O combustível ficou mais caro, e controlar custos já não é suficiente 

*Por Rodrigo Somogyi

Sempre que o preço do combustível sobe, a reação do mercado costuma ser a mesma: preocupação com aumento de custos, com margem e busca imediata por redução de despesas. E faz sentido. O diesel representa, em média, 35% do custo operacional das transportadoras brasileiras, a maior fatia na estrutura de despesas do setor, segundo a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística).

Nos últimos meses, as oscilações do petróleo e do Diesel S-10 pressionaram ainda mais empresas que dependem de frota para operar, seja ela expressiva ou apenas um veículo que faz o transporte dos colaboradores. Apesar da redução recente nos preços — com o Diesel S-10 acumulando queda de 4,5% nas bombas nas últimas semanas e sendo comercializado, em média, a R$ 7,16 no Brasil — o cenário continua exigindo atenção. 

E existe um ponto que ainda passa despercebido. O impacto do combustível vai além da bomba: envolve toda a lógica da operação de empresas que lidam com a mobilidade.

O mercado costumava normalizar processos ineficientes porque acreditava que era “o custo necessário” para ter controle. Em muitos casos, isso também significou operar com modelos engessados de abastecimento, baseados em redes restritas e meios de pagamento pouco flexíveis, o que reduz a autonomia da frota e limita a otimização da operação.

Deslocamentos extras até postos específicos, baixa visibilidade dos dados e decisões tomadas sem controle em tempo real passaram a fazer parte da rotina. 

O problema é que, em um contexto de volatilidade e pressão sobre custos, pequenas ineficiências evoluem de detalhes para problemas estruturais.

O desperdício que não aparece na bomba

Existe uma percepção comum de que controlar combustível significa apenas negociar centavos no litro. Mas a realidade é muito mais complexa. 

Quando um motorista precisa sair da rota para encontrar um posto credenciado, existe um custo invisível, o chamado “quilômetro fantasma”. Nele, a frota roda além do necessário sem gerar valor real para a empresa. 

Da mesma forma, a falta de visibilidade sobre desvios, padrões de abastecimento e comportamento da operação também gera ineficiência. E, em muitos casos, o próprio modelo de pagamento acaba criando mais um gargalo dentro da gestão da frota.

Na maioria das vezes, esses desperdícios não aparecem de forma explícita na fatura. Eles aparecem na soma de quilômetros desnecessários, no retrabalho diário, na perda de produtividade e no consumo invisível de margem.

O mercado passou anos olhando apenas para o preço da bomba, enquanto deixava de observar o impacto do modelo de gestão como um todo. Agora, em uma realidade de combustível caro e maior pressão por eficiência, isso começa a mudar.

O novo papel do gestor de frota

A alta constante dos combustíveis acelerou uma mudança que já vinha acontecendo silenciosamente nas empresas: a gestão de frotas deixou de ser somente operacional. 

O papel do gestor moderno não inclui apenas atuar como um responsável por abastecimentos ou controle de despesas. Hoje, o trabalho passa cada vez mais pela capacidade de interpretar dados, identificar gargalos invisíveis e tomar decisões rápidas com base em informações confiáveis.

Isso significa acompanhar as oscilações do mercado, padrões de consumo, comportamento de abastecimento, eficiência por rota, desvios operacionais e oportunidades de otimização que antes simplesmente não eram percebidas dentro da rotina da operação.

Mais do que controle, a gestão de frotas passou a exigir decisões orientadas por dados. Quem consegue acompanhar informações em tempo real, validar dados com mais precisão e identificar inconsistências antes que elas se transformem em prejuízo ganha o jogo.

A lógica do mercado começa, aos poucos, a mudar. Empresas que estão conseguindo reduzir custos de forma consistente não são necessariamente as que negociam melhor o combustível. São as que conseguem ter uma visão mais ampla do negócio, com transparência, autonomia e maior capacidade de análise.

No fim, eficiência real não é apenas abastecer mais barato e fazer a frota rodar com mais eficiência. É fazer cada quilômetro valer mais.

*Rodrigo Somogyi é diretor executivo da VEIC, solução para abastecimento de combustível para frotas

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