Imagine um lugar onde não existissem ratos e baratas. Pois então saiba que esses animais, causadores da maior incidência de chineladas e berreiros em qualquer residência (ninguém escapa de um ou de outro!) simplesmente eram ausentes da fauna americana antes da chegada de Cristóvão Colombo.
Conta a história que os navios europeus não podiam ser considerados os melhores exemplos de higiene. E como tais bichinhos são chegados numa vida, diríamos, mais libertária, eles naturalmente acompanharam os – na época – nada asseados portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses nas suas jornadas de dominação global. E a América ficou infestada.
E esse fenômeno ocorreu até de forma intencional em alguns outros casos. Por exemplo, os pombos e os pardais se tornaram pragas no Brasil por conta dos lusitanos com saudades dos gorjeios da sua terra natal. Na Austrália a infestação foi dos charmosos coelhinhos.
Mas nem todo descontrole de bichos fora de seu habitat natural geram problemas. Em alguns casos, eles acabaram sendo até benéficos. Um caso clássico disso ocorreu no Rio Grande do Sul, no distante século 15, quando jesuítas introduziram o gado na região, que tempos depois foi abandonado à própria sorte pela expulsão dos religiosos.
Algumas dezenas de anos se passaram e a boiada se multiplicou. Daí, quando chegaram novos colonizadores, estes passaram a ter fartura de carne, gerando a primeira vocação econômica da população gaúcha.
Lembrei dessa história, quando há alguns dias assisti em um telejornal a cena do granjeiro abrindo as portas do galinheiro para que seus hóspedes pudessem catar a própria comida da natureza ao redor, já que a ração prometida por quem o contratou para engordar as aves não chegara, disseminando a mortalidade aviária pelo local. Parece que situação similar está acontecendo com porcos também.
Eis aí uma clara conseqüência dentro do mundo real dos efeitos da crise que se abateu no mercado financeiro e acionário. Mesmo que os bancos centrais falem queda de taxas de juros, o fato é que o dinheiro está em uma fase de entressafra planetária: é escasso e quando as coisas são assim ele fica caro, como qualquer fruta fora de época.
Daí o importador, com medo de não vender o produto, deixa de importar; o exportador, sem pedidos em carteira, não repassa a ração para a granja; e o granjeiro, com o coração partido por ver seus bichinhos morrendo de fome, abre a porta do confinamento, concedendo a liberdade para os animais.
Interessante pensar na existência da possibilidade desses bichos serem mais e mais libertados por conta de uma crise prolongada. Dá para imaginar que os sobreviventes terão uma carne de sabor mais silvestre. Mas não é só isso: evidentemente, alguns animais darão um jeito de fugir ao controle e ganhar o espaço da natureza.
E os que conseguirem não serem prensados nas estradas, fugir das mandíbulas de cachorros e outros predadores soltos, terão boas chances de se reproduzir e prosperar na natureza.
Ao longo de algumas gerações, talvez esses animais criados originalmente sem contato com o mundo real, venham a se adaptar à natureza. Podem voltar à essência atávica de seus ancestrais, ou seguir caminho evolutivo diferente.
Por incrível que pareça esse pensamento, com algumas adaptações, pode caber muito bem no atual impasse da humanidade. A produtividade do sistema financeiro e do mercado de ações perdeu a conexão com a realidade do mundo material. A soma do valor das ações de algumas empresas superaram centenas de vezes a avaliação patrimonial das mesmas. Enquanto isso, a alavancagem de bancos e companhias hipotecárias chegou a superar 40 vezes o lastro.
Se para as galinhas e os porcos faltou ração, o alimento dos operadores dos citados mercados chama-se credibilidade e esperança dos investidores. E tais insumos inegavelmente estão em falta.
Tomara que a situação seja revertida no curto prazo. Se isso não ocorrer, tais pessoas, várias das quais nunca lidaram com a realidade do dia-a-dia, correrão o sério risco de ter que enfrentar a verdade da vida. Alguns prédios de Wall Street já estão vazios para provar que tal hipótese não é tão absurda.
Será que ao menos uma parcela dessas pessoas terá capacidade de se adaptar à nova realidade que está por vir, mas não se sabe qual é? Impossível de dizer nesse momento.
Mas se a vida de porcos e galinhas fora da granja der certo, pode se esperar que tudo ao redor vire uma mistura de galinhagem com porcaria…
Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br








