Entre as várias características comuns a todas as nações, uma das mais notáveis é a da vocação para a domínio. Provavelmente, não existe uma na qual seus dirigentes não tenham ao menos pensado ou desejado que ela fosse poderosa e dominasse sua região – ou o mundo. Foi assim com os romanos, foi assim com ingleses e (ainda) é assim com os americanos.
Fareed Zakaria, editor de assuntos internacionais da revista semanal Newsweek , discute em The Post-American World justamente as transformações que poderão fazer os Estados Unidos da América perderem seu lugar de líderes, ainda que seus governantes e o país como um todo não percam a vocação de dominar a Terra.
O livro começa com um relato do historiador Arnold Toynbee, ainda criança, nos braços de seu tio, assistindo em 22 de junho de 1897 às comemorações dos 60 anos da rainha Vitória em Londres: uma parada com 50 mil soldados britânicos vindos de todas as regiões dominadas pelo Império, num feriado para 400 milhões de pessoas, dando a todos aqueles cidadãos a certeza de que estavam no topo do mundo. O Império ocupava 25% do planeta e alcançava 25% da população, sendo composto por uma rede de colônias, territórios, bases e portos, tudo sob a proteção da Armada britânica, a mais poderosa força naval conhecida até então. Esse império já estava conectado por uma rede de cabos transportando sinais telegráficos e telefônicos – sem falar nas redes ferroviárias e canais como o de Suez – que garantiam aos ingleses o título de inventores do primeiro mercado realmente global.
Mas um dia o Império acabou. Não porque a Inglaterra tenha sido invadida e humilhada pela Alemanha na II Guerra Mundial, mas porque outros atores apareceram no cenário: ao final dessa guerra, Estados Unidos e Rússia haviam se tornado as potências mundiais e passaram a decidir como o mundo devia ser organizado.
Fareed Zakaria acha que nos últimos 500 anos houve três mudanças de poder de ordem tectônica: primeiro, a ascensão do Ocidente impulsionada pela Renascença; depois, a ascensão dos Estados Unidos, logo após a I Guerra Mundial; e agora, a ascensão de uma dúzia de países, entre os quais o Brasil, que vão redefinir o equilíbrio econômico e político mundial.
A constatação do autor parte dos números macroeconômicos, disponíveis até na Internet, e sua conclusão é a de que os EUA estão exatamente no mesmo caminho que a Inglaterra já trilhou – não porque esteja piorando, mas porque os outros estão melhorando muito rápido, como é o caso de China, Índia, Brasil, Turquia e Arábia Saudita.
São países que já têm indústrias de nível mundial como a chinesa Lenovo (que hoje fabrica os microcomputadores projetados pela IBM), a indiana Tata (que comprou da Ford a Land Rover e a Jaguar) ou a brasileira Gerdau (que já comprou siderúrgicas nos EUA e no Canadá, tornando-se também multinacional como são também a Petrobrás, a Embraer e a Vale).
A grande ironia, para o autor, é o fato de que a ascensão desses e de outros países é o resultado direto de ações do governo americano. "Os Estados Unidos foram bem-sucedidos em sua grande e histórica missão: eles globalizaram o mundo. Mas, no caminho, esqueceram de globalizar a si próprios", já que enquanto o mundo inteiro se abria para relacionamentos comerciais equilibrados, os EUA se fechavam, tornando-se uma superpotência que incomoda gente em todos os países e gerando antipatia ao redor do globo.
Zakaria acha que de agora em diante seu país precisa mudar radicalmente de comportamento, tornando-se um intermediário internacional e não mais um chefão todo-poderoso que dita ordens para todos obedecerem. "Este novo papel (…) envolve consultas, cooperação e comprometimento. Não é mais uma hierarquia de cima para baixo, na qual os EUA tomam suas decisões e depois informam a um mundo agradecido ou silencioso".
Infelizmente, as políticas de livre comércio, imigração liberal e mudança tecnológica que impulsionaram essa revolução já não são mais aceitas com facilidade nos Estados Unidos – uma pesquisa feita em 2007 com cidadãos de 47 países pela Pew Global abordando livre comércio e abertura de mercados, colocou os EUA em último lugar.
Éimportante os leitores entenderem que a perda de posição dos EUA não é mesmo uma falha americana, mas o resultado da evolução dos outros países. Uma observação simples da própria sociedade brasileira mostrará que, apesar de erros, dos governos, da dívida, dos desastres naturais, da rapinagem e de outros obstáculos, o País evoluiu e muito. Na China de hoje, então, exporta-se num dia mais do que no ano inteiro de 1978. E nos últimos 25 anos, nada menos do que 400 milhões de chineses saíram da pobreza pela simples evolução da economia.
E assim, os prédios mais altos, as maiores represas e os celulares mais incrementados estão sendo feitos fora do território de Tio Sam. Um dos problemas dos americanos pode ser sua inabilidade em reconhecer que várias de suas indústrias ficaram tão desatualizadas quanto os antigos ferreiros e estão sendo empurradas para trás pelas novas tecnologias e invenções de outros países. Em contrapartida, esse crescimento econômico naturalmente produz maior confiança política, nacionalismo e, potencialmente, maiores problemas internacionais.
Paulo Brito é jornalista e consultor de empresas. Fonte: www.dcomercio.com.br







