Tirando um pouco de folga

06/10/2008

Por muitas vezes critiquei o poder legislativo brasileiro por sua falta de seriedade em momentos chaves da nossa história. Mas agora, observando o comportamento do senado norte-americano, fico mais tranqüilo em saber que a chinelagem política não é nossa prerrogativa exclusiva.

Imagino a cara de pau do sujeito que no meio da discussão de um tema que simplesmente pode quebrar seu próprio país, propôs, no âmbito do pacote, benefícios para a indústria cinematográfica. Mais incrível ainda é que tal proposição foi aceita no contexto em foco. As vítimas de furacões também entraram na dança e não me surpreenderia se dentro dos US$ 850 bilhões orçados para combater a crise não estejam incluídos uns trocos para corporações do tipo "Associação dos portadores de mindinho do pé esquerdo com unha encravada”.

Mas deixando de lado ironias mais agudas,  alerto o leitor para uma questão importante em momentos como o qual estamos atravessando: ainda por algumas semanas – pelo menos – as incertezas do futuro continuarão tomando conta do ambiente econômico.

Na verdade, mesmo que os governos garantam a liquidez de todos os créditos podres do sistema financeiro, isso não quer dizer que a situação será normalizada.

Mais do que um problema matemático de dimensionar o rombo financeiro, a principal característica da atualidade é subjetiva. Há o perceptível abalo na credibilidade de instituições que até alguns dias eram os maiores símbolos de poder econômico.

Gostaria de, hoje, passear por Wall Street e ver o bando de moleques chorões que  antes eram os operadores da bolsa; observar que de alguns dos mais sólidos bancos do mundo, só restaram prédios fantasmas.

Enfim, estamos no epicentro da transformação de um modelo de relações econômicas. Até é possível compreender o passado; entender porque o mundo chegou aonde chegou.

Mas quanto ao futuro, ainda é prematuro dizer qualquer coisa em tons mais firmes.

Em primeiro lugar, não se sabe se o plano de recuperação arquitetado pelo Estado norte-americano – e, do seu lado, pela Europa – vai dar certo.

As dúvidas não param por ai: será que depois de tanta lambança as relações econômicas entre os países continuaram as mesmas? Uma dica: a economia dos EUA terceirizou para a China grande parte da sua capacidade produtiva, priorizando a formação de riqueza a partir do capital financeiro e de meios de remuneração não tangíveis, hoje claramente ameaçados. Imagine o que acontecerá se os ianques e europeus quiserem suas fábricas de volta… Bagunça na certa!

Outros cenários são possíveis. O problema é que, sinceramente, no atual instante, não há muitas bases para identificar para que lado, provavelmente, o futuro pode ir.

Sendo assim, o prudente é esperar os sinais mais consistentes do que emergirá da maçaroca atual. Quanto mais a futura realidade estiver ligada produtos tangíveis, mais claro será o cenário.

Por ora, a única recomendação o que faço  é receitar um chopinho com os amigos para relaxar e esperar pelo que virá. Recessão é provável. Prever mais do que isso seria irresponsabilidade.

Pretendo folgar até a semana que vem.

 

Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

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