Como a crise mundial pode nos atingir

24/01/2008

Qualquer que seja o tamanho da crise, os seus efeitos sobre a economia brasileira serão muito menores que em passado recente. O câmbio flutuante absorve os choques de mudanças na demanda e nos preços externos; a redução da relação dívida/PIB amortece os choques de natureza financeira, já que é relativamente menor a dívida a financiar _ uma decorrência da lei de responsabilidade fiscal. Finalmente, a inflação está relativamente baixa graças ao regime de metas de inflação, que assegura que quando a crise bater por aqui os preços estarão relativamente bem comportados. O tripé câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e metas de inflação amortecerá boa parte dos choques, qualquer que seja a intensidade deles.

Não quer isso dizer que se está menosprezando o tamanho da crise. Sua intensidade pode ser sumariada no fato de o principal índice bursátil americano, o Dow Jones industrial, ter fechado nesta terça-feira no nível mais baixo dos últimos 15 meses.

Estamos em meio a um processo de ajuste de preços de ativos, principalmente de residências nos EUA, e ações em todo o mundo. Foi a tentativa de impedir que esse ajuste tivesse se realizado nos últimos anos que tornou mais aguda a crise e maiores as perdas para famílias e investidores.

A questão, agora, é saber como a continuidade desse processo de ajuste pode nos afetar. Há dois canais a prestar atenção nesse processo.

Oprimeiro canal é o dos mercados financeiros. Esses mercados trabalham com ‘expectativas’ e miram o futuro, em lugar de olhar pelo retrovisor. As mudanças de preços nos mercados financeiros são abruptas e rápidas, acentuadas e de amplitude geográfica maior com o aprofundamento da globalização e desregulamentação dos mercados financeiros.

As perdas de bancos e fundos nos EUA e outros países desenvolvidos reduzirão os fluxos de recursos para os países emergentes e, em muitos deles, produzirão o retorno de capitais de curto prazo que haviam sido atraídos aos emergentes pelos diferenciais de juros pagos. Isso tornará a redução das taxas de juros mais difícil e terá efeitos sobre o investimento e o crescimento do PIB desses países.

O segundo canal é o dos mercados ‘reais’ de bens e serviços. Ao contrário dos mercados financeiros, esses mercados reagem mais lentamente às mudanças nos fundamentos econômicos e nas expectativas. Diversos mecanismos foram desenvolvidos nas economias modernas para assegurar que a volatilidade nos preços não inviabilizasse o horizonte de planejamento das empresas. Esses mecanismos incluem contratos de fornecimento de longo prazo e mercados futuros para os preços das principais commodities transacionadas no mercado internacional.

A crise pode nos atingir por um ou por ambos os canais, com maior ou menor intensidade, dependendo do grau de desaceleração da economia dos EUA e de seus efeitos sobre os preços dos produtos exportados pelas empresas brasileiras.

A economia americana desacelerará porque o consumo corresponde nos EUA a 70% do PIB e os consumidores americanos estão se sentindo mais pobres com a queda no valor de suas moradias e de seus fundos de ações. Sentindo-se mais pobres consumirão menos, levando as empresas também a reduzir seus investimentos; ambos os movimentos levarão no mínimo a uma desaceleração do crescimento americano.

A China tem nos EUA seu maior mercado e a China é o grande motor da demanda mundial por commodities. A China é o principal destino das exportações de commodities brasileiras. Uma desaceleração da demanda americana por produtos chineses provavelmente implicará, em um primeiro momento, em formação de estoques na China, já que não é possível parar uma economia que cresce a mais de 10% ao ano há mais de 15 anos. Eventualmente, contudo, a produção se reduzirá e com ela a demanda por commodities brasileiras. Se isso ocorrer, afetará o segmento mais dinâmico das exportações brasileiras.

É por aí que a crise pode chegar a nós.

Se há uma lição a tirar do episódio, é a de que devemos aprofundar o nosso ajuste interno, nem que seja para nos resguardar de outras crises no futuro.

 

Fonte: Diário do Comércio

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