O impacto da má conservação das rodovias brasileiras no transporte de cargas

28/03/2022

*Por Denny Mews

O transporte rodoviário representa cerca de 70% de todo o escoamento de cargas que circulam pelo país. No entanto, as transportadoras enfrentam diariamente os desafios da precariedade das rodovias brasileiras. O Brasil conta com uma malha rodoviária de 1.720.607 quilômetros, mas somente 213.299 quilômetros são pavimentados, ou seja, apenas 13% de toda essa extensão, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

O Brasil também não ocupa uma posição satisfatória no ranking de competitividade global do Fórum Econômico Mundial. A qualidade das nossas rodovias encontra-se na 121ª posição dos 140 países analisados, atrás do Chile (45ª), Uruguai (95ª), Argentina (108ª), Bolívia (109ª) e Peru (111ª). Em uma avaliação de infraestrutura rodoviária, em que se utiliza notas que variam de 1 (extremamente subdesenvolvida – entre as piores do mundo) a 7 (extensa e eficiente – entre as melhores do mundo), o Brasil recebeu a nota 2,7.

Diante desta realidade, é impossível escoar as riquezas aqui produzidas, ou mesmo atender às exigências dos compradores, se a ineficácia do modal rodoviário faz as indústrias e os produtores perderem prazos de embarque e as mercadorias estragarem ou serem desperdiçadas durante o transporte. A soja produzida no estado do Mato Grosso, por exemplo, que poderia ser transportada por trem, caso o modal ferroviário realmente atendesse às necessidades para desafogar as estradas, hoje é praticamente estocada em caminhões, que servem de depósitos sobre rodas.

Outro desafio é a queda brusca dos investimentos públicos para manutenção, adequação e construção de rodovias na última década. Enquanto em 2010 o governo federal aplicou R$ 17,86 bilhões para essas obras, em 2020 os recursos caíram para R$ 6,74 bilhões, 20% do valor, refletindo na situação precária das vias federais, que coloca em risco todos os usuários e aumenta as dificuldades para o transporte de cargas. Entre as principais consequências, podemos destacar o encarecimento do frete, o comprometimento do desempenho e da competitividade da indústria e da agricultura e o elevado custo, especialmente dos alimentos.

Além disso, a busca por redução de custos, faz com que usem os veículos com excesso de carga e, somado à falta de fiscalização, faz com que nossas rodovias se depreciem muito antes do esperado.

Apesar de todas as adversidades, nossa indústria é pujante e a estrutura das empresas é infinitamente mais eficiente que as vias de transporte, e mesmo com todas essas dificuldades, as transportadoras se desdobram para atender os prazos e contam com uma forte aliada: a tecnologia!

Se os dados referentes à infraestrutura básica não são tão animadores, a tecnologia tem ajudado a contornar muitos problemas que se apresentam no dia a dia do transporte, seja pelo roteirizador para traçar melhores trajetos para o motorista enfrentar menos estradas em más condições, ou o monitoramento de cargas para garantir uma efetividade na entrega. O avanço das tecnologias 4G e 5G também pode ajudar, e muito, nessa questão, com o fornecimento de dados a respeito do transporte, do veículo, da localização e da jornada de trabalho.

Pensando pelo lado das transportadoras e embarcadores, um monitoramento com maior fluxo de informações proporcionados pela tecnologia, enviados por meio do próprio veículo ou smartphone, permite maior controle e rastreabilidade do veículo em viagem, com dados em tempo real, assim, maior segurança em caso de danos e roubo de cargas, além de prezar pelo bem-estar de uma importante peça no transporte rodoviário, o motorista.

Mas qual o caminho para aprimorar toda a infraestrutura do transporte? A resposta é simples: investimentos em todas as pontas. Ter maior visibilidade para toda a cadeia logística, desde o processo interno de carregamento até a entrega, pode trazer indicadores de quais são os obstáculos que a operação enfrenta, tanto interna quanto externamente. Também é fundamental direcionar bem esses investimentos. A má gestão de gastos não trará uma melhoria efetiva no transporte rodoviário, pelo contrário, poderá onerar cada vez mais os custos de transporte, que ainda depende, e muito, da malha rodoviária para abastecer todo o país.

A melhoria da infraestrutura das rodovias brasileiras aliada às novas tecnologias para beneficiar o setor logístico podem trazer o Brasil ao patamar de primeiro mundo quando se fala de transporte de cargas. O trajeto não é fácil, mas, com o mínimo de boa vontade, especialmente por parte dos governos, é possível deixar os caminhos bem menos tortuosos.

*Denny Mews é fundador e CEO da CargOn e professor do MBA em Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), da Fetrancesc com a Católica de Santa Catarina – Centro Universitário

Compartilhe:
Rumo, AGV, Águia Sistemas e VLI ampliam ações ambientais e sociais no Brasil
Rumo, AGV, Águia Sistemas e VLI ampliam ações ambientais e sociais no Brasil
Mercado logístico brasileiro fecha 2025 aquecido, com alta dos FIIs e pressão por oferta em 2026, aponta o Grupo EREA
Mercado logístico brasileiro fecha 2025 aquecido, com alta dos FIIs e pressão por oferta em 2026, aponta o Grupo EREA
Ministério de Portos e Aeroportos anuncia R$ 9,2 bilhões em investimentos em Terminais de Uso Privado
Ministério de Portos e Aeroportos anuncia R$ 9,2 bilhões em investimentos em Terminais de Uso Privado
Execução inteligente da Supply Chain ganha papel central no varejo mediado por IA, aponta Infios
Execução inteligente da Supply Chain ganha papel central no varejo mediado por IA, aponta Infios
Lwart e Copa Truck ampliam logística reversa do óleo usado durante a temporada 2026
Lwart e Copa Truck ampliam logística reversa do óleo usado durante a temporada 2026
Gestão de frota baseada em dados revela se caminhões geram lucro ou prejuízo, aponta Vilesoft
Gestão de frota baseada em dados revela se caminhões geram lucro ou prejuízo, aponta Vilesoft

As mais lidas

01

Executivos alertam para riscos do “Herói da Logística” no transporte terceirizado
Executivos alertam para riscos do “Herói da Logística” no transporte terceirizado

02

Operadores logísticos de até 50 funcionários ampliam participação e chegam a 38% do setor no Brasil, segundo a ABOL
Operadores logísticos de até 50 funcionários ampliam participação e chegam a 38% do setor no Brasil

03

Vagas no setor logístico e industrial ganham força em diferentes regiões do país
Vagas no setor logístico e industrial ganham força em diferentes regiões do país