
O Guia Salarial 2027 da consultoria Michael Page traz um panorama detalhado sobre o mercado de supply chain no Brasil. O levantamento — que ouviu 5.762 profissionais e 1.955 empresas em 15 setores — aponta um cenário de paradoxo tecnológico, forte cobrança por eficiência de custos e escassez de profissionais com visão sistêmica da cadeia.
O paradoxo da Inteligência Artificial em Supply Chain
Apesar de 90% das empresas da área reconhecerem os benefícios do uso da inteligência artificial (IA), apenas 19% colocam investimentos em inovação e IA entre suas prioridades. Esse índice é o menor entre todos os setores avaliados pelo estudo e fica bem abaixo da média nacional, que é de 30%. Além disso, 83% das companhias ainda oferecem acesso restrito ou nenhum acesso a essas ferramentas.
Em contrapartida, a pressão por eficiência operacional continua alta: 73% das organizações colocam a redução de custos entre as principais prioridades e 53% citam a otimização de estruturas e equipes.
“Supply chain tem uma equação curiosa: precisa investir para continuar reduzindo custo. Uma previsão de demanda melhor pode significar menos estoque parado, uma compra mais precisa ou menos urgência na logística. O ganho existe, mas muitas vezes aparece espalhado pela operação e isso torna mais difícil mostrar, de saída, quanto aquele investimento devolve”, explica Gustavo Barbosa, gerente sênior de recrutamento e seleção da Michael Page Brasil.
Como reflexo desse baixo investimento corporativo inicial, apenas 2% das empresas apontam a falta de competências em IA e tecnologia como um desafio no momento de contratar.
Perfil buscado e o desafio da contratação
As dificuldades recentes de abastecimento mudaram as exigências do mercado: as companhias buscam profissionais capazes de conectar planejamento de demanda, estoque, produção, compras e logística de forma integrada, superando a visão isolada por etapas.
No entanto, encontrar esse perfil é um grande gargalo, pois 73% das empresas apontam a atração de candidatos qualificados como um dos seus maiores desafios. O modelo de trabalho na área também permanece predominantemente tradicional: 69% das empresas operam em regime integralmente presencial (comparado a 51% na média nacional).
Além disso, 48% das companhias não pretendem conceder aumentos salariais além dos reajustes obrigatórios no próximo ano. Como 69% dos profissionais considerariam deixar seus empregos por falta de perspectiva de crescimento, a gestão de carreira e benefícios torna-se crucial na retenção de talentos.
Panorama de remuneração (Gerência)
O estudo destaca que a complexidade da indústria impacta diretamente o patamar salarial. Setores com cadeia fria, alta rastreabilidade e rigor regulatório — como o farmacêutico — costumam remunerar melhor devido ao alto impacto de eventuais erros operacionais.
Abaixo estão listados os maiores salários mensais praticados em empresas de grande porte para cargos de gerência, segundo o Guia Salarial 2027:
- Gerente de compras (segmento farmacêutico): R$ 45 mil
- Gerente nacional de operações (segmento de transporte, operações, logística e trade): R$ 43 mil
- Gerente de supply chain (segmento de transporte, operações, logística e trade): R$ 40 mil
- Gerente de compras (segmento de transporte, operações, logística e trade): R$ 40 mil
- Gerente de logística (segmento farmacêutico): R$ 40 mil
- Gerente de supply chain (segmento farmacêutico): R$ 39 mil
- Gerente de operações (segmento de varejo e e-commerce): R$ 39 mil
- Gerente nacional de operações (segmento farmacêutico): R$ 39 mil
- Gerente de planejamento de demanda e produção (segmento farmacêutico): R$ 38 mil
Para fins de comparação, a diferença de remuneração para a mesma função pode variar bastante conforme o setor; por exemplo, um gerente de compras chega a R$ 45 mil na indústria farmacêutica, mas registra cerca de R$ 30 mil no setor de Telecom (uma variação de 50%).








