Da operação ao protagonismo: como automação e IA transformaram a logística em um ativo estratégico

*Por Renan Salinas

Durante muitos anos, a logística foi tratada pelas organizações como uma área essencialmente operacional, responsável por armazenar produtos, controlar estoques e garantir entregas dentro dos prazos estabelecidos. Seu papel era importante, mas frequentemente associado à redução de custos e à eficiência operacional.

Hoje, essa realidade mudou. Impulsionado pela digitalização dos negócios, pelo crescimento do comércio eletrônico, pelas novas exigências dos consumidores e pela busca por cadeias mais resilientes, o setor logístico deixou de ser visto como um centro de custos e passou a ocupar uma posição estratégica dentro das empresas.

Nesse novo cenário, tecnologias como inteligência artificial, automação de processos e análise avançada de dados estão redefinindo a forma como as operações logísticas são planejadas, executadas e monitoradas. Ao mesmo tempo, temas relacionados à sustentabilidade e às práticas ESG passaram a integrar a agenda do setor, ampliando sua relevância para os resultados do negócio.

De acordo com dados da Infor Reports – Inovação na Logística 2025, estudo lançado pela Infor Brasil, para maioria das empresas entrevistadas (57%), a Inteligência Artificial é a principal tendência que terá mais impacto na transformação da logística do futuro, seguida pela automação robótica (53%).

Os dados do estudo estão em linha com o crescimento dos investimentos em IA no setor logístico brasileiro que, já em 2023, cresceram 46% em comparação ao ano anterior, alcançando quase US$ 2 bilhões em todo o território nacional (McKinsey & Company). E essa é uma tendência global: uma projeção da Markets and Markets aponta que o mercado global de IA para supply chain deve crescer a uma taxa anual de 22,9% até 2031, quando os investimentos devem superar US$ 50 bilhões em todo o mundo.

O desafio de fazer mais com menos

A pressão sobre as operações logísticas nunca foi tão grande. Consumidores esperam entregas mais rápidas, maior visibilidade sobre seus pedidos e experiências cada vez mais personalizadas. Empresas, por sua vez, precisam equilibrar eficiência, custos, disponibilidade de produtos e conformidade regulatória.

Nesse contexto, a gestão baseada em processos manuais e sistemas isolados tornou-se insuficiente.

A complexidade das cadeias de suprimentos modernas exige operações capazes de responder rapidamente a mudanças de demanda, interrupções de fornecimento, variações de estoque e oscilações de mercado. E é justamente nesse ponto que a automação ganha protagonismo.

Automação como alicerce da eficiência

A automação de processos permite eliminar tarefas repetitivas, reduzir erros operacionais e aumentar a velocidade de execução das atividades logísticas.

Processos como conferência de documentos, gestão de pedidos, emissão de notas fiscais, atualização de estoques, rastreamento de cargas e integração entre sistemas podem ser automatizados, reduzindo gargalos e liberando equipes para atividades de maior valor estratégico.

Mais do que acelerar operações, a automação promove padronização e rastreabilidade. Isso significa que as empresas passam a ter maior controle sobre suas rotinas, melhor capacidade de auditoria e mais previsibilidade na tomada de decisões.

Em um ambiente no qual minutos podem impactar diretamente custos e níveis de serviço, a eficiência operacional deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade competitiva.

Inteligência artificial amplia a capacidade de decisão

Se a automação melhora a execução, a inteligência artificial amplia a capacidade de análise e tomada de decisão.

A partir da combinação de grandes volumes de dados, algoritmos de aprendizado de máquina e modelos preditivos, a IA permite que as empresas antecipem cenários e ajam de forma mais estratégica.

Na prática, isso significa prever oscilações de demanda, identificar riscos de ruptura de estoque, otimizar rotas de transporte, melhorar o planejamento de distribuição e até antecipar necessidades de manutenção em equipamentos e frotas.

A inteligência artificial também contribui para aumentar a visibilidade sobre toda a cadeia logística, transformando dados operacionais em informações acionáveis para gestores e equipes.

O resultado é uma operação mais inteligente, capaz de responder com rapidez a mudanças e reduzir impactos causados por imprevistos.

Integração é o novo diferencial competitivo

Entretanto, os benefícios da automação e da inteligência artificial dependem de um fator muitas vezes negligenciado: a integração.

Muitas organizações ainda convivem com sistemas fragmentados, dados dispersos e processos desconectados. Isso limita a capacidade de obter uma visão completa da operação e reduz o potencial das tecnologias avançadas.

Por isso, a transformação logística passa necessariamente pela integração entre áreas, plataformas e fluxos de informação.

Quando sistemas de estoque, transporte, compras, atendimento e gestão financeira operam de forma conectada, a empresa consegue tomar decisões mais rápidas, reduzir retrabalho e aumentar a eficiência de ponta a ponta.

A inteligência artificial se torna mais eficaz justamente quando tem acesso a dados consistentes, atualizados e compartilhados entre diferentes processos.

Logística e ESG caminham juntas

Outro aspecto que reforça o papel estratégico da logística é sua crescente relação com a agenda ESG.

A busca por operações mais sustentáveis tem levado empresas a utilizar tecnologia para reduzir desperdícios, otimizar rotas, diminuir emissões de carbono e melhorar a utilização de recursos.

Nesse contexto, automação e inteligência artificial não contribuem apenas para ganhos de produtividade. Elas também ajudam a tornar as operações mais sustentáveis e alinhadas às expectativas de clientes, investidores e órgãos reguladores.

A capacidade de monitorar indicadores ambientais, rastrear operações e gerar relatórios com maior precisão fortalece a governança e amplia a transparência das cadeias logísticas.

O futuro da logística já começou

A logística moderna deixou de ser uma função de apoio para se tornar um elemento central da estratégia empresarial. Em um ambiente marcado por volatilidade, exigências crescentes e competição global, a capacidade de operar com eficiência, inteligência e integração tornou-se um diferencial decisivo.

Nesse cenário, automação de processos e inteligência artificial não são mais tendências para o futuro. Elas representam os principais instrumentos para construir operações mais resilientes, escaláveis e sustentáveis.

As empresas que compreenderem essa transformação estarão mais preparadas para enfrentar os desafios de um mercado em constante mudança. Afinal, a logística do futuro não será definida apenas pela capacidade de movimentar produtos, mas pela capacidade de transformar dados, processos e tecnologia em vantagem competitiva.

*Renan Salinas é CEO da Yank Solutions

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