Uma visão sobre Obama

20/11/2008

A eleição de Obama como novo presidente dos Estados Unidos trouxe ao mundo uma onda de esperança. Por todos os lugares, inclusive naqueles agudos inimigos dos americanos, há canecas, camisetas, bonés, etc, com a foto ou dizeres a respeito do novo presidente.

Creio que está havendo uma confusão de sentidos e em função disso uma perigosa expectativa de que ele, sozinho, venha a resolver os problemas do mundo.

De fato, a chegada de Obama à Casa Branca é absolutamente espetacular. De um internacionalmente desconhecido senador ao mais poderoso presidente, num único salto, é algo raro, especialmente nos Estados Unidos.

Mais intrigante é que ele vem de família sem grandes posses e sem qualquer influência. Mas, como se diz por lá, isto é América, lugar onde os sonhos podem se tornar realidade.

Sua campanha também empolgou com a chamada: nós podemos mudar.

Claro que qualquer um que se sentar na cadeira de presidente pode mudar muita coisa. Se considerarmos que quem está saindo é o Bush, então qualquer coisa pode ser muito mudada.

Creio que esse é o ponto que o mundo mais espera, isto é, que o país, representado pelo seu presidente, entenda que, apesar do poderio econômico e militar dos americanos, há muitos outros participantes importantes na vida do mundo. Principalmente se espera que haja um trato diferente com os outros povos e não a arrogância habitual, principalmente dos últimos anos, com que os americanos têm tratado o resto do mundo.

Não esperem, porém, que o novo presidente se torne humilde em relação aos seus pares. Isso não seria mesmo uma postura adequada a um estadista americano, e acredito não seria permitida pelos seus assessores.

Espera-se sim maior diálogo. Porém, é preciso lembrar que o partido Republicano, que estará no poder com a maioria das cadeiras, a partir de janeiro de 2009, não é o mais chegado a relações mais afáveis com países em desenvolvimento, e que, sozinho, um presidente não tem toda a força que se está colocando sobre seus ombros.

Se Obama partir para colocar gente sem qualquer experiência nos postos-chaves do governo, pode quebrar a cara, como aconteceu com o presidente Collor, no Brasil.

Se, no entanto, colocar gente experiente, como a senhora Clinton, estará certamente sujeito a coordenação do partido que o apóia. É bom lembrar que nos EUA ou se está de um lado ou de outro, em função do forte bipartidarismo, o que elimina qualquer chance de outras combinações partidárias com acontece aqui.

Portanto o que se pode esperar de Obama é uma posição moral diferente da de seu antecessor.

Por outro lado, a expectativa de que ele resolva outros problemas como o de terrorismo internacional está longe de ser realizada. A saída dos americanos do Iraque já está sendo negociada e, a princípio, estabelecida para 2011. Entretanto  Afeganistão e Taleban não são um problema dos americanos democratas ou republicanos. Tão pouco são um problema de esquerda ou direita (basta lembrar que a Rússia tentou durante anos dominar esse país e foi rechaçada), logo será difícil esperar que ele, Obama, solucione essa questão num passe de mágica.

A combalida Cuba, berço dos últimos românticos comunistas, só não teve o comércio internacional restabelecido por conta da implicância americana e da sobrevida de Fidel, que, segundo a lógica da vida e da morte, não deve durar muitos anos mais. Portanto voltar a ter relações comerciais com Cuba é questão de paciência.

A maior esperança é uma nova ordem moral em Washington. Basta lembrar que foi nos anos de Bush que apareceram as grandes crises das grandes empresas, com administrações fraudulentas, enganando a massa de investidores em bolsa, o que é bem mais comum lá do que aqui no Brasil.

Para culminar, um dos piores períodos de governo temos agora a crise da vergonha bancária americana, espalhada ou à força, ou por influência,  ao resto do mundo.

Não podemos imputar ao novo presidente uma responsabilidade de solução mágica dessa situação que afeta a todos. Uma Europa em recessão não responderá, com velocidade supersônica, a uma liberação de crédito imposto pelos seus bancos centrais. Americanos e japoneses tentarão conter seu ímpeto de comprar de tudo, por algum tempo, e no caso japonês voltarão seus recursos mais para a poupança, e no caso americano, mais para pagar as dívidas antigas.

Ele pode dar mais dinheiro para as montadoras, como já afirmou, ou liberar mais dinheiro para o sistema bancário, ou intervir mais na economia diretamente. Porém as soluções não serão de recuperação imediata das bolsas de valores de todo o mundo, ou do mercado de imóveis e de automóveis. Até mesmo as principais universidades americanas começam a se preocupar com a redução substancial de doações.

A recuperação que certamente virá não será instantânea. É aí que mora o perigo da desesperança sobre ele.

O que pode, e sim se deve, é cobrar de Obama um governo de novas atitudes morais.

 

Fonte: PortoGente – www.portogente.com.br

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