O Pré-Sal no Sal

29/08/2008

Essa história tem alguns anos.

Um dia fui visitar uma amiga, não me lembro por qual motivo. Mas deveria haver algum.

Ao sair do elevador, defronte ao apartamento dela, encontrei a porta já aberta. Pensando ser uma informalidade, entrei sem apertar campainha.

Me arrependi! Para minha surpresa lá estava a fulana de tal degustando um acesso de raiva, acompanhado por expressões que, caso reproduzidas nesse artigo, o tornariam impublicável.

Tentando não ser percebido, busquei sair do ambiente, mas fui descoberto e recebi uma proposta inusitada:

– Vamos procurar um sapo?

– Sapo? O que você quer com um bicho desses?
 
– Vou costurar a boca dele com o nome da minha vizinha dentro.

Bem, já sabia que o foco do ódio era a colega de andar. Mas e quanto a esse negócio de costurar a boca do animal? Lembrei, então a expressão “costurar a boca do sapo”, mas confesso que não sabia para que era usada.

É mandinga pura! O sapo com a boca costurada não pode comer, nem beber e acaba morrendo em sofrimento pleno. Há que acredite que a energia de tal agonia seja transmitida a pessoa que tem o nome escrito em um papel na bocarra do bicho.

Muita crueldade… com o sapo. Felizmente, consegui convencer a amiga a desistir da empreitada.

– Ta certo, mas então eu vou colocar o nome daquela cretina no sal.

No sal? Do que se tratava agora? Pelo que entendi, a receita da mandinga consiste em escrever o nome do desafeto num papel e afundá-lo em algum recipiente cheio de sal, deixando-o lá. Segundo os usuários de tais práticas, fazendo isso, tudo na vida da vítima começa a dar errado.

Não pretendo convencer ninguém de que esses bruxedos sirvam realmente para alguma coisa . Mas não pude resistir em lembrar do episódio, com tanta conversa  a respeito das mudanças de regras na política nacional do petróleo, a partir das descobertas abaixo da camada do pré-sal.

Veja, os agouros não são lá dos melhores. Se o óleo está embaixo do sal, ele deve estar sob o efeito da mesma macumba da vizinha da minha amiga.
 
E os debates sobre o assunto, até o momento, realmente indicam que a questão vai se arrastar por longo período.

Isso seria até saudável se o foco da discussão fosse algo com poder esclarecedor. Mas não é assim.

A descoberta foi feita pela Petrobrás (talvez a estatal mais lucrativa do mundo) e custou centenas de milhões de dólares de investimentos em pesquisa, que poderiam ter dado em nada. Então, a empresa, com parte de seu capital aberto, tem inegáveis méritos sobre a questão, que são, por direito, partilhados com os acionistas.

Daí, vem o governo federal e quer mudar as regras do jogo, vendendo a idéia de que as descobertas deveriam estar vinculadas a uma nova estatal, que administraria a receita dos poços de petróleo priorizando projetos de assistência social.

Em primeiro lugar, não existe palavra mais branda para essa decisão do que  "quebra de contrato”, ou roubo. Por conta disso, as ações da Petrobrás despencaram.

E, em termos práticos, não há motivos econômicos para se criar uma nova petrolífera de capital 100% estatal. Afinal, se os gestores públicos querem usar os ganhos do petróleo para executar políticas assistencialistas, basta o governo fazer a retirada dos lucros da própria Petrobrás.

Então para que esse raio de nova estatal? Não sejamos ingênuos: até prova em contrário, tudo não passa de subterfúgio para a criação de novos cabides de emprego e posições de poder político a serem barganhadas com partidos aliados.

Em resumo, o petróleo abaixo da camada do pré-sal já está metido em grandes confusões, antes mesmo de ser extraída a primeira gota, o que só deve acontecer lá por 2012, caso os engenheiros tenham sucesso em desenvolver uma tecnologia ainda inexistente.

Até lá as condições de mercado podem ser outras. A Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico estão investindo pesado no aumento da capacidade de extração e refino, enquanto várias empresas se apressam em viabilizar a exploração dos poços no Mar Ártico. Junto com isso há o cenário de desenvolvimento e popularização de combustíveis alternativos.

Ou seja: o preço do petróleo pode cair nos próximos anos e inviabilizar a operação do pré-sal, muito mais custosa.

Daí, o que restará? Uma belíssima estatal, com direito a prédio artístico em Brasília, cuja função será colecionar servidores sem ter o que fazer.

Se parece praga, me desculpe. Mas quando coisas que podem ser boas começam mal, nada acaba bem. O pré-sal tá no sal.

 

 

Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

 

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