A Balança Comercial pelo ralo

15/02/2008

Falta de aviso não foi. Mesmo com o dólar em gangorra mundo afora (com tendência de queda), a valorização do real vem tornando as exportações nacionais cada vez mais problemáticas, enquanto os produtos importados ganham inédita presença no dia a dia nacional.

Parecia praga dizer que iria chegar o dia em que os tão propagandeados superávits se transformariam em prejuízos bilionários. Mas os dados consolidados de janeiro mostram que esse contexto está se tornando quase inevitável. Vamos a alguns números:

– A balança comercial brasileira fechou o mês passado com superávit de US$ 944 milhões: queda de 62,5% diante do resultado de janeiro de 2007.
 
– Se resolvêssemos retirar apenas o capítulo de minérios, escórias e cinzas da pauta comercial, o citado ganho se transformaria em déficit de US$ 50 milhões. Isso significa dizer que a distância entre o lucro e o prejuízo está vinculado a uma atividade inteiramente extrativa. Nada para orgulhar uma nação que pretende ser uma potência econômica mundial.

– Radicalizando um pouco mais a análise, se isolarmos do cálculo todos os produtos considerados básicos (minerais e agrícolas), o déficit comercial brasileiro ficaria em assustadores US$ 3,8 bilhões. Esse dado simplesmente mostra que a competitividade brasileira já se foi pelo ralo há algum tempo.

– O fato em si mostra que a indústria nacional (a maioria dos grupos exportadores, tirando os produtos básicos) enfrenta sérios problemas no mercado interno e externo.

– O preço médio das exportações brasileiras no período em foco chegou a US$ 0,35 por quilo, enquanto a valor pago pelas importações foi de US$ 1,15 por quilo. De uma certa forma, isso quer dizer que os produtos que compramos valem 3,3 vezes mais do que os que vendemos. Ou seja, o quilo de Brasil está bem mais barato do que o quilo do resto do mundo.Isso deveria ferir os brios dos mais cívicos e atentar contra alguma parte do hino nacional.

Temos mais informações causadoras de pouco orgulho para elencar. Mas vamos poupar o estômago dos leitores. O importante é identificar o fenômeno em foco e colocá-lo na perspectiva das tendências do comércio global no médio-longo prazo.

Se a economia mundial passar por um período de vacas magras, como parece que realmente vai acontecer, os primeiros e mais sérios choques de demanda tendem a acontecer no âmbito das commodities minerais, como o ferro e aço. A lógica é simples: a retração da atividade inibe os investimentos, atingindo os produtos básicos.

Daí meus amigos, lá se vão os bons e sólidos (mesmo?) fundamentos da economia brasileira. Nossas grandes reservas cambiais irão embora rapidinho, ainda mais que os investidores internacionais no Bovespa estão dando no pé e repatriando recursos aqui depositados temporariamente.
 
O cenário não é dos mais convidativos. Vendo o Brasil de hoje com um grau maior de sinceridade, nosso papel internacional não mudou muito em relação aos tempos da colônia, do império e do getulismo. Antes exportávamos algodão, café, açúcar e ouro para importar todo o resto. Agora exportamos predominantemente ferro, plantas e carne para levar prejuízo em quase todo o resto.
 
Solução para o problema? Recuperação cambial e, especialmente, uma política industrial responsável. Não aquela que estamos acostumados, na qual o Estado intervém e procura determinar o que deve ser feito. Uma simples redução de carga tributária e administração dos recursos educacionais profissionalizantes a partir dos interesses dos próprios contribuintes já seria um passo enorme rumo a um Brasil realmente competitivo.

 

Eduardo Starosta é economista e pós-graduado em filosofia. Desde 1999 é Diretor da Estplan Assessoria e Planejamento Econômico LTDA, empresa especializada em inteligência de mercado, análise de conjuntura e cenários, com atuação central em entidades empresariais. Uma de suas obras de maior destaque é “Agrocenários, Desafios e Oportunidades” – 2006, elaborada em conjunto com o ex-ministro da agricultura, Francisco Turra. 

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