores ou concentrar toda a gestão em um único operador.

A orquestração conecta todos os envolvidos em torno de um mesmo objetivo. Ela permite que decisões sejam tomadas considerando o desempenho da operação como um todo, e não apenas de um fornecedor específico. 

Antes, a logística era administrada por etapas. Transporte, armazenagem, expedição e distribuição eram tratados como processos independentes. Mas agora essa divisão faz cada vez menos sentido. Quanto maior a integração entre essas etapas, maior a capacidade de a empresa ganhar eficiência sem necessariamente ampliar sua estrutura.

Por isso,  a discussão sobre inovação logística precisa evoluir. Não basta perguntar qual é a melhor transportadora ou qual operador oferece o menor custo. Essas continuam sendo decisões importantes, mas já não são suficientes para sustentar operações cada vez mais complexas em um ambiente competitivo.

A pergunta que realmente fará diferença nos próximos anos é outra: quem está coordenando toda essa cadeia?

É essa capacidade de orquestrar pessoas, processos, tecnologia e parceiros que definirá os líderes da próxima geração da logística brasileira. O 4PL deve ser encarado como uma forma diferente de pensar a gestão. E, sob essa perspectiva, acredito que muitas empresas brasileiras já começaram essa transformação, mesmo sem classificá-la dessa maneira.

O diferencial no mercado não está em quem possui mais ativos ou mais fornecedores, está na capacidade de transformar uma operação fragmentada em um ecossistema conectado, inteligente e que responde, em tempo real, às demandas de um mercado que muda todos os dias.

*André Mortari é CEO da LET’S, ecossistema logístico que conecta indústria, varejo, food service, empreendedores, transportadoras e entregadores autônomos em uma plataforma única de eficiência e tecnologia. Tem experiência em concepção de produto, captação de recursos e gestão de equipes, com forte background em transformação digital, marketing, vendas e estratégia. Além de empreendedor, é investidor-anjo formado em Comunicação pela ESPM, com MBA pela FGV. Atuou na MetLife, Netshoes, Carrefour e Walmart.com.

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