O presidente Lula não vai medir esforços para ser uma das estrelas da cúpula do G20, hoje, em Londres. O Itamaraty e seus conselheiros diplomáticos não deixam por menos: Lula será o porta-voz dos países emergentes e em desenvolvimento contra a posição dos riscos da Europa e dos Estados Unidos – mesmo que lá também estejam presentes a China, a Índia e a Argentina.
Lula, que não é de cometer “impropriedades” quando não quer – engana-se quem pensa que ele diz coisas impensadamente – preparou cuidadosamente o papel que pretende desempenhar, como contraponto a Barak Obama, o líder, digamos assim, da outra facção, a dos desenvolvidos, e ao anfitrião, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown.
Desde o discurso do "louro de olhos azuis" Lula vem preparando a sua estratégia, que é cobrar toda a responsabilidade sobre o que está acontecendo dos países desenvolvidos e dar conselhos a seus dirigentes sobre como agir para conduzir suas economias saudavelmente. Na entrevista que deu à rede de televisão norte-americana CNN, Lula, além de lembrar, mais uma vez, que a crise é lambança de rico, passou algumas lições para Obama.
Disse, entre outras coisas, que o presidente norte-americano não deve se preocupar com Guerra no Iraque e que deve ler mais sobre a crise da economia do Japão nos anos 90. Lembrou também o sucesso brasileiro e a solidez de nossas instituições financeiras. Quase uma plataforma para o G20 hoje. Anteontem, em Doha, conforme relatou o enviado especial do Estadão ao encontro entre árabes e sul-americanos, Lula "elevou um pouco mais o tom de suas críticas" e fez "um duro ataque às economias desenvolvidas", alegando que são as responsáveis não apenas pela crise, mas pela degradação ambiental, pelos desequilíbrios no comércio e até mesmo pela insegurança coletiva.
Ao chegar ontem a Londres, em nova "adevertência", Lula cobrou maturidade dos líderes mundiais: "A única coisa que espero é que os presidentes aqui reunidos tenham maturidade suficiente para compreender que cada dia que passa sem a solução da crise, mais gente vai sofrer (…) Todo mundo sabe o que tem que se fazer. É (preciso) apenas ter coragem para fazer o que precisamos fazer." Em seguida, Lula anunciou que o Brasil poderá dar dinheiro ao FMI para ajudar os países em desenvolvimento.
A reunião do G20, porém, pode não tomar os rumos que Lula pretende que tome. Há uma clara divisão entre os europeus liderados pela França e pela Alemanha, de um lado, e pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, de outro, sobre o que fazer e o como fazer.
O presidente francês Nicolas Sarkozy, tendo ao lado a chanceler alemã Angela Merkel, já começou a roubar a cena de Lula como o defensor dos emergentes e pobres. O marido de Carla Bruni advertiu Obama e Brown que "política não é somente fazer discursos bonitos". E se apresentou como porta-voz "das vítimas inocentes da crise, que a sofrem sem ter culpa de nada".
Essas divergências devem polarizar os debates, frustrando a expectativa dos brasileiros e de outros emergentes de saírem de Londres com pelo menos algumas decisões concretas e com o mea culpa dos ricos. Afirma-se que, de objetivo, haverá dinheiro grosso para financiar o comércio mundial. É muito, mas não é tudo. Contra o protecionismo, palavras. Sobre a regulamentação dos bancos e do sistema financeiro em geral, mais palavras ainda.
Lula pode voltar frustrado desse mundo de sonhos, mesmo com o troféu do brilho individual. E tendo de mergulhar, aqui, na dura realidade das contas públicas pintando de vermelho e a atividade industrial de cabeça para baixo. Depois da fantasia internacional, um choque de realidade nacional.
José Márcio Mendonça é jornalista e analista político.
Fonte: Diário do Comércio – www.dcomercio.com.br








