Depois de tanto esperar a concessão do primeiro grau de investimento aos títulos públicos brasileiros em moeda estrangeira, talvez o único fato insólito tenha sido o momento do anúncio. Coincidindo com a boa notícia, outros dados sobre o desempenho da economia não revelam fundamentos tão sólidos como já tivemos em passado recente.
Do lado da inflação, por exemplo, o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) da Fundação Getúlio Vargas, subiu 9,81% nos últimos 12 meses encerrados em abril, o maior aumento do índice em 12 meses desde abril de 2005. Além disso, como a maioria dos contratos de reajustes de aluguéis tem cláusula de reajuste pela variação do IGP-M, o aumento já ocorrido se transmitirá à inflação de 2008 pelo aumento dos aluguéis. A esse aumento já ocorrido outros deverão seguir-se, especialmente o decorrente do aumento da gasolina no atacado, estimado em 0,1% por técnicos da FGV. Em abril, o preço da gasolina no atacado já havia subido 1,58%, em decorrência do aumento do álcool adicionado à gasolina. A expectativa é de que o IGP-M acumulado em 12 meses alcance 10% neste mês de maio.
Além disso, se deterioraram de forma significativa os números das contas externas. Pela primeira vez nos últimos cinco anos a conta corrente do balanço de pagamentos – diferença entre entradas e saídas de divisas com receitas de exportações de bens e serviços e pagamentos de importações de bens e serviços, inclusive com juros, dividendos e remessas de lucros – ficará no vermelho. Pior, a mudança de saldo positivo para negativo vem ocorrendo com uma velocidade maior que a anteriormente antecipada. Em 2006, o saldo em conta corrente foi positivo em 13,6 bilhões de dólares; em 2007, o saldo havia minguado para 1,5 bilhão. Somente no primeiro trimestre de 2008 o saldo já está negativo em 10,7 bilhões. Essa rápida deterioração (12,2 bilhões de dólares em três meses) está motivando preocupação, pela primeira vez nos últimos anos, com a possível perda de reservas internacionais.
E se é verdade que a entrada de investimentos diretos estrangeiros também é recorde e tem sido suficiente para cobrir até agora o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, não é menos verdade que esses investimentos criarão fluxos de saída de divisas com a posterior remessa de lucros e dividendos.
O cerne da questão externa está nos efeitos da política monetária, voltada ao combate à inflação, sobre o câmbio. Diversos fatores estão concorrendo para uma nova rodada de valorização cambial. O BC aumentou a taxa de juros brasileira simultaneamente à redução da taxa de juros americana, anunciada esta semana pelo Fed. Isso aumenta o diferencial de juros e, independentemente de outros fatores, atrai mais recursos externos, valorizando o câmbio.
O grau de investimento brasileiro amplia esse processo, já que grandes fundos americanos somente aplicam em papéis de países com investiment grade . Em decorrência, melhorou de forma significativa o prêmio de risco brasileiro no mercado internacional. Entre 19 de março passado e a véspera do anúncio da Standard & Poor’s , o risco brasileiro (medido pelo indicador EMBI+) caiu 22,4%, passando de 290 pontos básicos para 225 pontos. O anúncio do grau de investimento levou a uma queda adicional de 7 pontos. Com isso, nos distanciamos ainda mais da Argentina e Venezuela, cujos prêmios de risco são, respectivamente, 563 e 623 pontos básicos.
Em suma, o grau de investimento premia a autonomia operacional do Banco Central e o controle da expansão da dívida pública. Não decorreu de termos feito pelo menos uma das grandes reformas de segunda geração, ainda faltantes: as reformas fiscal e tributária, a reforma da legislação trabalhista, a reforma política, a reforma previdenciária. Quando as fizermos, saltaremos do primeiro grau de investimento ( BBB- ), onde estamos na companhia do Cazaquistão e da Romênia, para BBB (onde estão Croácia e Tunísia) e, quem sabe, para BBB+ , quando nos juntaremos ao México e à África do Sul.
Fonte: www.dcomercio.com.br







