Bruno Martins – Diretor Executivo da CNT

25/11/2008

Em sua passagem por Santos, o diretor-executivo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Bruno Martins, falou sobre os principais desafios logísticos previstos para o Brasil nos próximos anos. Em seu entender, o governo federal erra ao não priorizar o setor de transportes, pois assim perde-se tempo e dinheiro em precários acessos aos portos brasileiros.

Para resolver este cenário, a CNT prevê que são necessários investimentos de R$ 280 bilhões em portos, hidrovias, ferrovias, aeroportos e rodovias. Mas quem disse que a União tem dinheiro para isso tudo. “O transporte de cargas e pessoas no Brasil nunca foi visto como prioritário pelo governo federal, isso é histórico. Existe uma falta de sensibilidade muito grande da União quanto a isso”.
 

Por que o País não dá atenção suficiente para a logística?
Hoje, o grande problema do planejamento das obras no Brasil é a falta de um dimensionamento da cadeia toda. Então, quando você promove melhoria em uma modalidade específica e não contempla pátios, estradas, estacionamentos ou aeroportos com maior capacidade, você resolve o problema de uma área, mas estrangula outra. Isso é mais comum do que se imagina e deixa o País na situação em que se encontra: com indicados positivos, mas um sistema operando no limite.

 
O Brasil pode deixar de ser dependente do modal rodoviário?
Sim, claro, mas isso só vai ocorrer a partir do momento em que o Poder Público passar a investir em outras possibilidades de transporte. O Brasil é rodoviarista hoje, principalmente em relação ao transporte de cargas, muito em função da falta de opção. E o setor rodoviário possui graves e diversificados problemas. No momento em que o Governo Federal olhar com mais atenção para outros setores, a tendência é que se explore mais o modal ferroviário, ou então o aquaviário. Porém, enquanto isso não muda, até a soja é transportada por rodovias, o que está errado.

 
Há projetos empacados há décadas, como a Transnordestina. Se parte deles saísse do papel agora, ajudaria a mudar a situação?

Na verdade e para ser sincero contigo, o transporte de cargas e pessoas no Brasil nunca foi visto como prioritário pelo Governo Federal, isso é histórico. Existe uma falta de sensibilidade muito grande da União quanto a isso. Não adianta termos indústrias pujantes e uma agricultura com recorde de produtividade, por exemplo, se essa vantagem toda se perde durante o simples trajeto de transporte. E a ferrovia Transnordestina é o exemplo mais clássico disso tudo. Poderia levar desenvolvimento ao Nordeste, mas por falta políticas públicas de priorização, isso sempre foi adiado.

A logística do Porto de Santos é crítica ou há outros portos em situação pior?
Olha, apesar de tudo, o Porto de Santos possui uma condição privilegiada. O que não quer dizer que não há problemas a serem solucionados. No Nordeste, os grandes portos locais são bem mais críticos no que se trata de logística, pois têm problemas com acesso e dragagem. O Porto de Santos movimenta 30% do que o País exporta e por isso tem que ser prioridade para o Governo. Se em Santos as coisas funcionarem bem, o Brasil terá uma ótima saída para o mercado externo e, a partir daí, os investimentos poderiam ser melhor distribuídos aos outros portos.

 
O Governo Federal publicou o Decreto 6.620 para incentivar a abertura de novos portos no País. O que o senhor pensa sobre isso?
Mais uma vez, temos o problema de não se analisar a cadeia logística como um todo. De nada adianta incentivar a abertura de novos portos e não garantir o acesso rodoviário ou ferroviário a eles. É uma repetição de erros e se nada for mudado, vai criar mais gargalos no País.

 
Qual sua avaliação do Comitê de Logística da Codesp, do qual participou pela primeira vez?
Acho que a atuação de um comitê desse tipo é fundamental para solucionar os problemas verificados no dia-a-dia do complexo. Foi uma surpresa muito grande encontrar um comitê tão bem representado e o aprofundamento dos debates deve sempre existir. E no que depender da CNT, poderemos participar mais vezes do comitê, colaborar com números, pesquisas e sugestões. Quanto mais órgãos desse tipo tivermos no Brasil, com autoridades dispostas a discutir soluções para o transporte, melhor será a atuação do Poder Público, da CNT e de quem mais se interessa pelo futuro do setor.

 

Fonte: PortoGente – www.portogente.com.br

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