O transporte rodoviário 2026 inicia sob um cenário de desafios econômicos e regulatórios que impactam diretamente o desempenho do Transporte Rodoviário de Cargas (TRC). Apesar de indicadores macroeconômicos apontarem relativa estabilidade, com crescimento do PIB em torno de 1,8% e inflação estimada em 4,02%, fatores como o fim da desoneração da folha de pagamento, a transição para a reforma tributária e o aumento dos custos fiscais e operacionais ampliam a pressão sobre as transportadoras.
Segundo lideranças do setor, esse ambiente mais restritivo já se reflete no cotidiano das empresas. Para a presidente executiva do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo (SETCESP), Ana Jarrouge, os impactos mais imediatos estão relacionados à inadimplência registrada em 2025, especialmente nos atrasos no pagamento de fretes, o que compromete o fluxo de caixa logo no início do ano. Além disso, as adaptações aos novos modelos tributários agravam o cenário. “Além das obrigações fixas, como IPVA, o primeiro trimestre é historicamente marcado por uma demanda mais baixa. Somado a isso, tivemos um 2025 com inadimplência recorde, os custos gerados pela adaptação aos novos sistemas tributários e a nova etapa da reoneração da folha, que deve gerar impacto acumulado de até 3% nos custos, segundo o DECOPE da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística)”, afirma.

O ambiente regulatório, por sua vez, segue como um ponto de atenção. As multas aplicadas pela ANTT relacionadas ao piso mínimo do frete aumentaram, enquanto as incertezas sobre o seguro RC-V continuam afetando a operação, diante de dúvidas sobre critérios, fiscalização e oferta de apólices no mercado. Além disso, a PEC 22/2025, que trata da jornada e do descanso dos motoristas profissionais, deverá ocupar o centro dos debates em 2026, com entidades do setor buscando maior segurança jurídica.
“Será um ano que exigirá muito planejamento e conhecimento técnico. As empresas precisam acompanhar as atualizações legais, precificar com base em todos os impactos e promover uma recomposição tarifária que permita manter a saúde financeira e investir”, reforça Ana.
Na avaliação de Joyce Bessa, diretora de Estratégia e Gestão da TransJordano e vice-presidente extraordinária da pauta ESG da NTC&Logística, o transporte rodoviário 2026 demandará um novo nível de maturidade gerencial. “O fim da desoneração, a reforma tributária e a pressão por eficiência vão expor fragilidades operacionais. Empresas sem controle de custos, sem processos estruturados e sem dados confiáveis tendem a sofrer”, destaca. Nesse contexto, ela aponta a necessidade de iniciar desde já simulações tributárias, revisões contratuais, investimentos em tecnologia e capacitação de equipes.
Ainda assim, o setor identifica oportunidades relevantes. Programas como o Move Brasil, voltado à renovação de frota com linhas de crédito, e a ampliação do uso de telemetria, inteligência artificial e analytics podem contribuir para ganhos de eficiência operacional. Ao mesmo tempo, a transição energética, com maior uso de biometano e GNV, tende a avançar, desde que baseada em planejamento técnico adequado.
Outro ponto central será a valorização dos profissionais. Com a entrada em vigor da nova NR-1, em maio, que amplia a responsabilidade das empresas em relação à saúde mental e ao bem-estar, a gestão de pessoas ganhará maior relevância. “Ambientes hostis, insalubres e sem preparo das lideranças deixarão de ser tolerados. A cultura organizacional será decisiva para atrair e reter talentos”, pontua Ana.
Joyce acrescenta que investimentos em bem-estar, segurança, treinamento e estrutura deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos. “Crescer em 2026 exigirá coerência entre discurso e prática. Empresas que tratam segurança, governança, ESG e pessoas como parte do núcleo do negócio serão mais resilientes e atrativas no médio e longo prazo”, finaliza.









