A Fênix é uma ave mitológica com uma propriedade bastante curiosa: ela morre em um processo de auto-combustão para renascer, logo após, das próprias cinzas e iniciar nova vida.
E a idéia do renascimento é algo realmente fascinante para a mente humana, sendo, inclusive, foco de inspiração de várias religiões e seitas contemporâneas.
Para os mais agnósticos, eu digo: de toda a forma o renascimento existe, se não pelas formas mais místicas, pelo menos dentro das reações físico-químicas da natureza… e na economia.
Não tem mais sentido ficar discutindo se a crise mundial existe ou não. Ela é fato. As oscilações das bolsas de valores; o socorro dos bancos centrais às instituições financeiras; a retração do comércio internacional; dentre outros fatores, mostram que vários dos alicerces de sustentação da economia global estão fraquejando.
Daí, nessa ambientação, encontramos dois tipos de análise: tem aqueles que fazem vista grossa aos fatos e dizem que nada mudará; e outra horda de Zés do Apocalipse que não resistem à profetizar o final dos tempos a cada sinal de turbulência.
A história prova que todos eles estão errados. Mesmo nos momentos mais brandos da trajetória da humanidade, mudanças importantes ocorreram; bem como nos piores episódios, as principais referencias do passado não chegaram a ser perdidas (talvez só anestesiadas por alguns momentos).
Então, o novo mundo que nos espera após a superação da crise atual não será uma coleção de escombros, tampouco um mero continuísmo do que existe atualmente.
Avaliar tal futuro é uma coisa arriscada, pela elevada chance de erro. Mas isso precisa ser feito, mesmo assim. E para iniciar essa longa discussão, o melhor é buscar os principais alicerces da economia contemporânea e avaliar o seu comprometimento no momento atual, o que pode nos levar a prováveis soluções de desdobramento futuro. Vamos, então ao trabalho:
Padrão Monetário
Um dos aspectos mais evidentes da crise atual é a questão financeira. Na medida em que as instituições de empréstimos vão reconhecendo seus créditos podres – especialmente originários da crise imobiliária dos EUA – o dólar vai se fragilizando em seu papel de principal intermediário e referência de trocas no mercado internacional. Além do problema do crédito, a moeda norte-americana passa por outros xeques de credibilidade, em função dos resultados da política econômica adotada pelo Poder Executivo estadunidense: redução de impostos, promovendo o desequilíbrio fiscal; inflação ascendente em convívio com queda de juros internos para evitar recessão (perigo de estagflação); exagerado déficit comercial; dentre outros fatores. Realmente, todos esses aspectos são cacetadas na credibilidade do padrão monetário. É provável que não haja recuperação. E eu fico pensando; será que o Presidente do Federal Reserve (Banco Central dos EUA) simplesmente vai aceitar a situação e dar tchauzinho para o Dólar? Nada disso! Se não valer a pena sustentar o padrão monetário, provavelmente haverá a tentativa de criar outro. E nesse contexto podemos pensar nos seguintes cenários alternativos para o futuro: emergência de outras moedas fazendo às vezes de intermediárias internacionais de trocas (o Euro já assumiu essa função; e fala-se na criação de uma moeda asiática unificada); ou criação de novo padrão monetário global, o que, pelo menos por enquanto, fica mais para o campo da utopia, pois os países não estariam dispostos, em princípio a abrir mão de suas políticas monetárias;
Padrão do Comércio Internacional
Essa provavelmente é a chave mais importante de toda a questão. De pouco adianta estratégias políticas e monetárias mirabolantes, se não existissem produtos finais e serviços a serem consumidos para justificar a existência do dinheiro. E a alavancagem do comércio global nos últimos anos foi claramente baseada em alguns aspectos específicos, tais como: China e outros países entrando no mercado mundial com mercadorias baratas e atraindo investimentos externos tendo o mercado interno como atrativo; aceleração do lançamento de novos produtos, mais notadamente centrados na evolução da tecnologia eletroeletrônica (celulares, DVDs, TVs LCD, computadores, etc. – nesse ponto, chegamos à Era dos Jetsons) e decorrências da internet; crescimento do turismo internacional; aumento do preço das commodities minerais e agrícolas por conta da melhoria da renda média de regiões populosas e tradicionalmente pobres, além de aumento do grau de investimento em infra-estrutura. Nesse caso, alguns sinalizadores de futuro são bem claros, outros nem tento. A futura onda de consumo provavelmente será baseada em novas tecnologias (talvez o iphone seja o marco divisório entre duas eras) com ainda maior grau de interatividade. No mesmo contexto, avanços a partir das expedições espaciais e desenvolvimento da engenharia genética estarão produzindo mercadorias e serviços inéditos até o momento, alavancando o comércio global. No campo agrícola é praticamente certo novos ganhos de produtividade, diante de uma população global em fase de estacionamento do crescimento. Como resultado, a pressão por áreas tendem a diminuir no longuíssimo prazo, apesar do aumento do consumo médio de alimentos cada vez mais sofisticados em termos nutricionais e de paladar. O espaço disponível para madeira (celulose) ainda é um mistério. Tudo depende do grau de sucesso na aplicação da assinatura digital, e-books e outras tecnologias ainda em gênese. Novos tecidos, produtos químicos e farmacêuticos também deverão ser vedetes do comércio mundial. No turismo, aviões mais econômicos e versáteis; vôos sub-orbitais; busca de convívio com a natureza; e outros atrativos tradicionais (a Disney, por exemplo) devem consolidar essa atividade como a mais importante no globo.
Energia x Ambiente
Era conveniente: o petróleo acabando e o aquecimento global impondo novas formas de energia limpa. Mas esse contexto já está em ponto de fragilidade. Só no Brasil, em 2008, foram descobertas reservas petrolíferas teoricamente capazes de sustentar o consumo global por algumas décadas. Enquanto isso, apesar de os pólos estarem derretendo, os invernos nas zonas temperadas estão mais gélidos. Paralelamente, a geração de bio-energia começa a ser questionada, pois, em tese, estaria tirando comida da boca dos mais pobres. Essa é uma salada de frutas muito confusa e assim deve permanecer até a implementação de algumas fontes realmente eficazes para geração de energia com fins motrizes. O futuro parece ser da fusão nuclear. Mas essa tecnologia só deverá estar acessível ao mercado no prazo de 2 ou 3 décadas, o que é muito tempo. Nesse campo, então, se não acontecer alguma catástrofe ambiental muito, mas muito séria, a tendência é ficar empurrando o problema com a barriga, discutindo-o nos jornais e seminários de debate abertos, onde os participantes obrigatoriamente concordarão entre si e ficarão falando mal dos oponentes, reunidos em outros fóruns.
Geo-política
Vamos reconhecer: os EUA fizeram feio na invasão do Iraque. Além dos questionamentos éticos da questão, o exército mais poderoso do mundo se mostrou capaz de invadir um país estrangeiro, mas incompetente para estabelecer o seu domínio. Isso evidentemente acaba encorajando a ascensão de novas potências bélicas (China, Índia, Paquistão, Venezuela – He, He, He) e a recuperação de nações como a Rússia, pressionando para um novo equilíbrio de forças militares globais, o que naturalmente acaba interferindo em outras variáveis, como comércio, moeda e energia. Não podemos ser míopes em relação a isso. A China, por exemplo, com seus mais de 1,3 bilhão de habitantes, não deixará de ter interesses de expansão territorial, seja por influência (África), como por ocupação propriamente dita (Tibete, Taiwan e talvez outros vizinhos). Enquanto isso a Rússia tentará recuperar influencia na Europa Oriental e seus ex-países periféricos da Ásia. Temos ainda um terceiro provável bloco integrando Europa, América do Norte, Oceania e, talvez o Japão (se não migrar para a zona chinesa de influência). Nesse contexto, a América Latina provavelmente honrará a sua tradição de ficar brincando de coringa meio irresponsável nesse jogo global, que incrivelmente tende a se aproximar da visão de Huxley em seu livro, 1984.
Claro, existem incontáveis cenários alternativos. O importante, nesse momento é procurar enxergá-los e, na medida em que um ou outro começa a tomar ares de concretização, buscar o posicionamento dentro da nova realidade.
É isso. O mundo não vai acabar com a crise internacional. Mas nada será como foi; mas sempre foi assim.
Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br





