O reverendo Thomas Robert Malthus viveu entre 1766 e 1834. Não era má pessoa. Tornou-se famoso pela publicação do seu Ensaio sobre o princípio da população , debatido nos bares e universidades de quase toda a Inglaterra. Intelectualmente honesto, refinou seu trabalho ao longo das diversas edições da obra, dando origem à análise empírica na economia. Seu único defeito foi afirmar que a população crescia em proporção geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em proporção aritmética. Para daí afirmar que todos os males da sociedade decorriam do crescimento da população. Suas conclusões pessimistas levaram o historiador vitoriano Thomas Carlyle a apelidar a economia de ciência lúgrube ( dismal science ).
É claro que a previsão de Malthus não se realizou, pela simples razão de que o aumento da produtividade fez crescer a oferta de alimentos muito mais rapidamente que a população. Curiosamente, em seu próprio tempo e até meados da década de 1920, a população mundial cresceu a uma taxa de 0,5% ao ano, inferior à do crescimento da oferta de alimentos; quando a taxa de crescimento da população se acelerou depois da Segunda Guerra Mundial, atingindo mais 2% ao ano na década de 1960, a Revolução Verde na agricultura havia tornado o problema irrelevante. O problema agora é a obesidade mundial.
A despeito desses fatos, esta semana Jacques Chirac, ex-presidente da França e atual membro do Conselho Constitucional , expressou sua profunda preocupação com a "crise dos alimentos". Não está só. Antes dele, também expressaram preocupação semelhante, entre outros, Paul Krugman, o célebre colunista do New York Times ; Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial e Dominique Strauss-Khan, diretor-geral do FMI.
Em resposta à "crise dos alimentos", alguns países estão tributando suas exportações de alimentos. A Argentina foi pioneira na adoção dessa política. Diga-se, de passagem, que começou a tributar as exportações de soja, trigo e carne antes que se falasse de qualquer tipo de crise. É bem verdade que o governo local pretendia mascarar a inflação, impedindo que os preços internacionais dos alimentos que exporta se transmitissem aos agricultores argentinos. Diversos outros países seguiram o exemplo precursor da Argentina. O Cazaquistão paralisou as suas exportações de trigo. A Indonésia fez o mesmo com suas exportações de arroz. Também suspenderam suas exportações de alimentos o Vietnã, o Egito, a China, o Camboja e a Índia. Nenhum governo quer ser acusado de cruzar os braços, quando os mais pobres estão pagando preços mais altos por comida. Quais as alternativas a essa onda neoprotecionista?
Certamente não será a pantomima encenada pelo presidente do Banco Mundial. Nem sua conclusão de que a "crise" dos alimentos é decorrência da produção de biocombustíveis. Ou esmolas para os mais pobres. O próprio Banco Mundial não acredita na sua receita. Os empréstimos do Banco aos famintos países africanos não correspondem sequer a meio por cento (0,46%) dos subsídios ofertados pelos europeus à produção agrícola ineficiente em seu território. Esse número é ainda menor se forem acrescentados os subsídios americanos à produção de etanol de milho em seu próprio território.
A solução do problema não emergirá da demagogia ou da pantomima. O aumento dos preços é a resposta natural à escassez temporária – enfatize-se, temporária . Preços mais altos incentivam o aumento da oferta em toda parte, mas especialmente nos países que têm vantagens comparativas na produção de alimentos, como o Brasil. Para isso será necessário liberalizar os preços e o comércio internacional de alimentos, permitindo que os mais eficientes supram os demais.
Feita a opção pela liberdade de preços e comércio, será então próprio propor-se uma ajuda alimentar temporária aos países mais pobres afligidos pela "crise" dos alimentos. Caso contrário não se resolverá o problema e ainda se manterá esses países reféns dos ofertantes da ajuda "humanitária" dos países doadores.
Fonte: www.dcomercio.com.br








