No final do século passado, perto do ano 2000, estava nos Estados Unidos em visita de negócios a uma grande agência de propaganda, matriz da filial brasileira que nos acompanhava em Detroit. O escritório dessa agência ocupava (deve ainda ocupar) alguns andares do Renaissance Center, aquele conjunto de prédios por onde os bólidos da Fórmula 1 passavam em volta quando havia Grande Prêmio naquela cidade. O grande complexo é interligado com torres e elevadores distintos.
A comitiva brasileira, da qual eu fazia parte, desorientou-se no encontro dos elevadores e torres corretas e, por isso, chegamos atrasados cerca de 20 minutos à reunião com o presidente da empresa norte-americana. Por educação pedimos desculpas pelo atraso e ele respondeu direto, claro que em inglês: "tudo bem, vocês são da América do Sul".
Um ano antes, estive em Madrid na sede de uma grande companhia mundial de automóveis, com filial na Espanha para assistir à convenção de lançamento de um novo veículo. Após a reunião de trabalho, os espanhóis que nos recebiam querendo ser "gentis" disseram que tinham uma grande surpresa para nós, brasileiros, ao final do encontro. A tal grande surpresa era a projeção de um vídeo com mulatas de escolas de samba do Brasil, sumariamente vestidas, rebolando ao ritmo frenético do samba. Os espanhóis anfitriões nos olhavam extasiados, esperando encontrar em nossa expressão facial sinal de deleite por nos homenagear daquela maneira.
Cito apenas dois exemplos. Certamente há "zilhões" deles para serem narrados, de como os americanos do Norte e os europeus nos olham através de preconceitos seculares.
É verdade que, vira e mexe, há muito brasileiro, seja do governo ou simples cidadãos em viagem de turismo ou negócio, que se comporta de maneira inadequada.
É verdade que há "zilhares" de brasileiras que viajam a esses continentes para se prostituir e generalizar uma fama ruim para as nascidas no patropi . Claro que há os que entram e os que tentam entrar ilegalmente em países que já são cheios de preconceito.
Os Estados Unidos, desde o atentado que derrubou as torres do WTC, tornaram ainda mais rigoroso o processo de admissão de estrangeiros. Especialmente os advindos de países de origem árabe ou dos países pobres cujos habitantes tentam ingressar ilegalmente.
AEuropa, por seus países mais desenvolvidos, está assustada com os fluxos migratórios internos do continente e igualmente com os originários de países pobres. O desemprego e a concorrência dos estrangeiros criam xenofobia, que gera demagogia dos políticos para fazer média com seus eleitores. É um prato cheio.
Nós, por aqui, nos ofendemos. Ficamos indignados e vibramos como quando aquele piloto de avião norte-americano que mostrou o famoso dedo, que representa uma ofensa, foi preso e punido com a deportação pela Polícia Federal do Brasil.
Vitórias de Pirro. Sem efeito prático. O preconceito continua. Pior de tudo, os fatos que geraram ao longo da história o preconceito remanescem em escala ainda incapaz de minimizar a má imagem.
Fonte: www.dcomercio.com.br





