Por Renato Junoy
Durante muito tempo, falar em inovação logística significava discutir entregas mais rápidas, novos modais ou centros de distribuição mais eficientes. Hoje, essa conversa mudou. A transformação mais relevante do setor acontece antes mesmo de um pedido ser despachado e, muitas vezes, antes mesmo de o consumidor concluir a compra.
A inteligência artificial está mudando a forma como decisões logísticas são tomadas. Em vez de apenas automatizar tarefas, ela passa a analisar milhares de dados em tempo real para indicar caminhos mais eficientes, prever gargalos e tornar toda a operação mais inteligente. É uma mudança silenciosa, mas com potencial para redefinir a competitividade do comércio eletrônico.
Esse movimento já é percebido em escala global. Pesquisa recente da Gartner mostra que 72% das organizações de cadeia de suprimentos já utilizam inteligência artificial generativa em alguma etapa de suas operações*. Ao mesmo tempo, apenas 23% afirmam possuir uma estratégia estruturada para adoção dessa tecnologia*. O dado revela que o desafio deixou de ser experimentar IA e passou a ser utilizá-la de forma consistente para gerar valor ao negócio.
Na logística, esse valor aparece muito antes da emissão de uma etiqueta de envio. A escolha da transportadora, a previsão do prazo de entrega, a análise de risco de atrasos, a identificação de rotas mais eficientes e até a antecipação de picos de demanda podem ser apoiadas por inteligência artificial. São decisões que antes dependiam exclusivamente da experiência humana e que agora passam a contar com uma capacidade analítica muito maior.

Para pequenos e médios empreendedores, essa mudança tem um significado especial. Durante muitos anos, ferramentas sofisticadas de planejamento logístico ficaram restritas aos grandes varejistas, que possuíam equipes dedicadas, sistemas robustos e grande volume de dados. A inteligência artificial começa a reduzir essa distância ao democratizar o acesso a recursos que ajudam empresas de diferentes portes a tomar decisões mais precisas.
Na prática, isso significa menos tempo dedicado a atividades operacionais e mais tempo para o empreendedor focar naquilo que realmente faz seu negócio crescer: vendas, relacionamento com clientes e expansão da operação. A tecnologia deve simplificar a gestão da logística, não aumentar sua complexidade.
Outro aspecto importante é que a inteligência artificial permite tornar a logística mais preditiva. Eventos sazonais, mudanças de comportamento do consumidor ou grandes acontecimentos podem alterar significativamente o fluxo de pedidos. Mais do que reagir a essas oscilações, o desafio passa a ser antecipá-las e preparar a operação com antecedência.
Um exemplo recente de como fatores externos podem alterar o comportamento do e-commerce pôde ser observado durante a Copa do Mundo de 2026. Uma análise posterior de milhões de pedidos processados pela Melhor Envio mostrou que, dependendo do dia da semana, quando a seleção brasileira entrava em campo, o volume de compras chegava a cair até 40%. Por outro lado, a categoria Moda registrou crescimento de 6,2%, impulsionada pela procura por camisetas e artigos de torcida, enquanto Esporte & Saúde recuou 3,2%, contrariando a expectativa de alta durante o torneio. Mais do que uma curiosidade sobre o comportamento do consumidor, essas oscilações mostram como eventos externos podem modificar rapidamente a dinâmica da demanda e reforçam a importância de dados para compreender esses movimentos e apoiar o planejamento de operações futuras.
Esse é um dos principais ganhos proporcionados pelo uso inteligente dos dados. A logística deixa de responder apenas ao que aconteceu e passa a trabalhar com previsões cada vez mais refinadas sobre o que provavelmente acontecerá. Isso melhora o planejamento, reduz desperdícios e aumenta a previsibilidade para lojistas e consumidores.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a IA, sozinha, não resolve os desafios da logística. A qualidade dos dados, a integração entre sistemas e a capacidade de transformar informações em decisões continuam sendo fatores decisivos. Não por acaso, a própria Gartner aponta que 56% das organizações identificam a integração com sistemas legados como uma das principais barreiras para ampliar o uso da IA nas cadeias de suprimentos*.
Para o consumidor, toda essa inteligência tende a ser praticamente invisível. Poucos saberão que algoritmos ajudaram a definir a melhor rota ou a transportadora mais adequada para determinada entrega. O que será percebido é uma experiência melhor: prazos mais confiáveis, menos imprevistos, informações mais precisas e entregas mais eficientes.
No fim das contas, talvez essa seja a maior contribuição da inteligência artificial para a logística. Não eliminar a experiência humana, mas potencializá-la com dados e análises que antes seriam impossíveis de realizar na velocidade exigida pelo comércio eletrônico.
O futuro da logística não será definido apenas por quem entrega mais rápido. Será determinado, principalmente, por quem consegue tomar as melhores decisões antes mesmo de o primeiro pacote deixar o estoque.
Fontes
*Gartner. Pesquisa mostra que 72% das organizações de cadeia de suprimentos já utilizam inteligência artificial generativa e que apenas 23% possuem uma estratégia formal para IA. 2025. Disponível em:
- https://www.gartner.com/en/newsroom/press-releases/2025-02-05-gartner-survey-supply-chain-genai-productivity-gains-at-individual-level-while-creating-new-complications-for-organizations
- https://www.gartner.com/en/newsroom/2025-06-11-gartner-survey-shows-just-23-percent-of-supply-chain-organizations-have-a-formal-ai-strategy
*Gartner. Pesquisa aponta que a integração tecnológica e a disponibilidade de talentos estão entre os principais obstáculos para ampliar o uso da inteligência artificial na cadeia de suprimentos. 2026. Disponível em:
*Renato Junoy é diretor-geral da Melhor Envio









