Os eventos extremos têm ampliado a atenção do setor logístico para a gestão climática, que passa a ser tratada como variável estratégica para a continuidade das operações. Mais do que uma pauta ambiental, o tema ganha espaço na gestão de risco, com impacto direto sobre custos, contratos e desempenho operacional.
“Não é sobre clima, é sobre risco operacional, custos, contratos e continuidade dos negócios”. A afirmação de Felipe Romera, especialista em ESG no setor de logística e transportes, reflete a mudança de abordagem. Segundo ele, o desafio não está apenas em identificar ameaças, mas em incorporar o risco climático ao planejamento estratégico, com foco em antecipação, monitoramento e previsão de cenários.
Nesse contexto, o diferencial competitivo passa a ser a capacidade de transformar variáveis climáticas em insumos para a tomada de decisão orientada por dados. Ou seja, empresas que conseguem antecipar eventos tendem a reduzir impactos operacionais e aumentar a resiliência de suas operações.

Gestão climática logística e impactos dos eventos extremos nas operações
O tema foi destaque no primeiro ABOL Day do ano, promovido pela Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL), entidade que representa empresas responsáveis por serviços de transporte, armazenagem e gestão de estoques no Brasil. Durante o encontro online, Romera apresentou os impactos climáticos por modal e seus efeitos diretos na continuidade das operações.
O conteúdo apresentado tem como base um workshop conduzido pela Climoo com empresas associadas, que estruturou os riscos em duas frentes principais. A primeira envolve riscos físicos, relacionados a ocorrências extremas com impacto direto na atividade. Já a segunda trata dos riscos de transição, ligados a mudanças regulatórias, pressões de mercado e incorporação de critérios climáticos às estruturas de custo.
Entre os eventos mapeados estão chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, instabilidade do solo, ressacas, ventos fortes e baixa visibilidade. Esses fatores, por sua vez, geram impactos que variam conforme o modal, incluindo interdições de vias no transporte rodoviário, danos à infraestrutura ferroviária, paralisações em operações portuárias e atrasos no transporte aéreo, além de prejuízos a ativos e estoques em centros de distribuição.
Diante desse cenário, o setor avança na adoção de soluções tecnológicas voltadas à antecipação de riscos. Essa foi a abordagem apresentada por Thomas Martin, cofundador da MeteoIA, empresa especializada em previsões meteorológicas aplicadas a operações sensíveis ao clima.
Segundo ele, o uso de Inteligência Artificial permite transformar dados climáticos em informações acionáveis. “A proposta é antecipar não apenas o evento, mas seu impacto em atrasos, despesas e desempenho logístico”, afirma.
A plataforma desenvolvida pela empresa avalia diferentes horizontes e integra dados históricos das operações para gerar previsões personalizadas. Com isso, torna-se possível estimar probabilidades de atraso, impactos financeiros e variações operacionais com base em condições específicas.
Outro ponto relevante é a precisão das análises, realizadas em escala hiperlocal, considerando características de ativos como centros de distribuição, rotas e estruturas portuárias. Além disso, a tecnologia integra múltiplos riscos em um único ambiente, permitindo visão consolidada e suporte à tomada de decisão, bem como a adoção de medidas preventivas, como reprogramação de trajetos e ajustes operacionais.
“O risco climático deixa de ser uma percepção difusa e passa a ser tratado com base concreta, orientada por dados. Isso muda a forma de planejar, permitindo maior capacidade de resposta diante de cenários adversos”, afirma Marcos Azevedo, head de Sustentabilidade da Bravo e diretor de ESG da ABOL.








