E se o remédio amargo não resolver?

11/06/2008

É saudável que autoridades econômicas encarem objetivamente os problemas porque passa a economia e sinalizem para a população em geral, e para os agentes econômicos em particular, qual o seu real entendimento deles. Essa forma de agir permite que os agentes possam formar expectativas corretas a respeito do que vai fazer o governo. E, formadas essas expectativas, para que tomem decisões que sejam consentâneas com as do governo, permitindo que mais rapidamente os problemas sejam superados.

As autoridades já haviam apoiado na semana anterior a decisão do Copom de mais uma vez elevar a taxa básica de juros. Uma nova dose do remédio amargo tornou-se necessária porque o consumo interno está crescendo mais rapidamente que a capacidade de produção, criando pressões para o aumento dos preços. A esses aumentos, corretamente interpretados como inflação, já que generalizados, se somam mudanças de preços relativos de alimentos e energia, provocados pelos expressivos aumentos nos preços dos alimentos e do petróleo no mercado internacional. Agora, as autoridades reconheceram que a inflação deve desacelerar somente no último trimestre do ano e que poderá ocorrer uma "ligeira desaceleração" do crescimento do PIB neste ano.

No primeiro caso, trata-se de reconhecer que a inflação (medida pelo IPCA) provavelmente ficará acima do centro da meta, fixada em 4,5% para este ano. No segundo caso, de que provavelmente não se repetirá em 2008 a mesma taxa de crescimento do PIB ocorrida em 2007 (5,4%). Embora seja razoável supor que fique entre 4,5% e 5%, como espera o mercado, o resultado não é tão mau assim, considerando-se que a base de comparação é um PIB que já havia crescido 5,4% em 2007.

No que diz respeito à inflação, há diversas questões a considerar. Em primeiro lugar, a comparação da inflação nos últimos 12 meses padece de uma certa ilusão de ótica, já que os números mensais de 2007 foram particularmente favoráveis no período janeiro-setembro. A inflação média do IPCA foi de 0,25% ao mês nos primeiros nove meses de 2007, o que corresponderia a uma inflação anualizada de 3,04%; no último trimestre do ano passado, a inflação média subiu para 0,47% ao mês, correspondendo a uma inflação anualizada de 5,8%. Já a média da inflação do IPCA nos primeiros quatro meses deste ano está em 0,51%, correspondente a uma inflação anualizada de 6,36%. Embora ainda acima da inflação do último trimestre de 2007, é com ela mais parecida do que com os aumentos típicos de preços dos primeiros nove meses do ano passado. Portanto, ao chegarmos ao último trimestre deste ano, não observaremos a aceleração da inflação de 12 meses que observamos hoje.

Em segundo lugar, tomando agora o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) como indicador da inflação, no último trimestre de 2007 o grupo "alimentos e bebidas" mostrou uma elevação mensal média de 1,34%. Nos primeiros quatro meses deste ano, o aumento médio foi de 1,21%. Estaríamos observando uma desaceleração da inflação de alimentos? Parece cedo para dizer, embora seja positivo que a inflação dos alimentos não esteja se acelerando.

O que é certo é que, para se chegar a uma inflação de 5% este ano, valor ligeiramente acima da média da meta de inflação, será necessário uma forte desaceleração na inflação nos últimos oito meses do ano. Os aumentos na taxa de juros visam precisamente isso, ajustar o consumo à disponibilidade de produtos no mercado interno, reduzindo as pressões sobre os preços. A grande questão gira em torno do início do aperto e da dosagem dos aumentos dos juros: serão suficientes para produzir os efeitos desejados ainda este ano?

Aqui entra a terceira boa notícia na área do realismo do tratamento do problema da inflação: as autoridades estão publicamente reconhecendo a necessidade de atacar as origens fiscais da inflação. Nesse sentido, anunciaram o aumento do saldo primário, quando teria sido preferível uma redução pura e simples das despesas correntes. Exceto por isso, que continue o governo nessa nova linha de transparência em seu diálogo com a sociedade.

Fonte: www.dcomercio.com.br

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