A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra brasileira de grãos de 2025/26, estimada em 358,6 milhões de toneladas, reacendeu o debate sobre a capacidade logística do País para escoar uma produção recorde. Na avaliação da Flowls, plataforma brasileira de gestão de operações de comércio exterior, o aumento do volume reforça a necessidade de investimentos em inteligência logística, integração de dados e monitoramento em tempo real para reduzir gargalos operacionais e preservar a competitividade das exportações brasileiras.
A Conab elevou em 600 mil toneladas sua estimativa para a atual safra, projetando um crescimento de 1,8%, equivalente a 6,4 milhões de toneladas, em relação ao ciclo anterior. Caso o resultado se confirme, será o maior volume de grãos já produzido no Brasil.

Inteligência logística ganha importância com aumento do fluxo de cargas
O crescimento da produção amplia a pressão sobre toda a cadeia logística. Na prática, o volume adicional exige maior movimentação de caminhões e vagões ferroviários rumo aos portos. Sem maior capacidade de coordenação operacional, esse aumento tende a provocar congestionamentos em rodovias, filas em terminais portuários e atrasos nos embarques.
Como o transporte de grãos no Brasil ainda depende majoritariamente do modal rodoviário, períodos de pico costumam provocar impactos em toda a cadeia de suprimentos. Entre as consequências estão o aumento do tempo de espera para carregamento e descarregamento, atrasos na atracação de navios e custos adicionais com demurrage, cobrança aplicada pela retenção das embarcações além do prazo contratado.
Nesse cenário, Anna Valle, COO da Flowls, afirma que o setor precisa substituir uma atuação baseada na reação por uma gestão fundamentada em previsibilidade e inteligência de dados.
“Resiliência logística no agronegócio não significa apagar incêndios quando as filas de caminhões já travam os acessos aos portos ou quando faltam contêineres. Com uma safra estimada no recorde de 358,6 milhões de toneladas, o uso de dados em tempo real e inteligência preditiva passou a ser uma estratégia de sobrevivência. Ela permite que as indústrias exportadoras redesenhem rotas e fluxos antes mesmo que o gargalo acontecesse, evitando perdas financeiras brutais. A tecnologia transformou a logística de exportação em uma ferramenta de estratégia viva.”
Segundo a executiva, o desafio não está apenas na infraestrutura física, mas também na capacidade de integrar informações entre os diferentes elos da cadeia logística.
Integração entre modais ainda representa um dos principais desafios
Para a Flowls, a coordenação entre rodovias, ferrovias, terminais e portos continua limitada pela fragmentação das informações. Em muitos casos, cada operador trabalha com bases de dados independentes, dificultando o planejamento conjunto das operações.
Anna Valle observa que mudanças em janelas de atracação, programações de navios ou atrasos operacionais nem sempre são compartilhadas em tempo real entre todos os participantes da cadeia.
“O grande desafio da cadeia de suprimentos raramente é a falta de capacidade, mas sim a falta de visibilidade entre seus elos. Mudanças em janelas de atracação, programações de navios e atrasos operacionais muitas vezes não chegam a todos em tempo real. O resultado? Decisões críticas tomadas com base em dados incompletos ou desatualizados.”
Ela acrescenta que a integração das informações permite maior previsibilidade operacional. “Quando cada elo trabalha com uma versão diferente da realidade, cumprir prazos vira um desafio, os custos e riscos disparam, e o cliente final é o maior impactado. A solução exige integração e visibilidade de ponta a ponta. Quando transportadores, terminais, portos e embarcadores compartilham dados em um ambiente único, a cadeia ganha previsibilidade e agilidade para agir diante de exceções. Mais do que rastrear cargas, trata-se de conectar pessoas e processos para tomar decisões inteligentes e entregar confiabilidade.”
Digitalização amplia competitividade das exportações
Além dos desafios de infraestrutura, a empresa destaca que compradores internacionais vêm ampliando as exigências relacionadas à rastreabilidade, conformidade regulatória e previsibilidade das operações logísticas.
Nesse contexto, a digitalização dos processos de comércio exterior passa a desempenhar papel estratégico na competitividade do agronegócio brasileiro.
“Hoje, o comprador global não busca apenas o produto. Ele quer visibilidade, rastreabilidade e confiança em toda a jornada. No caso do agronegócio, não basta exportar o grão — é preciso comprovar sua origem, seu percurso e a conformidade de cada etapa da operação.”
Ainda segundo Anna Valle, a adoção de plataformas digitais permite integrar informações operacionais e documentais, reduzindo retrabalhos e aumentando a eficiência dos processos.
“A digitalização da logística e da documentação de exportação transforma informações dispersas em visibilidade de ponta a ponta, reduz riscos, elimina retrabalhos e acelera processos que impactam diretamente a experiência do cliente final. Mais do que atender exigências regulatórias ou metas de sustentabilidade, as empresas que investem em dados, integração e monitoramento inteligente constroem cadeias mais confiáveis, resilientes e preparadas para competir nos mercados mais exigentes do mundo.”










