Clima extremo deixa de ser exceção e passa a redesenhar a logística brasileira

Eventos climáticos já impactam transporte, armazenagem, custos e estratégias de abastecimento, levando empresas a buscar mais resiliência, tecnologia e planejamento.

Por muito tempo, eventos climáticos severos foram tratados como situações pontuais, capazes de provocar interrupções temporárias nas operações logísticas. “Durante décadas, furacões, secas severas e inundações de grande escala eram tratados como eventos de cauda: raros o suficiente para serem absorvidos por margens de contingência e cobertos por seguros pontuais. Mas, esse modelo não funciona mais”, pontua Mateus Botelhos, sócio-diretor na Level Trade, empresa da Level Group dedicada a operações de Global Sourcing.

A frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos aumentaram de forma mensurável nas últimas duas décadas, e o que o setor logístico experimenta agora é uma sobreposição de choques que antes seriam estatisticamente improváveis de ocorrer simultaneamente: seca no Canal do Panamá reduzindo o calado disponível ao mesmo tempo em que inundações na Europa central interrompem corredores ferroviários, por exemplo. O impacto não é mais pontual — é sistêmico.

No caso específico do Brasil, enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e impactos sobre a infraestrutura passaram a fazer parte do cenário de planejamento das empresas, exigindo uma nova abordagem sobre como transportar, armazenar e distribuir produtos.

A logística, tradicionalmente estruturada para buscar eficiência, redução de custos e velocidade, agora precisa incorporar uma variável cada vez mais presente: a capacidade de resistir e se adaptar aos eventos extremos. Rodovias interrompidas, níveis críticos dos rios, restrições operacionais em centros de distribuição e impactos na produtividade mostram que a previsibilidade climática se tornou um elemento estratégico para a cadeia de suprimentos.

Diante desse novo contexto, empresas começam a revisar suas malhas logísticas, investir em tecnologias de monitoramento e análise preditiva, além de buscar soluções de infraestrutura capazes de reduzir riscos e manter o nível de serviço mesmo diante de cenários adversos.

Botelhos, da Level Trade, observa que a mudança conceitual que está ocorrendo nas operações de Supply Chain mais maduras é a migração do clima da categoria de “risco operacional esporádico” para “variável de planejamento estrutural“. Isso significa incorporar cenários climáticos nas decisões de localização de centros de distribuição, na escolha de modais e fornecedores e nos contratos de longo prazo. Não apenas reagir depois que o evento ocorre. Empresas de resseguros, bancos multilaterais e grandes embarcadores já trabalham com modelos de exposição climática que atribuem probabilidade e custo esperado a diferentes horizontes de tempo. O que era análise de nicho virou padrão de due diligence.

“O obstáculo principal não é mais a falta de dados — é a velocidade de assimilação organizacional. As ferramentas de modelagem climática aplicadas à logística existem e estão se tornando mais acessíveis, mas a maioria das empresas ainda não integrou essas informações ao processo decisório de compras e planejamento de capacidade. O resultado é uma assimetria: quem já incorporou o risco climático como variável estrutural opera com vantagem de antecipação. Quem ainda trata cada evento como surpresa arca com o custo de reação, que é sistematicamente mais alto”, destaca o especialista e sócio-diretor na Level Trade.

Impactos no transporte e na distribuição

Também ao se referir aos impactos que enchentes, deslizamentos e interrupções de infraestrutura têm causado nas operações de transporte e distribuição nos últimos anos, Dener Ricardo Guerra, CEO da Combitrans, destaca que os eventos climáticos extremos afetam diretamente a eficiência das cadeias logísticas. Enchentes, deslizamentos e bloqueios de rodovias exigem mudanças rápidas de rota e reprogramação de entregas, elevando custos e prazos. Em regiões com infraestrutura mais limitada, como a Amazônia, esses efeitos tendem a ser ainda mais intensos. Como resposta, o setor tem incorporado planejamento mais aprofundado, avaliando rotas alternativas, integrando modais e monitorando constantemente as condições climáticas e operacionais para reduzir riscos de interrupção.

Já, como aponta Marcelo Ostrowski, diretor Comercial Brasil da Emergent Cold Latam, as ondas de calor criam pressão em toda a cadeia, mas os pontos críticos costumam aparecer onde não se tem a infraestrutura adequada ou menos dimensionada para picos térmicos. “No caso de produtos sensíveis à temperatura, o impacto é ainda mais visível fora dos ambientes controlados. Etapas como carga, descarga e transporte ficam mais críticas, porque a exposição ao calor tende a acelerar perdas, exigir mais agilidade operacional e, em alguns casos, demandar o uso de transporte refrigerado que antes não era necessário. Operações que não têm protocolos rígidos para esses momentos podem acabar acumulando instabilidades térmicas ao longo do turno.”

Impactos nas hidrovias

Ao responder à pergunta se a redução dos níveis dos rios e os períodos de seca já estão alterando de forma significativa a utilização das hidrovias brasileiras, Mateus Lima, CEO da i4sea, destaca que a seca mostrou que hidrovia não é só infraestrutura: é previsibilidade hidrológica. Quando o calado desaparece, a carga migra para rotas mais caras, o frete sobe e a indústria perde margem.

O caso da Amazônia deixou isso claro. Em 2023, a ANAAgência Nacional de Águas e Saneamento Básico registrou o Rio Negro em Manaus, AM, a 13,51 metros em 16 de outubro, o menor nível até então na série histórica. A vazante continuou e o SGBServiço Geológico do Brasil depois consolidou 2023 com mínima de 12,70 metros. Em 2024, o recorde foi renovado: o SGB confirmou 12,66 metros como nova mínima em 4 de outubro, e a imprensa local reportou estabilização posterior em 12,11 metros. A diferença importante é esta: 12,66 metros é o número confirmado diretamente pelo SGB; 12,11 metros aparecem em cobertura jornalística posterior com base no monitoramento local.

O impacto não ficou no indicador ambiental, prossegue Lima. Em 2023, a rota de navios cargueiros para a Zona Franca de Manaus ficou mais de 50 dias afetada antes da retomada, e o CIEAMCentro da Indústria do Estado do Amazonas estimou R$ 1,4 bilhão em custos extras para a indústria. Isso é clima virando custo logístico.

“Por isso eu evitaria dizer, de forma ampla, que hidrovia é o modal que mais cresce no Brasil. A formulação correta é: a navegação interior tem potencial estratégico enorme e cresceu em alguns recortes, mas a expansão depende de previsibilidade hidrológica. Hidrovia é muito eficiente quando há água, calado e planejamento. Quando não há, o gargalo se espalha para rodovia, estoque, contrato e preço final”, completa o CEO da i4sea.

Sobre o mesmo assunto, Marcello Di Gregorio, diretor-geral do Super Terminais, também destaca que o fator climático deixou de ser um evento sazonal ou pontual e passou a ser uma variável permanente de planejamento para o mercado logístico nacional. “Episódios recentes de estiagem severa, como os registrados na Bacia Amazônica, demonstram que as secas impactam diretamente a navegabilidade, comprometendo a previsibilidade logística e o escoamento industrial de regiões que dependem majoritariamente dos rios para abastecimento e distribuição.” Diante desse cenário, afirma Di Gregorio, a operação hidroviária tem sido forçada a abandonar respostas baseadas em improvisos ou medidas emergenciais, passando a exigir dos players uma atuação estrutural focada em cenários de estresse climático permanente.

Maiores riscos climáticos

O maior risco climático para a Supply Chain brasileira não está no Brasil em abstrato. Está no quilômetro da rodovia, no trecho ferroviário, no terminal, no pátio e no berço. É ali que o evento extremo vira atraso, custo e ruptura. No modal rodoviário, os principais riscos são chuva extrema, alagamento, deslizamento, queda de barreira, calor extremo sobre pavimento e interrupção de corredores críticos. O Brasil ainda depende muito da rodovia; quando um trecho para, a carga não atrasa só naquele ponto. Ela pressiona frete, estoque e janela de entrega em cadeia.”

Ainda se referindo aos maiores riscos climáticos para as cadeias de suprimentos que operam no Brasil, Lima, da i4sea, diz que no ferroviário, o risco está em erosão de talude, alagamento de trecho, queda de árvore, deformação de trilho por calor e interrupção de acesso a terminais. “A ferrovia é eficiente, mas menos flexível: quando um trecho crítico fica indisponível, a alternativa nem sempre existe na mesma escala.”

No hidroviário, o risco é duplo: seca reduz calado e capacidade de carga; cheia e correnteza extrema também podem interromper manobra e navegação segura. A seca da Amazônia mostrou que baixo nível de rio não é um problema local. Ele afeta a Zona Franca, o abastecimento, o custo de frete e a confiabilidade de contratos.

No marítimo e no portuário, os riscos são vento, ondulação, ressaca, correnteza, chuva intensa e visibilidade. O gargalo aparece no canal, para manobra, no berço, no pátio e no acesso terrestre. Em portos, algumas horas de janela perdida podem virar fila de navio, demurrage e omissão de escala.

“Os dados internos da i4sea indicam que, até 2075, no cenário SSP2-4.5, calor extremo, inundação e vendaval não se distribuem de forma igual pelo território. A leitura qualitativa é que o Norte aparece mais exposto a ondas de calor; o Sul tem predominância de risco associado a vendavais; e Sudeste/Centro-Oeste combinam vento, chuva extrema e inundação em corredores logísticos”, completa Lima.

O fato é que o Brasil tem um perfil de risco climático bastante diversificado por conta do tamanho e da variedade do território. Isso significa que uma cadeia de suprimentos nacional raramente está exposta a um único tipo de evento. “Os principais riscos estão ligados à maior frequência e intensidade de eventos extremos, especialmente chuvas intensas, enchentes e ondas de calor”, destaca Ostrowski, da Emergent Cold Latam.

Ainda segundo ele, eventos climáticos mais extremos tornam planejamento e a gestão de estoques mais complexos, exigindo maior flexibilidade operacional, revisão de rotas e uso mais intenso de hubs logísticos para redistribuição de cargas. A resiliência da cadeia é testada de verdade quando mais de um fator opera ao mesmo tempo.

Para Di Gregorio, do Super Terminais, o principal risco para as cadeias de suprimentos no Brasil é a perda de previsibilidade operacional em um cenário de maior instabilidade climática. “Observa-se aumento na frequência e intensidade de eventos extremos, especialmente enchentes e secas prolongadas, com impacto direto sobre a navegabilidade dos rios e a continuidade do fluxo logístico. Fenômenos climáticos de grande escala, como o El Niño, previsto para ocorrer neste ano, ampliam a variabilidade das chuvas e tendem a intensificar tanto episódios de estiagem quanto de cheia, elevando o risco de interrupções em hidrovias estratégicas, sobretudo na região Norte.”

Esse contexto, diz o diretor-geral do Super Terminais, reduz a confiabilidade dos modais dependentes de condições naturais e expõe a fragilidade de cadeias logísticas pouco integradas. A ausência de integração multimodal adequada transforma o risco climático em um gargalo estrutural para a manutenção do abastecimento contínuo de polos industriais e centros de consumo no país.

Redesenhando a malha logística

Outro fato constatado é que as empresas estão redesenhando suas malhas logísticas e estratégias de abastecimento em função dos riscos climáticos. Mas, isto ocorre de que forma?

Guerra, da Combitrans, diz que, já que os riscos climáticos afetam diretamente a capacidade de abastecimento de insumos e distribuição de produtos acabados, entre as principais medidas adotadas estão a diversificação de rotas e modais, a criação de estoques avançados, a antecipação de embarques em períodos críticos e o fortalecimento de parceiros regionais. Também cresce o uso de ferramentas de inteligência logística, como monitoramento de rotas, análise de condições climáticas e torres de controle. “O objetivo é aumentar a previsibilidade e garantir a continuidade do abastecimento, especialmente em regiões onde a logística depende da integração entre diferentes modais, como o transporte fluvial e rodoviário.”

Também para Botelhos, da Level Trade, o redesenho está acontecendo, mas de forma desigual e, em grande parte, forçada por eventos, não por antecipação estratégica. As disrupções nos últimos anos – seca no Canal do Panamá em 2023, inundações em regiões-chave da Ásia, eventos climáticos extremos que afetaram colheitas e infraestrutura portuária simultaneamente – aceleraram uma revisão que, em condições normais, levaria muito mais tempo para ganhar tração executiva. Multinacionais com operações mais expostas, especialmente nos setores de alimentos, energia e commodities industriais, estão sendo as primeiras a formalizar essa revisão em seus processos de S&OP e gestão de risco.

Ainda segundo o sócio-diretor da Level Trade, as mudanças mais concretas observadas no mercado envolvem três frentes. A primeira é a diversificação geográfica de fornecedores, com critérios climáticos sendo adicionados ao scorecard tradicional de custo, qualidade e prazo – ou seja, um fornecedor localizado em zona de alta exposição a eventos climáticos passa a carregar um fator de risco explícito na decisão de sourcing. A segunda é o recalibramento de rotas e modais, com aumento do interesse por corredores alternativos e por combinações multimodais que ofereçam redundância, o que tem custo, mas reduz a dependência de um único ponto de falha climática. A terceira é o redesenho da estratégia de estoques: após anos de lean extremo, há um movimento de revisão dos níveis de estoque de segurança para categorias críticas, justificado explicitamente pela maior frequência de disrupções.

“O que ainda está pouco avançado é a integração desse redesenho com decisões de infraestrutura de longo prazo, como localização de armazéns, contratos de capacidade portuária, acordos de reserva de modal. Essas decisões têm horizonte de 10 a 20 anos e exigem modelos de risco climático com essa mesma profundidade temporal, algo que a maioria das empresas ainda não tem operacionalizado. O gap entre a urgência do problema e a capacidade de resposta estratégica estrutural ainda é significativo”, alerta Botelhos.

A estratégia, na verdade, é a flexibilidade. O atual momento, tanto econômico, quanto social, quanto de infraestrutura no Brasil, não permite que uma empresa seja rígida na sua atuação. Mesmo que a empresa tenha seu viés estratégico voltado a processo, não a cliente, esse processo precisa se moldar a eventuais contratempos como o climático, como uma alta de dólar, uma alta de petróleo, um mal-estar econômico por alguma fala de governante etc.

Ainda na visão de Marcelo Zeferino, CCO da Prestex, ter flexibilidade é crucial para que a empresa se mantenha competitiva. Se a empresa se tornar enrijecida, a chance de se manter em momentos de instabilidade, por eventualidades como as climáticas, é nula. 

Tecnologia

A tecnologia disponível hoje para gestão de risco climático em cadeias de suprimentos é substancialmente mais sofisticada do que a que a maioria das empresas efetivamente usa. Modelos de previsão meteorológica de curto e médio prazo já alcançam precisão operacionalmente útil em janelas de 7 a 15 dias, tempo suficiente para acionar protocolos de contingência logística. Botelhos, da Level Group, também lembra que plataformas de visibility de Supply Chain já integram alertas climáticos em tempo real com dados de posição de carga, status de portos e disponibilidade de capacidade de transporte, permitindo que gestores antecipem gargalos antes que se tornem rupturas. Esse tipo de ferramenta deixou de ser exclusividade de grandes players e está se tornando acessível para operações de médio porte.

O papel da inteligência artificial nesse contexto é específico e merece ser descrito com precisão: não se trata de prever o clima com mais exatidão do que os modelos meteorológicos convencionais, mas de cruzar grandes volumes de dados heterogêneos, como histórico de disrupções, dados de sensores em infraestrutura crítica, padrões sazonais, comportamento de preços de frete, para identificar padrões de vulnerabilidade que não seriam detectáveis por análise humana em tempo hábil. “Modelos de machine learning treinados com dados históricos de disrupções climáticas já conseguem, por exemplo, estimar a probabilidade de congestionamento em determinados corredores logísticos, dado um conjunto específico de condições meteorológicas previstas, e recomendar ajustes preventivos de roteamento”, diz o sócio-diretor da Level Trade.

Ainda segundo ele, o limite real dessa tecnologia não é técnico, é de dados e de integração. A qualidade dos modelos preditivos depende da qualidade e da granularidade dos dados alimentados, e muitas empresas ainda operam com visibilidade fragmentada de sua cadeia: dados de fornecedores de nível 2 e 3 são frequentemente opacos, o que cria pontos cegos justamente nos elos mais vulneráveis. A adoção da análise preditiva climática como ferramenta operacional regular, e não como exercício de consultoria pontual, requer investimento em integração de dados que precede o investimento nos algoritmos em si.

Também falando sobre o papel da tecnologia, da inteligência artificial e da análise preditiva na antecipação de eventos climáticos e na mitigação de impactos operacionais, Lima, da i4sea, adverte que o papel da tecnologia aqui não é “prever melhor o tempo”. É transformar previsão em decisão antes do evento. E isso depende de três camadas.

Primeira: resolução. Um aviso de “ventos fortes para o estado de Santa Catarina” não move uma operação logística. O que move é saber qual ativo, qual trecho de rodovia, qual berço será atingido, com que intensidade e em que janela de horas. A análise preditiva moderna saiu da escala estadual para a escala do ativo.

Segunda: antecedência útil. Não basta acertar – tem que avisar com o prazo que cabe na decisão. Redirecionar carga, contratar frete antes do pico de preço ou reorganizar uma malha exige dias, não minutos. Antecipação de 24, 48, 72 horas – e, para suprimento, de 7 a 10 dias – é o que separa gestão de prejuízo.

Terceira: integração ao protocolo. Aqui está o ponto que o mercado ainda subestima: o alerta só vira valor quando entra no plano de contingência da empresa e dispara uma ação pré-definida. Inteligência artificial cruzando múltiplas variáveis climáticas com o dado do negócio é o que permite isso em escala – mas tecnologia que gera alerta e não muda decisão é custo, não solução.

“E vale o anti-sensacionalismo: IA em clima não é bola de cristal. É trabalhar com probabilidade e incerteza de forma estruturada, no nível em que a operação sente o impacto”, completa Lima.

Da esquerda para a direita: Mateus Lima, da I4sea; Mateus Botelhos, da Level Trade; e Marcelo Zeferino, da Prestex Logística Emergencial

Investimentos em infraestrutura

Sobre os investimentos em infraestrutura e resiliência logística que têm se mostrado mais eficazes para enfrentar eventos extremos, Guerra, da Combitrans, aponta que os mais eficazes combinam infraestrutura física, tecnologia e planejamento operacional. Estruturas de armazenagem, hubs logísticos, áreas de transbordo e ativos adaptados às características regionais ajudam a manter a operação mesmo em cenários adversos.

No transporte fluvial, embarcações adequadas a diferentes níveis de rio aumentam a continuidade do serviço; no rodoviário, rotas alternativas e redes de apoio reduzem impactos de bloqueios. Além disso, sistemas de monitoramento em tempo real, protocolos de contingência e maior visibilidade da cadeia têm se mostrado fundamentais para antecipar riscos e acelerar a tomada de decisão.

“Os investimentos mais eficazes combinam ciência, tecnologia e infraestrutura moderna voltada à transição energética e previsibilidade. No mercado geral, destacam-se: o uso intensivo de inteligência operacional e o monitoramento hidrológico preditivo diário; o investimento em equipamentos de alta eficiência e matrizes energéticas limpas (como eletrificação de frotas e usinas a gás natural) para garantir segurança energética e descarbonização; e o apoio à pesquisa científica regional para prever o comportamento climático. No âmbito público e coletivo, investimentos contínuos em programas permanentes de dragagem de manutenção, modernização da sinalização náutica e o avanço em segurança regulatória para concessões hidroviárias são apontados como as soluções estruturais mais urgentes”

Além disso – continua expondo Di Gregorio, do Super Terminais –, a eficácia desses aportes depende de uma visão de integração multimodal. “Um exemplo observado recentemente no cenário nacional é o debate em torno de projetos rodoviários na Amazônia, como a BR-319, que evidencia a importância de avaliar a complementaridade entre modais e os limites de soluções terrestres isoladas diante de uma região onde as hidrovias seguem desempenhando papel central no escoamento e abastecimento de grandes polos econômicos.”

Nesse contexto, investir em um único eixo logístico como promessa de melhorias operacionais na região só fará aumentar a vulnerabilidade do sistema diante de eventos climáticos extremos, variações hidrológicas e gargalos de manutenção, tornando a integração entre modais um elemento ainda mais essencial de resiliência, alerta diretor-geral do Super Terminais.
Já Ostrowski, da Emergent Cold Latam, destaca que alguns investimentos vêm ganhando espaço porque ajudam a reduzir a exposição e aumentar a capacidade de resposta. Um deles é a diversificação de infraestrutura, com redes logísticas mais bem distribuídas. Ter múltiplos pontos de armazenagem e alternativas de rota permite reagir mais rápido a bloqueios ou interrupções.

Outro avanço relevante está no uso de tecnologia para monitoramento em tempo real, tanto de condições climáticas quanto de integridade de cargas. Isso permite antecipar riscos e ajustar operações antes que o problema se agrave.

A gestão de estoques também mudou. Empresas têm reforçado buffers estratégicos, especialmente para produtos sensíveis, usando armazenagem com controle térmico como forma de proteger a qualidade e garantir continuidade de abastecimento. Além disso, há maior atenção à adaptação física das estruturas, com projetos preparados para eventos climáticos mais intensos, como drenagem reforçada, elevação de áreas críticas e sistemas de energia mais resilientes. “Vale lembrar que a resiliência passa por ter alternativas mapeadas com antecedência, não por improvisar na hora do problema. Trabalhar com operadores logísticos representa uma vantagem competitiva, pois os clientes podem focar nos seus negócios e deixar os investimentos em infraestrutura logística com o fornecedor”, completa o diretor Comercial Brasil da Emergent Cold Latam.

Da esquerda para a direita: Marcello Di Gregorio, da Super Terminais; Marcelo Ostrowski, da Emergent Cold Latam

Custos logísticos

Também é interessante saber como os eventos climáticos afetam custos logísticos, prazos de entrega e níveis de serviço ao cliente.

Segundo o CEO da Combitrans, os impactos costumam ocorrer em cadeia. Primeiro surgem os atrasos, afetando os prazos. Em seguida, aumentam os custos com combustível, armazenagem, contratação emergencial de capacidade e uso de rotas mais longas. Isso acaba afetando diretamente o nível de serviço, porque o cliente final nem sempre enxerga a complexidade da cadeia, somente o atraso, ruptura, falta de previsibilidade ou aumento de custo.

“Por isso, a transparência passou a ser uma parte essencial da gestão logística em períodos extremos. Informar o cliente com antecedência, apresentar cenários e combinar planos de contingência reduz ruídos e melhora a tomada de decisão”, recomenda Guerra.

Também na ótica do diretor-geral do Super Terminais, os eventos climáticos extremos geram um efeito cascata na cadeia de suprimentos. Quando a navegabilidade de uma hidrovia é comprometida pela seca, por exemplo, há uma interrupção na fluidez do transporte, o que impacta diretamente o cumprimento dos prazos de entrega e reduz o nível de serviço final ao cliente. “Para tentar mitigar a paralisia do fluxo, o mercado muitas vezes recorre a rotas alternativas ou soluções emergenciais fragmentadas que elevam significativamente os custos logísticos operacionais. Sem previsibilidade e inteligência territorial, o isolamento logístico temporário de regiões industriais prejudica a competitividade sistêmica do mercado”, explica Di Gregorio.

“O impacto dos eventos climáticos sobre custos logísticos opera em camadas temporais distintas que precisam ser analisadas separadamente”, também comenta o sócio-diretor na Level Trade. No curto prazo, eventos agudos como ciclones, inundações e nevascas severas geram picos de demanda por capacidade alternativa de transporte que elevam fretes spot de forma abrupta e não linear: quando múltiplos embarcadores buscam as mesmas alternativas simultaneamente, o custo de desvio sobe muito acima do custo médio de rota, e quem chega tarde ao mercado paga prêmio.

No médio prazo, eventos que degradam infraestrutura, como erosão de vias, assoreamento de hidrovias ou danos a instalações portuárias elevam os custos operacionais de forma persistente, mesmo após o evento em si ter passado. E, no longo prazo, o aumento da frequência de eventos extremos já está sendo incorporado pelos seguros de carga e pelos modelos de precificação de frete contratual, criando uma pressão estrutural de custo que não se resolve com normalização do clima no curto prazo.

Nos prazos de entrega, o efeito mais crítico não é o atraso imediato causado pelo evento em si, mas o congestionamento sistêmico que se forma nos nós logísticos adjacentes. Quando um porto fecha por 48 horas por condições climáticas, o backlog de carga que se acumula leva dias ou semanas para ser absorvido, e esse atraso em cascata afeta toda a cadeia downstream de forma desproporcional ao evento original. Empresas com estratégias de just-in-time mais rígidas são desproporcionalmente expostas a esse efeito, porque não têm buffer de estoque para absorver a variação de prazo sem impacto nas linhas de produção ou nos compromissos com clientes.

Do ponto de vista do nível de serviço ao cliente, o problema é que eventos climáticos frequentes tornam menos confiáveis os SLAs baseados em janelas de entrega fixas, e isso tem consequências contratuais e reputacionais que vão além do custo logístico direto. O mercado ainda não convergiu para um modelo consensual de como tratar cláusulas de força maior climática em contratos logísticos, o que cria assimetria de risco entre embarcadores e operadores. “Setores com maior sensibilidade ao prazo, como o farmacêutico, perecíveis, eletrônicos de alto giro, já começam a redesenhar seus SLAs para incluir variáveis climáticas explícitas, mas essa ainda é uma prática minoritária”, conclui Botelhos.

A verdade é que, como destaca Zeferino, da Prestex, já há alguns anos vivemos um cenário muito instável no Brasil. Quando não são eventos climáticos, são eventos econômicos, que acabam afetando muito os custos e os prazos de entrega.

“Como já mencionado anteriormente, a flexibilidade é fundamental, mas eventualmente e, de acordo com a demanda que aumenta em situações como essa, o custo acaba se elevando também. O grande problema disso é o consumidor final, que invariavelmente acaba sendo afetado, porque isso impacta no preço final de venda que é elevado.”

Logística do futuro

Finalizando esta matéria especial, fica uma questão: como será a logística brasileira nos próximos anos diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos?

Lima, da i4sea, acredita que este futuro vai ser definido por quem conseguir antecipar gargalos antes que eles virem fila, ruptura e custo. E isso vale tanto para tempestade quanto para seca.

“Em 2023, o Brasil teve um retrato claro desse futuro: no Sul, o canal de acesso ao complexo Itajaí/Navegantes ficou fechado por 18 dias por fortes chuvas e correnteza; no Norte, a seca histórica levou o Rio Negro à mínima recorde e restringiu por mais de 50 dias a navegação de cargueiros para Manaus e a Zona Franca. Não é um problema só de porto ou de hidrovia: é risco climático virando gargalo logístico nacional.”

A mudança principal – ainda segundo o CEO da i4sea – é que planejamento logístico não pode mais trabalhar apenas com média histórica. Para tempestades, vendavais e chuva extrema, a decisão costuma acontecer em janelas de horas a dias. Para a seca, o padrão hidrológico pode ser acompanhado com semanas e, em alguns casos, até cerca de 90 dias de antecedência. Isso não significa previsão perfeita. Significa sair da surpresa e entrar em gestão de probabilidade.

“Na prática, o futuro da logística será mais intermodal, mas também mais exposto. Quando a hidrovia perde calado, a rodovia recebe carga. Quando o porto interrompe manobra, a ferrovia e o pátio acumulam. Quando um corredor rodoviário alaga, o contrato comercial sente. A cadeia inteira paga quando uma parte para. A logística que vence não é a de maior infraestrutura, é a que antecipa melhor.”

Ostrowski, da Emergent Cold Latam, a tendência é de uma logística mais planejada para lidar com instabilidade. Isso passa por operações menos dependentes de um único modal ou rota, maior uso de dados para tomada de decisão e revisão constante de planos de contingência. A gestão de risco deve ganhar protagonismo. “Em vez de reagir a eventos, as empresas tendem a operar com cenários alternativos já mapeados, com rotas secundárias, estoques posicionados de forma estratégica e contratos mais flexíveis.”

A cadeia fria também deve ganhar mais espaço nesse contexto, não só para produtos tradicionalmente refrigerados – prossegue o diretor Comercial Brasil da Emergent Cold Latam. Temperaturas mais altas ampliam a necessidade de controle térmico ao longo da cadeia, o que muda a lógica de armazenagem e transporte de algumas categorias. O mercado tende a responder com mais investimento em automação, monitoramento e digitalização da cadeia. Sensores de temperatura em tempo real, gestão preditiva de manutenção de equipamentos e visibilidade de ponta a ponta já deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisito de parceiros comerciais internacionais, especialmente em categorias de alimentos com protocolos sanitários rígidos.

“No geral, a logística no Brasil tende a ficar mais robusta, mas também mais complexa e intensiva em planejamento. Quem conseguir antecipar risco e adaptar operação rapidamente sai na frente. Quem não tiver essa capacidade instalada vai encontrar dificuldade crescente para operar em mercados mais exigentes”, completa Ostrowski.

Concluindo esta matéria especial do Portal Logweb, Zeferino, da Prestex, deixa transparecer que é difícil precisar o futuro da logística brasileira diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos. “Não vemos movimentações estratégicas para que se previna esse tipo de situação. Ao contrário, a meu ver, ainda se vive uma estagnação nesse aspecto e é a iniciativa privada que acaba muitas vezes trabalhando em prol disso, tendo flexibilidade, planos de contingência para eventuais situações, mas é muito difícil precisar como vai ser. Até porque os eventos climáticos estão cada vez mais frequentes, então é muito difícil que se crave como será. O que se pode ter é, obviamente, trabalhar em cima de contingência e do histórico para poder se prevenir.”

Participantes desta matéria

Combitrans – Operadora Logística brasileira que integra transporte fluvial e rodoviário, armazenagem e projetos personalizados, conectando a Região Norte ao restante do país. É á única a operar balsas SW (Swimming Warehouse) – armazéns flutuantes projetados para otimizar a capacidade e tornar o frete fluvial mais competitivo. Conta com portos próprios em Manaus (AM) e Belém (PA), sede administrativa em Orlândia (SP) e escritórios em São Paulo (SP), Barueri (SP) e Fortaleza (CE), atendendo fluxos com origem ou destino em todo o Brasil.

i4sea – Empresa de tecnologia especializada em inteligência climática de alta precisão para setores com operações complexas e expostas ao clima, como portos, energia, engenharia e grandes infraestruturas. Transforma dados meteorológicos e oceanográficos em alertas de risco acionáveis ao nível do ativo (planta por planta ou galpão por galpão). Por meio de sua plataforma proprietária, o i4cast®, cruza inteligência artificial, dados específicos do negócio do cliente e mais de 10 anos de reanálise climática, permitindo que tomadores de decisão antecipem riscos com dias de antecedência para redirecionar cargas, proteger ativos, salvar margens de lucro e garantir a resiliência operacional frente a eventos climáticos extremos.

Super Terminais – Um dos principais hubs logísticos da região Norte, com atuação estratégica no modal portuário. Sua missão é impulsionar exportações e importações com qualidade, agregando valor aos clientes e contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Amazonas e do Brasil. Operando há 30 anos em Manaus, é reconhecido como o primeiro porto verde do Brasil e trabalha com cargas conteinerizadas, cargas de projetos e soltas, nacionais ou de importação.

Level Group – Empresa global com mais de 18 anos de atuação, especializada em transformar compras e Supply Chain em áreas de alta performance por meio da integração entre consultoria estratégica, BPO e tecnologia avançada. Com presença no Brasil, Estados Unidos, América Latina, China e Índia, apoia empresas de médio e grande porte em projetos de eficiência, governança e transformação operacional. Seu portfólio inclui soluções em strategic sourcing, gestão de fornecedores, contratos, compliance, automação, analytics e inteligência artificial.

Emergent Cold LatAm – Considerada a maior empresa de soluções logísticas com temperatura controlada para alimentos da América Latina. Está construindo uma rede de cadeia fria de alta qualidade para oferecer soluções logísticas completas, com temperatura controlada, em toda a região. São mais de 100 armazéns de alimentos em 11 países da América Latina. Também estão em execução projetos de construção ou ampliação em diferentes países.

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