A realização da Copa do Mundo de 2026 ocorre em um cenário de aumento das incertezas no comércio internacional e pode ampliar os desafios enfrentados por empresas que dependem de operações globais de transporte e abastecimento. Segundo especialistas do setor, a combinação entre maior demanda logística e um ambiente internacional mais complexo tende a pressionar custos, prazos e a disponibilidade de serviços em diversas regiões.
Relatórios da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) apontam que o crescimento do comércio global deve desacelerar neste ano em meio a tensões geopolíticas, novas barreiras comerciais e desafios logísticos que afetam cadeias de suprimentos em diferentes partes do mundo. Nesse contexto, grandes eventos internacionais tendem a aumentar a procura por transporte, armazenagem e infraestrutura, elevando a pressão sobre operações que já convivem com gargalos estruturais.
A avaliação é compartilhada por Ronaldo Felix, diretor de Operações da Saygo Group, holding brasileira especializada em comércio exterior, que reúne serviços de assessoria para importadores e exportadores, operações cambiais e desenvolvimento de tecnologias voltadas à otimização de processos internacionais.

Custos logísticos e comércio exterior exigem atenção redobrada
Para o executivo, a combinação entre um ambiente global mais instável e a movimentação econômica gerada pela Copa do Mundo exige planejamento antecipado por parte das empresas brasileiras.
“Muitas companhias ainda enxergam a logística apenas como uma etapa operacional. Mas, em momentos de maior pressão sobre as cadeias globais, ela se torna um fator estratégico que impacta diretamente custos, prazos e competitividade.”
Embora os impactos mais visíveis estejam associados ao setor esportivo, os reflexos da competição tendem a alcançar diversos segmentos da economia. A movimentação de equipamentos, estruturas temporárias, alimentos, tecnologia, materiais promocionais e milhares de fornecedores aumenta a demanda por serviços logísticos, especialmente em mercados estratégicos da América do Norte, sede do torneio.
Segundo Felix, empresas brasileiras que atuam com importação e exportação também podem sentir os efeitos dessa concentração de demanda. “Quando existe uma concentração muito grande de demanda em determinados corredores logísticos, a tendência é observar maior disputa por capacidade operacional. Isso pode afetar a disponibilidade de transporte, armazenagem e até cronogramas de embarque.”
O alerta ocorre justamente em um período em que a própria UNCTAD tem destacado o aumento da vulnerabilidade das cadeias globais diante de conflitos geopolíticos, interrupções em rotas comerciais e mudanças regulatórias que afetam o fluxo internacional de mercadorias.
A falta de planejamento, segundo o executivo, continua sendo um dos principais fatores de aumento de custos para as empresas. “O erro mais comum é agir apenas quando os problemas aparecem. Quem deixa para negociar fretes, revisar contratos ou avaliar alternativas logísticas em cima da hora normalmente encontra menos opções e custos maiores”, afirma.
Entre as medidas recomendadas estão a antecipação de compras estratégicas, a diversificação de fornecedores, a revisão de estoques críticos e a elaboração de planos de contingência para minimizar impactos decorrentes de atrasos operacionais.
Além disso, cresce a importância da utilização de ferramentas de monitoramento e análise de dados. Recursos de acompanhamento em tempo real e análises preditivas vêm ganhando espaço entre empresas que atuam no comércio exterior, permitindo identificar riscos e gargalos antes que eles afetem a operação.
Para Felix, a previsibilidade será um dos ativos mais importantes para os negócios nos próximos meses. “Empresas que conseguem antecipar movimentos do mercado e ajustar rapidamente suas operações têm mais condições de proteger margens, cumprir prazos e manter a confiança dos clientes.”
Segundo o executivo, a logística assumiu um papel cada vez mais estratégico dentro das organizações. “A Copa é apenas um dos fatores que aumentam a pressão sobre as cadeias globais. O que realmente diferencia as empresas é a capacidade de se preparar antes que os gargalos apareçam. Quem espera a crise chegar normalmente paga mais caro por ela”, conclui.










