A geopolítica passou a ocupar um papel central na formação do custo logístico no Brasil, alterando a dinâmica do transporte de cargas e impactando diretamente frete, seguro e previsibilidade operacional. Em um cenário de conflitos internacionais e instabilidade global, fatores externos deixaram de ser periféricos e passaram a influenciar de forma direta o desempenho logístico no país.
Segundo o advogado especialista em transporte e logística, Cristiano José Baratto, presidente do Instituto de Estudos de Transporte e Logística (IET), essa mudança exige uma nova leitura do setor. “Hoje, não é mais possível discutir custo logístico sem considerar o cenário global. A geopolítica deixou de ser um tema distante e passou a impactar diretamente o caixa das transportadoras”, afirma.
De acordo com dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o custo logístico brasileiro representa cerca de 13,3% do PIB, um patamar elevado que vem sendo ainda mais pressionado por variáveis externas. Entre os principais fatores está a volatilidade do petróleo. Conforme a Agência Internacional de Energia (IEA), oscilações recentes superaram 30% em determinados períodos, refletindo diretamente no preço do diesel — principal insumo do transporte rodoviário.

Impactos regionais do custo logístico no Brasil
Esse cenário se intensifica devido à forte dependência do modal rodoviário. No Brasil, cerca de 65% da movimentação de cargas ocorre por rodovias, o que amplia os efeitos das oscilações no combustível. Como resultado, o impacto é rapidamente transferido ao custo final dos produtos.
Além disso, os efeitos da geopolítica no custo logístico não são homogêneos. No Sudeste, responsável por aproximadamente 55% do PIB nacional, segundo o IBGE, a pressão é imediata. A região concentra os principais fluxos logísticos e abriga estruturas estratégicas, como o Porto de Santos, responsável por cerca de 30% da balança comercial brasileira.
Já no Sul, a forte presença agroindustrial e exportadora aumenta a exposição às variações globais. Cadeias ligadas a commodities são especialmente sensíveis a alterações no frete, no seguro e na disponibilidade logística internacional. “O transportador do Sul e do Sudeste sente primeiro. É onde o impacto global vira custo imediato, seja no diesel, no seguro ou na necessidade de renegociar contratos”, destaca Baratto.
Além do combustível, o custo do seguro de cargas também vem sendo pressionado. Relatórios do mercado segurador, como os da Swiss Re, indicam aumento na percepção de risco global, o que se traduz em prêmios mais elevados e condições mais restritivas. Paralelamente, disrupções nas cadeias globais, apontadas pelo Banco Mundial, seguem afetando prazos, rotas e custos operacionais.
Diante desse cenário, empresas do setor precisam adaptar sua gestão. A inclusão do risco geopolítico na operação logística se torna essencial, especialmente na revisão de contratos e no planejamento estratégico. “O risco geopolítico passou a fazer parte da operação logística. Sem contratos preparados para isso, o transportador acaba absorvendo custos que não estavam no planejamento”, afirma Baratto.
A tendência, segundo o especialista, é de manutenção de um ambiente global instável nos próximos meses, com reflexos contínuos sobre o custo logístico. Nesse contexto, empresas que investem em monitoramento de riscos, planejamento flexível e revisão contratual tendem a apresentar maior resiliência diante das oscilações.
Números que explicam o novo custo logístico
Os dados reforçam a dimensão estrutural do problema. O custo logístico representa 13,3% do PIB (CNT/IPEA), enquanto o transporte rodoviário responde por 65% das cargas (CNT), evidenciando a dependência do diesel. Esse combustível pode representar até 35% do custo operacional do setor, segundo a ANP.
Além disso, a concentração econômica no Sudeste (55% do PIB, IBGE) e a relevância do Porto de Santos (30% da balança comercial, ANTAQ) mostram como os impactos globais se disseminam rapidamente pela economia nacional. A recente oscilação superior a 30% no petróleo (IEA) reforça o quanto a geopolítica influencia diretamente o transporte de cargas no Brasil.








