A repercussão da série “Emergência Radioativa”, da Netflix, voltou a colocar em evidência o debate sobre o transporte de materiais radioativos no Brasil e os avanços regulatórios implementados no país após o acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987. Considerado um dos episódios mais graves do mundo envolvendo contaminação por material radioativo, o acidente deixou quatro mortes diretas, centenas de pessoas contaminadas e milhares de atingidos direta e indiretamente pelo Césio-137.
O episódio ocorreu um ano antes da publicação do Decreto nº 96.044, que estabeleceu diretrizes mais claras para o transporte de produtos perigosos no Brasil. Desde então, o país passou a estruturar um conjunto mais rigoroso de normas técnicas e exigências operacionais voltadas à redução de riscos e ao aumento da segurança nesse tipo de operação logística.

Segundo Eduardo Leal, secretário executivo da ABTLP – Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos –, a atividade atualmente opera sob rígido controle técnico e regulatório.
“O transporte de produtos radioativos é uma atividade altamente controlada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que estabelece normas rigorosas para garantir a segurança. Trata-se de uma operação especializada, que exige cumprimento técnico em todas as etapas e integração com regras de outros órgãos, como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)”, afirma Leal.
Atualmente, o modelo operacional do transporte de materiais radioativos envolve uma série de critérios técnicos relacionados à classificação adequada dos materiais, acondicionamento, rotulagem, rastreabilidade e definição de protocolos operacionais.
“O episódio em Goiânia evidenciou, de forma dramática, os riscos associados à falta de controle, informação e preparo técnico no manuseio de substâncias perigosas”, explica o executivo.
Transporte de materiais radioativos exige controle técnico e integração regulatória
No Brasil, os materiais radioativos são utilizados em diferentes setores estratégicos. Na área da saúde, por exemplo, estão presentes em exames de diagnóstico por imagem, como cintilografias, além de tratamentos de radioterapia utilizados no combate ao câncer.
Na indústria, esses materiais são aplicados em processos de medição de densidade, inspeção de soldas, controle de qualidade e análise de estruturas metálicas. Além disso, também são utilizados na esterilização de produtos.
Já nas áreas de pesquisa e agricultura, as substâncias radioativas participam de estudos científicos, desenvolvimento de tecnologias e atividades ligadas ao controle de pragas.
De acordo com a ABTLP, entidades do setor atuam na consolidação de um ambiente operacional mais seguro, incentivando a integração entre empresas, operadores logísticos, embarcadores e órgãos reguladores. A associação destaca ainda que o alinhamento contínuo às exigências regulatórias é um dos fatores centrais para ampliar a previsibilidade e a segurança em operações consideradas de alta complexidade.
Leal afirma que o trabalho de conscientização é permanente. “A ABTLP promove a conscientização por meio de treinamentos, simulados e da disseminação de boas práticas, além de atuar de forma integrada com órgãos reguladores, como a ANTT, no aprimoramento contínuo das normas do setor. Nosso foco é fortalecer a cultura de segurança e a corresponsabilidade em toda a cadeia do transporte de produtos perigosos, envolvendo empresas, motoristas, embarcadores e demais agentes”, conclui.
Fundada em 1998, a ABTLP representa transportadores e operadores logísticos de produtos perigosos no Brasil. A entidade atua em âmbito nacional com treinamentos, assessoria técnica e jurídica, atualização normativa e disseminação de boas práticas voltadas ao Transporte Rodoviário de Cargas.








