A infraestrutura de transportes no Brasil

16/06/2009

Que nesta área a situação de nosso país não é das melhores, todo mundo sabe. Agora, para abordar os aspectos técnicos deste cenário, bem como apontar o que está errado, o que falta ser feito e, sobretudo, quem pode melhorar a situação atual da infraestrutura de transportes brasileira, a Logweb conversou com o engenheiro Antonio Wrobleski Filho, consultor em logística com pós-graduação em Finanças e M.B.A. pela N.Y.U. e que tem grande experiência na indústria automotiva e no assunto infraestrutura de transportes, além de conhecimento sobre temas como macroeconomia e Mercosul.

Dentre outros aspectos, ele destaca a avançada idade média da frota brasileira de caminhões – 18 anos – e diz que a falta de infraestrutura penaliza a frota com custos mais altos de manutenção em decorrência do muito tempo de uso, um fator agravado ainda mais pelas más condições das nossas estradas. Infelizmente, nesse caso, o entrevistado acredita que o atual panorama não oferece espaço para otimismo, pois o setor que já sofre com falta de financiamento pode se complicar mais na crise, que atingiu justamente as operações financeiras, como a liberação de crédito.

Confira o que ele pensa sobre outros aspectos da defasada infraestrutura de transportes no país.

Logweb: Atualmente, quais são os principais gargalos presentes na infraestrutura de transportes brasileira? De que maneira eles impactam ou podem impactar no desenvolvimento do país?
Wrobleski: No Brasil, os três maiores gargalos da infraestrutura de transportes são, em primeiro lugar, a falta de planejamento e cumprimento das dotações orçamentárias; em segundo, a política de suporte financeiro, que é inadequada ao setor; e, em terceiro, a falta de entendimento e priorização dos modais. Os impactos destes entraves são evidentes. Para percebê-los de forma clara, basta observar o caos que se tornou o trânsito nas grandes cidades brasileiras. E a tendência é piorar. Neste panorama, faz-se importante lembrar que, até outubro, quando a crise mostrou seus primeiros sinais, a cidade de São Paulo recebia quase mil veículos novos ao dia por um longo tempo e, independente de qualquer novo cenário econômico, eles continuarão a circular pelas mesmas ruas e estradas daqui a dois anos, quando a crise tiver passado.

Logweb: Quais são as necessidades mais urgentes para que os gargalos sejam solucionados ou, ao menos, aliviados?
Wrobleski: Priorização dos entraves mais urgentes a serem solucionados e financiamentos mais acessíveis. Além disso, não se pode pensar em soluções para os entraves logísticos do Brasil sem falar na construção de anéis viários e na melhora da malha ferroviária. Por exemplo: tomando por base apenas o indicador logístico "tempo de trânsito", que mede eficiência e custo, enquanto a velocidade média de um caminhão carregado de soja nos Estados Unidos é de 80 km/h, na região Sudeste do Brasil, onde se encontra a melhor malha viária do país, essa velocidade cai para 50 km/h – quase 40% inferior. Se no Sudeste o cenário é este, é possível termos uma dimensão do problema nas outras regiões, cuja infraestrutura de transporte é ainda mais deficitária.

Logweb: O que precisa ser feito no que tange a estradas e rodovias?
Wrobleski: No que diz respeito às estradas e rodovias brasileiras, é importante frisar que não basta privatizar. Há necessidade de se desafogar o trânsito e construir bolsões logísticos para melhorar a distribuição da produção brasileira.

Logweb: O que precisa ser feito referente ao transporte ferroviário?
Wrobleski: É necessário que o transporte ferroviário brasileiro seja repensado para se promover a interligação com outros modais. Além disso, temos de entender as necessidades e oferecer opções à iniciativa privada, pois existe uma concentração absurda neste segmento.

Logweb: O que precisa ser feito em relação ao transporte aquaviário, incluindo portos, rios, etc.?
Wrobleski: No que tange ao transporte aquaviário, é necessário abrir totalmente este mercado à iniciativa privada e promover a vinda de grandes empresas internacionais, como, por exemplo, ocorre no Porto de Amsterdã, na Holanda.

Logweb: Para um país emergente, como o Brasil é visto lá fora, qual a importância de se ter uma infraestrutura de transportes em boas condições?
Wrobleski: O fato de se ter uma boa infraestrutura de transporte é condição primária de desenvolvimento sustentável, além de ser uma grande saída para atrairmos investimentos consistentes em todos os setores.

Logweb: É possível alavancar a infraestrutura de transportes no Brasil em quanto tempo? De que forma isso pode ser feito e quem são os principais responsáveis por isso?
Wrobleski: É possível alavancar priorizando investimentos para resolver os pontos mais críticos. Neste sentido, podemos mudar nosso perfil em 10 anos. A grande responsável sempre será a sociedade empresarial brasileira, em um trabalho conjunto com o governo.

Logweb: Qual o papel do PAC no que diz respeito ao assunto infraestrutura de transportes? Os investimentos anunciados pelo Programa nesta área vêm sendo cumpridos? Caso não, por quê?
Wrobleski: O PAC é de fundamental importância por ser a luz estratégica e de norte, mas as grandes dificuldades, talvez burocráticas, não o permitem decolar. Falta mais envolvimento da sociedade empresarial. Toda a sociedade deve pressionar as autoridades para agilizar a liberação dos investimentos. Embora não apareça de forma clara, a logística tem reflexo em toda a cadeia de composição dos preços, com impacto direto sobre a competitividade das empresas.

Logweb: Como é possível manter os investimentos mesmo em tempos de crise?
Wrobleski: Com priorização e redirecionamento. Vale lembrar que, sem desenvolvimento econômico, as próprias questões sociais acabam ficando relevadas a um segundo plano. Mesmo que a crise reduza o ritmo de crescimento do PIB brasileiro, que pode não chegar a 5%, algumas indústrias podem deixar de crescer a uma taxa de 25% para crescer 10%, o que ainda é um índice positivo e faz aparecer a nossa carência de infraestrutura, principalmente de transporte, que se encontra no limite.

Logweb: O que pode acontecer no caso de os investimentos programados serem adiados ou até mesmo cancelados?
Wrobleski: Os investimentos do PAC não podem ser postergados. Caso isso ocorra, reinará o "caos", com estrangulamento nas malhas viárias, ferroviárias e de infraestrutura aeroportuárias. Para se ter uma idéia do cenário atual, uma situação próxima do ideal para a indústria nacional exigiria a aplicação de cerca de 5% do PIB na construção e duplicação de estradas, ampliação e modernização dos portos, etc. Porém, estes aportes não chegam a 1% do PIB e, deste 1%, apenas 10% foram liberados em função da burocracia governamental e outros entraves. Isso nos leva a questionar onde está o PAC e em que medida o crescimento do Brasil está sendo realmente acelerado.

Logweb: Como você projeta o cenário de infraestrutura de transportes no Brasil em curto, médio e longo prazos?
Wrobleski: Ao melhorar a infraestrutura de transporte e reduzir custos, há redução de preço do veículo ao consumidor, o que pode representar um excelente estímulo ao crescimento da indústria, com geração de divisas e consequente reflexo social com a criação e manutenção de empregos. Projeto o cenário com muita esperança na conscientização e entendimento das necessidades primárias de uma sociedade que almeja o bem-estar social e menor desigualdade.

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