Os acidentes nas rodovias federais brasileiras atingiram níveis alarmantes em 2025 e passaram a expor, além das falhas estruturais do sistema viário, um colapso na saúde mental dos motoristas. Ao longo do ano, foram registrados oito acidentes por hora, o equivalente a 199 ocorrências diárias, configurando um cenário contínuo de violência no trânsito.
Levantamento da Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans-MG), com base em dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), aponta que, a cada 100 acidentes, cerca de oito pessoas morreram e 115 ficaram feridas. Desse total de feridos, 24% sofreram lesões graves. A proporção revela aproximadamente 13,8 feridos para cada morte, impacto que recai diretamente sobre o sistema público de saúde, a previdência social e milhares de famílias brasileiras.

Segundo os dados oficiais de acidentalidade divulgados pela PRF, foram contabilizados em 2025 72.476 acidentes, que resultaram em 6.040 mortes e 83.490 feridos, sendo 20.002 em estado grave. Dentro desse cenário, chama atenção o peso dos fatores humanos: 84,1% dos acidentes foram causados por falhas do condutor e responderam por 91,5% de todas as mortes registradas nas rodovias federais.
Esse quadro coincide com uma crise mais ampla da saúde mental no Brasil. Dados do Ministério da Previdência Social, divulgados pelo g1, mostram que o país alcançou em 2025 o recorde de 546.254 afastamentos do trabalho por transtornos mentais, alta de 15% em relação ao ano anterior. Ansiedade e depressão lideram as estatísticas, com quase 300 mil casos combinados. Para Adalgisa Lopes, presidente da Actrans-MG e especialista em psicologia do trânsito, o problema é estrutural. Ela avalia que “quando 91,5% das mortes nas rodovias derivam de erros do condutor, fica claro que o asfalto é apenas o cenário onde se manifesta o limite extremo da nossa exaustão física e mental”. A especialista também reforça que deixar de avaliar motoristas sem multas nos processos de renovação da CNH é um erro grave.
A análise técnica da PRF indica que a ausência de reação do condutor é a principal causa de acidentes, com 11.456 registros. Esse dado, segundo especialistas, aponta para um apagão cognitivo provocado por estresse crônico e burnout. Adalgisa Lopes explica que a “ausência de reação”, líder absoluta nas estatísticas, revela uma sociedade em burnout viário, na qual o cérebro, sobrecarregado, perde a capacidade de reagir ao perigo iminente.
Saúde mental e segurança viária
A letalidade associada à saúde mental também se manifesta na forma como os veículos são utilizados. “Um veículo pode se tornar um instrumento de autodestruição quando a dor psíquica é ignorada. A altíssima letalidade nos casos de suicídio e o uso do álcool provam que o acolhimento psicológico é hoje um item de segurança tão vital quanto o cinto de segurança ou o airbag”, analisa Giovanna Varoni, especialista em psicologia do trânsito.
O álcool, presente em 3.685 acidentes, aparece muitas vezes como tentativa de automedicação emocional, mas compromete o sistema nervoso e elimina a autocrítica necessária para dirigir. Além disso, situações de explosões emocionais, perseguições e o uso do veículo como arma em conflitos de trânsito reforçam a gravidade do problema.
Outro fator relevante é a fadiga. Em 2025, 2.117 acidentes foram causados por motoristas que dormiram ao volante. Especialistas comparam a privação de sono à embriaguez, destacando que seus efeitos reduzem drasticamente reflexos e capacidade de decisão. Somam-se a isso os casos de mal súbito, responsáveis por 87 mortes no período. Para Carlos Luiz Souza, vice-presidente da Actrans-MG, “o mal súbito ao volante é o alerta máximo de que a saúde do condutor é indissociável da segurança da via”. Ele afirma: “Ignorar o controle de doenças crônicas é transformar o motorista em um passageiro de um projétil desgovernado, onde o corpo falha muito antes da máquina”.
Nesse contexto, a flexibilização das leis de trânsito, como a facilitação da renovação da CNH para condutores sem multas, ocorre em um momento de elevada instabilidade na saúde dos motoristas. Para Adalgisa, “quando o sistema de saúde registra o maior número de afastamentos por saúde mental em uma década e as rodovias registram 8 acidentes por hora, fica claro que a prevenção precisa ir além da fiscalização de multas”. Ela completa que o acolhimento psicológico e o rigor nos exames de saúde são hoje ferramentas essenciais de sobrevivência coletiva.








