Entre o fogo e a fúria

12/12/2008

Freqüentemente um amigo me liga para alertar sobre os perigos que corro de ser linchado, por conta das análises econômicas pouco educadas que faço. Tomo isso como elogio, apesar de não ter o menor interesse em apanhar.

O problema é que praticamente  toda a semana acontece alguma coisa no Brasil  que mereça ser ironizada. Falando nisso, deve ter sido antológica a última reunião do Conselho de Política Monetária que acabou decidindo manter os juros básicos (Selic) em 13,75% ao ano.

Vejamos, sucintamente, a contextualização da situação:

1- Os bancos centrais de todo mundo estão deixando seus juros básicos a quase zero para evitar o agravamento ainda maior de uma recessão global bastante intensa;

2- O nosso presidente da república, seguramente orgulhoso de si próprio pelos seus elevados níveis de aprovação popular, não deve querer macular essa situação;

3- Depois de um excelente desempenho do PIB do terceiro trimestre, a economia brasileira está acompanhando o resto do mundo e caminhando para recessão, conforme indicam os resultados da produção industrial de outubro;

4- O principal argumento para manter juros altos seria alguma ameaça inflacionária mais contundente, o que não está ocorrendo, mesmo como o aumento do preço dos importados pela desvalorização do real;

5- Finalmente, o custo do dinheiro para as pessoas físicas e empresas está nos patamares mais altos nos últimos cinco anos. A queda da Selic não resolveria, mas ajudaria a amenizar os juros, que são o principal alvo atual de insatisfação popular, em conjunto com a falta de segurança pública;
 
Bem, diante de argumentos tão fortes, porque será que o Copom não tomou coragem e reduziu os juros? Vamos, então, sintetizar o outro lado da moeda:

1.   Mesmo batendo subseqüentes recordes de arrecadação, o governo federal não saciou sua crescente fome de aumentar  custeio. Com isso, o endividamento público se manteve exageradamente elevado, com grande parte de sua rolagem vinculada a aplicações estrangeiras. E os investidores vêm tirando seu dinheiro do Brasil nos últimos meses, comprometendo a estabilidade da situação financeira do governo;

2.   Isso explica a recente e elevada desvalorização do real. E o Banco Central injeta dólares na economia para estabilizar a situação, o que não tem sido, efetivamente, uma estratégia bem-sucedida;

3.   Pelo outro lado, o tesouro nacional faz todo o esforço para buscar os aplicadores internacionais de volta. E a melhor maneira de convencê-los a isso é aumentar a remuneração dos títulos brasileiros, via majoração da Selic.

Em resumo, as autoridades monetárias se defrontaram com o claro impasse: aumentar juros, colocando definitivamente o Brasil na rota recessiva, além de ter de suportar a insatisfação popular e, muito pior, os puxões de orelha de um presidente que provavelmente ficaria em estado de fúria; ou baixar a Selic, inicialmente agradando a todo mundo, mas colocando o país em crescente risco de colapso da rolagem da dívida.

Entre uma e outra escolha, os tomadores de decisão preferiram ficar em cima do muro: deixar os juros inalterados para tentar ganhar tempo.

Mas ao mesmo tempo em que fizeram isso, continuamos expostos aos dois lados do risco.

E como solucionar a situação? o melhor teria sido aproveitar o aumento da arrecadação nos últimos anos, sanear a dívida e reduzir o tamanho do estado para que nossa sociedade pudesse usufruir de uma realidade de juros menores e impostos mais reduzidos. Nessas circunstâncias, o Brasil poderia estar crescendo tanto como a China, caso tivesse uma estratégia cambial voltada à exportação.

Mas como isso não aconteceu, estamos agora à mercê dos movimentos econômicos mundiais que não se mostram nada aprazíveis. A recessão vem aí e o dinheiro continuará faltando, mesmo com os juros básicos globais baixos.

Aparentemente, a saída mais à vista será reduzir os gastos públicos com investimento, já que a despesa estatal com custeio – depois de criada – é legalmente difícil de reduzir, especialmente no que se refere ao aumento do número de concursados.

Em resumo, projetos como o PAC deverão voltar para a casca do ovo, além de outras coisas que não se fala, faltando poucos dias para o Natal.

 


Eduardo Starosta
é economista: eduardostarosta@uol.com.br

 

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