A tempestade mundial não passou

17/03/2008

Infelizmente, como se esperava, a operação promovida pelo Federal Reserve e por diversos outros bancos centrais – o banco central do Canadá, o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu e o Banco Nacional Suíço – não acalmou os mercados. A volatilidade persiste, a despeito do montante da intervenção.

A esse respeito cumpre fazer alguns comentários. Muitos afirmaram que se tratava de uma operação de "troca de chumbo" entre o Federal Reserve e os bancos americanos. O objetivo da operação seria a pura e simples troca de lastro das operações dos bancos, permitindo que esses entregassem ao Federal Reserve títulos "podres" e recebessem em troca títulos do Tesouro dos EUA. Com isso, se resolveria o agudo problema de liquidez do sistema bancário, já que as operações lastreadas agora em títulos do Tesouro teriam liquidez imediata.

Se fosse isso verdade, com o Federal Reserve mantendo em carteira títulos "podres" até o vencimento, se estaria transferindo aos contribuintes americanos um colossal "mico preto".

A socialização desse prejuízo, evidentemente, não passaria em branco em uma sociedade democrática, como a norte-americana. Lá, o Legislativo exerce efetivo controle das ações do Executivo, o que de pronto tornaria impensável um "salvamento" do sistema bancário à custa dos contribuintes.

O que de fato aconteceu, conforme comunicado disponível no site do Federal Reserve, foi o anúncio de uma expansão do programa de empréstimo de títulos do Tesouro americano aos dealers primários do Federal Reserve (e não aos bancos em geral, conforme se interpretou), por prazo limitado de tempo (28 dias). Em troca do empréstimo dos títulos, o Federal Reserve receberá desses dealers outros papéis, de acordo com uma escala de deságio pré-estabelecida. Além disso, o acesso ao empréstimo dos títulos aos dealers não é automático, já que essas instituições do mercado financeiro deverão participar de leilão promovido pelo Fed para a cessão dos títulos. Os demais bancos centrais do G-10 participantes da ação coordenada anunciada no último dia 11 objetivam conter pressões sobre a liquidez nos mercados fora dos Estados Unidos.

A despeito do tamanho da operação (acima de 200 bilhões de dólares), persiste a volatilidade nos mercados, conforme se pode observar pelo comportamento desses depois do anúncio das medidas. Também contribuiu para acentuar a volatilidade o anúncio de que o Federal Reserve e o banco JPMorgan Chase concordaram em resgatar o banco Bear Stearns. Ambas as instituições decidiram promover o resgate depois que se constatou que a situação de caída do Bear Stearns havia se deteriorado de forma significativa.

Oanúncio dessa última operação aumentou a preocupação de que as perdas nos mercados de crédito possam se acentuar ainda mais. Em razão disso, o mercado especula que o Federal Reserve poderá cortar os custos dos seus empréstimos em mais um ponto percentual na reunião do FOMC (o Copom do Federal Reserve) desta semana. Desde março do ano passado, quando começaram as perdas relacionadas com os empréstimos subprime do mercado imobiliário americano, as perdas até agora reportadas indicam que o montante ascende a 188 bilhões de dólares.

Em outra frente, o índice de confiança dos consumidores americanos atingiu o nível mais baixo dos últimos 16 anos, indicando mais uma vez que a economia americana pode estar à beira da recessão. O índice está agora em 70,5 pontos, comparado com 85,6 pontos em 2007.

O que está permitindo que o Federal Reserve continue baixando as taxas de juros é a ausência de aceleração da inflação nos índices de preços norte-americanos. Em razão disso, tem sido possível implementar o conjunto de medidas já postas em prática com o objetivo de evitar a recessão.

A lição que se pode tirar de tudo isso é simples: a tempestade não passou e não devemos nos vangloriar, como nos dias do regime militar, que somos uma "ilha de tranqüilidade em um mar de turbulência".

 

Fonte: www.dcomercio.com.br

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