
O ciclo do El Niño previsto para 2026-2027 promete colocar empresas brasileiras de diversos setores diante de severos riscos operacionais e financeiros. Considerado um dos eventos mais intensos das últimas décadas, o fenômeno climático tem potencial para gerar uma reação em cadeia que impacta desde a produção e o balanço financeiro até a folha de pagamento, o crédito, os seguros e o planejamento tributário.
Segundo Junior Rozante, CEO do Grupo RZ3, os impactos não se limitam a uma área técnica ou pontual, revelando-se como transformações transversais que exigem tratamento direto como risco de gestão.
Riscos que atravessam o balanço corporativo
Os desdobramentos da estiagem severa e das chuvas intensas provocam impactos diretos na gestão das empresas:
- Produção e estoques: Ocorrem perdas e atrasos na produção e danos aos ativos, gerando redução de estoques no varejo e exigindo provisões adicionais que afetam o balanço perante investidores e bancos.
- Gestão de pessoas: Paralisações e picos de demanda desorganizada de mão de obra elevam rescisões, contratações emergenciais e o uso de seguro-desemprego, refletindo em encargos e passivos trabalhistas.
- Crédito e finanças: Riscos de inadimplência e renegociações pressionam o capital de giro e as cláusulas contratuais de financiamento (covenants), forçando o adiamento de investimentos para priorizar a resiliência climática.
- Seguros: A alta sinistralidade pressiona os prêmios e expõe lacunas em apólices que nunca haviam enfrentado eventos de grande magnitude.
Setor em foco: Logística, transporte e infraestrutura
Embora afete a economia de forma ampla, o setor de logística e transportes figura entre os que mais exigem atenção.
- Rodovias e ferrovias: Chuvas intensas comprometem a malha viária e as operações portuárias.
- Hidrovias: Estiagens prolongadas reduzem drasticamente o nível de rios essenciais para o transporte de cargas, como o Rio Madeira e o Tietê-Paraná.
- Prejuízos operacionais: Os gargalos decorrentes dessas ocorrências geram multas contratuais por atrasos recorrentes e perdas em cargas sensíveis à deterioração.
Para mitigar os riscos, as empresas de logística tendem a acelerar aportes em rotas alternativas, descentralização de armazenagem e tecnologias de rastreamento climático em tempo real, o que pressiona o Capex de curto prazo em troca de maior proteção futura.
A urgência de antecipar preparativos ainda em 2026
Como o pico do fenômeno climático é projetado pelo Climate Prediction Center (CPC) para o final de 2026 e início de 2027 — justamente o período de fechamento de orçamentos e renovação de contratos —, a recomendação é estruturar planos de contingência de imediato.
As medidas preventivas devem englobar o mapeamento da exposição por unidade de negócio, a revisão de apólices de seguros, a simulação de estresse em covenants financeiros e a criação de comitês integrando as áreas fiscal, jurídica, financeira e de operações.








