Em busca da competitividade, Paraguai investe na logística portuária e avança no mercado brasileiro

06/06/2018

Osvaldo Agripino de Castro Junior (*)

Uma empresa é competitiva quando é capaz de oferecer produtos e serviços de maior qualidade, menores custos, incluindo os de logística, e tornar os consumidores mais satisfeitos do que os seus concorrentes. Nesse ambiente, a infraestrutura portuária é extremamente relevante, pois é capaz de reduzir os custos operacionais e os impactos ambientais de transporte, se comparada aos demais modais, como rodovia, ferrovia, dutovia e aéreo.

Infelizmente, essa infraestrutura não vai bem no Brasil! Uma das causas disso é o irrisório investimento público no setor portuário. Quando se trata do modal aquaviário, não há frota própria de navios, o que faz com que os usuários dependam 100% dos navios estrangeiros. Não há competitividade e defesa da concorrência internacional. Esse problema se agrava quando há somente um porto servindo a uma determinada região, como é o caso do Paraná.

O indicador de qualidade de portos do Banco Mundial, em pesquisa feita junto aos executivos de 133 países acerca dos portos no mundo, classificou o Brasil com nota 2,7 numa escala que vai de 1 a 7. Outros países da América do Sul, como Paraguai (3,1), Argentina (3,8), Colômbia (3,6), Peru (3,6) e Chile (4,9), tiveram notas bem melhores. A Holanda teve nota 6,8. Em qualidade de infraestrutura portuária, o Global Competitiveness Report 2017-2018, do Fórum Econômico Mundial, colocou o Brasil em 106º lugar.

Nesse cenário, destaca-se o exemplo do Paraguai. Embora com população (7 milhões) e economia (U$ 28 bilhões) pequenas, comparadas às do Brasil (207 milhões e U$ 1,9 trilhão), o Paraguai é o país que mais cresce no Mercosul, de acordo com o Banco Mundial. Com crescimento médio anual de 6% desde 2010, índice que já atingiu 3,4% no acumulado dos três primeiros meses deste ano, este pequeno país pensa grande quando se trata de aumentar a competitividade da sua logística.

Ao contrário do Brasil continental, o Paraguai não tem acesso ao mar, mas pretende construir doze portos para transportar, inclusive, cargas brasileiras do agronegócio. Não tem rodovias de qualidade, mas é um bom exemplo para o seu vizinho no que se refere à navegação hidroviária interior, por meio da otimização dos seus rios.

O foco na infraestrutura portuária e marítima trouxe dividendos inquestionáveis no longo prazo para o país vizinho. De 1988 a 2010, o transporte fluvial de mercadorias saltou de 700 mil ton./ano para 17,4 milhões ton./ano. Atualmente, 96% do que o Paraguai produz é exportado por hidrovias.

O país tem cerca de 3.000 barcaças, a terceira maior frota mundial, produzidas em 13 estaleiros locais ou importadas da China e da Turquia. Foram construídos 35 terminais de grãos: 24 no rio Paraguai e 11 no rio Paraná.

O exemplo do Paraguai pode ser ampliado pelo Brasil, com ganhos de escala para a nossa matriz de transporte, redução dos custos de transporte e maior competitividade, especialmente para os usuários do sul do país. O Paraguai tem que servir de exemplo para o Paraná, que criou o Programa Rotas para o Desenvolvimento no seu Plano Plurianual 2016-2019.

Dentre os objetivos desse programa está a otimização da infraestrutura de transporte do Estado por meio de sua modernização, viabilizando a integração multimodal e a criação de centros logísticos, assim como a ampliação da capacidade de movimentação dos portos paranaenses. O programa pretende, ainda, viabilizar a utilização de rotas aquaviárias de transporte no Estado e integrá-las às rodovias e ferrovias para aumentar a eficiência na movimentação de pessoas e mercadorias no Estado.

A modernização e expansão da infraestrutura portuária é uma das medidas necessárias para o atendimento das novas demandas dos clientes da área de abrangência da APPA (Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina), que precisa aumentar sua capacidade instalada e elevar seu desempenho operacional.

Mas isso, certamente, não será realizado apenas com investimentos públicos. Essa expansão depende necessariamente de investimentos privados, como é o caso do atual projeto de instalação de um novo terminal de contêineres em Pontal do Paraná, que ajudará a aumentar a capacidade operacional do Estado, quebrando o atual monopólio existente e aumentando a competitividade.

Mas, infelizmente, toda a matriz de transporte brasileira está quase estagnada por falta de investimentos público e privado e de planejamento estatal, o que tem feito com que modal rodoviário seja responsável por quase 62,8 % de toda a carga transportada no país, o ferroviário 21%, o aquaviário 12,6% e o dutoviário 3,6 % (ILOS, 2017).

Além do desequilíbrio em face da grande quantidade transportada por rodovias, verifica-se um não aproveitamento do potencial hidroviário brasileiro, com o uso de somente 13 mil km de hidrovias interiores, de um total de 43 mil km.

Outro bom exemplo é a China, onde mais de 50 % da produção é escoada pelo modal aquaviário e pelos portos, que funcionam há mais de três mil anos. O terminal de contêineres de Yangshan, em Xangai, movimentou 40 milhões de TEUs em 2017, enquanto todo o Brasil movimento apenas 9,1 milhões de TEUs no ano passado (Antaq).

Vale destacar que o custo de operação de um contêiner, unidade de carga que mudou a economia mundial, depende da concorrência de linhas marítimas e oferta de portos. Por isso, é urgente aumentar a oferta de terminais no Brasil, o que é possível com investimentos privados via Terminais de Uso Privado, modelo trazido pela nova Lei dos Portos.

(*) Advogado, especializado em Comércio Exterior, Direito Marítimo e Portuário, bacharel em Ciências Náuticas, doutor em Direito com pós-doutorado em Regulação de Transportes e Portos pela Universidade Harvard e professor do mestrado e doutorado em Ciência Jurídica da Universidade do Vale do Itajaí e do mestrado em Engenharia de Transportes e Gestão Territorial da UFSC.

Compartilhe:
Leilões de três terminais portuários garantem mais de R$ 226 milhões em investimentos privados
Leilões de três terminais portuários garantem mais de R$ 226 milhões em investimentos privados
Atualização da NR-1 amplia responsabilidade das transportadoras sobre saúde mental a partir de maio de 2026, aponta SETCESP
Atualização da NR-1 amplia responsabilidade das transportadoras sobre saúde mental a partir de maio de 2026, aponta SETCESP
BNDES já aprovou R$ 3,7 bilhões para renovação de frota de caminhões em 1.028 municípios
BNDES já aprovou R$ 3,7 bilhões para renovação de frota de caminhões em 1.028 municípios
Santos Brasil inicia serviço Ásia-América do Sul no Tecon Santos com operação da HMM e ONE
Santos Brasil inicia serviço Ásia-América do Sul no Tecon Santos com operação da HMM e ONE
Acidentes com caminhões geram R$ 16 bilhões em custos e expõem falhas na gestão de frotas, aponta TruckPag
Acidentes com caminhões geram R$ 16 bilhões em custos e expõem falhas na gestão de frotas, aponta TruckPag
Manutenção preventiva em armazéns ganha espaço como vantagem competitiva, aponta Tria Empilhadeiras
Manutenção preventiva em armazéns ganha espaço como vantagem competitiva, aponta Tria Empilhadeiras

As mais lidas

01

Executivos alertam para riscos do “Herói da Logística” no transporte terceirizado
Executivos alertam para riscos do “Herói da Logística” no transporte terceirizado

02

Vagas no setor logístico e industrial ganham força em diferentes regiões do país
Vagas no setor logístico e industrial ganham força em diferentes regiões do país

03

Santos Brasil inicia serviço Ásia-América do Sul no Tecon Santos com operação da HMM e ONE
Santos Brasil inicia serviço Ásia-América do Sul no Tecon Santos com operação da HMM e ONE