Você sabe como começou a tal da globalização?
Deve ter um hieróglifo enterrado nas profundezas de algum ponto da África ou Ásia, contando a história do troglodita que viu alguma coisa do vizinho; desejou e quis trocar. Naquela hora, além de nascer o comércio, também surgiu o ditado “a galinha do vizinho é sempre mais gorda”.
Agora, sem brincadeira, as relações de troca começaram a existir a partir do desejo de possuir algo que outra pessoa tinha ou produzia. Com o tempo, esse comportamento humano passou a avançar fronteiras, até abranger praticamente o mundo todo.
Evidentemente, na medida em que o fluxo de mercadorias ia crescendo, a complexidade do sistema aumentava. Primeiro inventaram o dinheiro; depois o crédito; mais tarde ainda, os bancos; os títulos da dívida pública; as ações das companhias abertas; cartões de crédito; e por aí afora.
Com o tempo, algumas pessoas se deram conta de que toda essa circulação de produtos e dinheiro poderia ocorrer em velocidade maior, proporcionando mais acesso à riqueza e ao consumo.
Veja só: suponha que você tenha pego emprestado de um amigo R$ 100,00 por um ano. Na verdade, seu objetivo com o empréstimo seria repassar o dinheiro a um parente, que por sua vez, repassou a um terceiro (que só precisaria do dinheiro dali a alguns meses), o qual entregou a quantia ao seu amigo, que havia errado no orçamento e não poderia ter feito tal empréstimo.
Dessa forma, os R$100 originais, acabaram se transformando em R$400, já que o montante original foi alavancado em quatro vezes, na forma de dívidas.
Agora, imagine se o seu amigo gasta o dinheiro e vincula o pagamento do empréstimo ao recebimento do que você deve a ele. Mas suponhamos que no meio de toda essa confusão tenha ocorrido algo para impedir que qualquer um dos membros do grupo de empréstimo receba o dinheiro para quitar a dívida.
No final das contas, os R$100 se viram uma dívida impagável de R$ 400,00. Os amigos deixam de ser amigos e os parentes passam a se odiar.
Está destruído o sistema de confiança e ninguém, a rigor, sabe quem é credor ou devedor.
Antes de parecer loucura, essa grotesca dramatização reflete o clássico caso em economia, de multiplicação dos meios de pagamento.
Se a confusão com uma alavancagem de 4 vezes o valor inicial já não é muito simples, imagine se fosse 50. Na verdade, o processo chegou a esse patamar… e explodiu!
O resto da história está muito bem documentada nos jornais de cada dia: a desconfiança mútua fez o crédito global secar e a partir daí a roda da economia passou a girar mais devagar, ameaçando muitas das mais tradicionais empresas do mundo a virarem massa falida.
Mas e agora, o que fazer?
Em relação ao que estávamos acostumados a vivenciar, pelo menos no momento, não nos resta nada além de esperar o pânico passar e o dinheiro novamente começar a girar na economia. Mas isso pode demorar anos.
E enquanto isso?
Bem, por algum tempo, globalização vai ser palavrão e quem falar bem dela será taxado de coisas estranhas como neoliberal.
Alguns países aproveitarão essa nova moral e evitarão importar. No início o povão pode até aplaudir. Mas aos poucos, coisas de fora começarão a fazer falta no dia a dia.
Quanto será que custa uma quinquilharia que não seja chinesa? E o sabor de uma salada sem o azeite de oliva espanhol, italiano ou português (prefiro o espanhol)? Ou como trabalharemos no computador sem o word, Excel e outras invenções do Bill Gates (pirataria não vale!)?
Há vários outros exemplos que tornam ridícula a idéia de que os países irão simplesmente fechar suas fronteiras para diminuir sua exposição à crise internacional.
Pode, isso sim, haver algum tipo de protecionismo localizado para garantir empregos, combater práticas desleais de comércio, ou até usar tal instrumento como forma de pressão geopolítica em conflitos que foram temporariamente enfraquecidos na época em que todos estavam ganhando dinheiro.
Entretanto, a não ser que destruam todos os satélites de comunicação; explodam a internet; derrubem todos os aviões e afundem todos os navios, o cidadão do mundo nunca vai deixar de prestar atenção e desejar algo que está sendo consumido no outro canto do planeta.
Resumindo, o ser humano não deverá abrir mão de sua visão de alcance global.
Por outro lado, o fato é que saímos de uma época na qual conseguir dinheiro era algo de muito fácil, para uma fase onde isso está se tornando bem mais difícil, apesar dos esforços das autoridades monetárias.
E em tal circunstância, o vizinho que podemos enxergar começa a ganhar mais importância. Muitas empresas já aceitam negociar com fornecedores e clientes sem usar dinheiro, simplesmente através da troca direta de mercadorias. Na Inglaterra, alguns vilarejos estão criando, com sucesso, sua moeda local, para trocas no âmbito interno da comunidade.
Então, parece que ressurgem com força as relações de interação e trocas locais.
Isso pode vir a ser uma interessante experiência.
Aparentemente, os horizontes de mundo se ampliaram tanto, que gradativamente fomos perdendo a capacidade de lidar com as coisas palpáveis mais próximas.
A falta de dinheiro está fazendo com que uma intermediação de trocas impessoal volte a ter certa alma.
Outro dia, almoçando na casa de um amigo em Ivoti (interior do RS) observei a vizinha pegando beterraba na horta dele. Nas próximas semanas, vai ser ele a tirar uma casquinha do milho verde do vizinho de trás.
Como morador de área metropolitana, ainda não percebi nada disso. Mas nas pequenas comunidades, tal processo parece ser evidente e não se pode negar que isso tenha certa graça.
Pensando bem, em parte, todo o processo de globalização fez com que o nosso mundo mental ganhasse o planeta.
Mas no plano físico, acabamos ficando cada vez mais circunscritos a salas de concreto, seja em casa, ou no escritório, ou no próprio carro (aí é de lata). Para ver a natureza, só nas férias e em alguns finais de semana.
Talvez, a situação atual, nos inspire a procurar uma feira livre nas proximidades; caminhar na rua para evitar desperdício de combustível (e do raro dinheirinho).
Se isso acontecer, começaremos a recuperar o espírito de cidade; retomar o controle das ruas; e quem sabe, não precisar mais ir nas academias para andar naquelas esteiras que não nos levam a lugar nenhum.
Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br








