O Portal Logweb publica mais um artigo de seu colunista Agapito Sobrinho, que analisa como a integração regional, a digitalização e as mudanças nas cadeias globais de suprimentos estão redesenhando o transporte internacional de cargas na América do Sul, ao mesmo tempo em que expõem desafios ligados à infraestrutura, tecnologia e harmonização regulatória.
O transporte internacional de cargas rodoviárias na América do Sul atravessa uma fase de expansão contínua e profunda reconfiguração estrutural. Nos últimos anos, o continente passou a ocupar posição mais relevante nas cadeias globais de suprimentos, impulsionado por maior integração regional, crescimento das exportações e adoção gradual de tecnologias que aumentam eficiência e previsibilidade. Esse movimento é sustentado por números robustos.
O mercado transfronteiriço de cargas rodoviárias na América do Sul, de acordo com a Mordor Intelligence, movimentou cerca de US$ 37,6 bilhões em 2025 e deve alcançar aproximadamente US$ 50 bilhões em 2031, impulsionado por um crescimento médio anual perto de 5%. A Mordor Intelligence também mostra que a percepção de importância da logística na América do Sul é elevada: mais de 90% das empresas da região a consideram um fator crítico para competitividade, especialmente em setores como agronegócio, manufatura e varejo.
No entanto, o mesmo relatório indica que apenas cerca de 50% das empresas tratam operadores logísticos como parceiros estratégicos, enquanto o restante ainda enxerga o setor predominantemente como um centro de custos. Essa assimetria limita a adoção de soluções avançadas, reduz ganhos de eficiência e atrasa a incorporação de tecnologias que já são padrão em mercados mais maduros.

A Mordor Intelligence também mostra que a adoção de tecnologias avançadas na logística sul‑americana ainda é limitada. Embora cerca de 60% das empresas já utilizem sistemas de otimização de rotas e plataformas em nuvem, apenas entre 15% e 25% fazem uso consistente de análise avançada de dados para planejamento logístico.
A inteligência artificial aplicada ao planejamento logístico e à simulação de cenários permanece em estágio inicial, com adoção inferior a 20% em grande parte dos países da região. Esse nível de maturidade tecnológica contrasta com mercados mais desenvolvidos, onde a utilização de IA integrada à cadeia de suprimentos já supera 40%, segundo comparativos internacionais incluídos no relatório.
A evolução tecnológica é decisiva para o transporte internacional. A operação transfronteiriça exige rastreabilidade contínua, integração de sistemas entre países, monitoramento de fronteiras e capacidade de prever atrasos e gargalos. Plataformas de controle logístico, roteirização dinâmica e análise preditiva precisam ganhar mais espaço, permitindo decisões baseadas em dados e maior eficiência operacional.
A incorporação gradual de tecnologias mais avançadas está abrindo espaço para uma reorganização estrutural da logística na região. À medida que sistemas de rastreamento, análise preditiva e plataformas integradas se tornam mais comuns, a América do Sul passa a operar com maior coordenação entre países e centros de distribuição.
Em 2026, esse movimento já é perceptível: hubs regionais ganham relevância, processos começam a ser padronizados e a conectividade entre fronteiras melhora, aproximando o continente de modelos adotados em mercados mais maduros e elevando a eficiência das operações transfronteiriças.
O crescimento do e-commerce também desempenha papel relevante. A expansão das vendas digitais elevou a demanda por cargas fracionadas, entregas rápidas e rotas internacionais mais eficientes. O e-commerce é hoje um dos principais motores de modernização logística no Mercosul, pressionando operadores a investir em tecnologia embarcada, integração de dados e soluções de última milha.
A sustentabilidade emerge como outro eixo de transformação. A adoção de práticas ambientais ainda é baixa na América Latina, com apenas um terço das empresas implementando ações estruturadas de redução de emissões. No entanto, a pressão global por logística verde cresce rapidamente.
Caminhões elétricos pesados já estão disponíveis no mercado regional, e iniciativas de eletrificação de frota, compensação ambiental e medição de pegada de carbono começam a ganhar escala. A tendência é que, até 2030, operadores que adotarem práticas sustentáveis de forma antecipada tenham acesso a mercados mais exigentes e a financiamentos verdes, criando vantagem competitiva.
Apesar dos avanços, os desafios estruturais permanecem significativos. A infraestrutura rodoviária da América do Sul é marcada por desigualdades, com trechos críticos que elevam custos e reduzem previsibilidade. A integração intermodal ainda é limitada, e os processos aduaneiros continuam lentos e pouco padronizados.
A falta de harmonização regulatória entre países do Mercosul representa um dos principais entraves para a competitividade do transporte internacional. A escassez de motoristas, agravada por mudanças no perfil da mão de obra, também exige investimentos contínuos em qualificação, rastreabilidade e gestão de terceiros.
Ao mesmo tempo, a reconfiguração das cadeias globais abre oportunidades inéditas para a América do Sul. A tendência de nearshoring e friendshoring, impulsionada por tensões geopolíticas e pela busca por resiliência, coloca o continente como alternativa relevante para produção e distribuição.
Para aproveitar esse movimento, será necessário elevar a eficiência logística, harmonizar regulações, investir em infraestrutura e acelerar a digitalização. A criação de corredores bioceânicos, a modernização das fronteiras e a conexão mais eficaz entre rodovias, ferrovias e portos são elementos centrais para esse avanço.
O transporte internacional de cargas rodoviárias na América do Sul está entrando em uma fase decisiva. O continente se move em direção a uma logística mais inteligente, conectada e sustentável, impulsionada por tecnologia, integração e novas demandas globais. O futuro do setor dependerá da capacidade de transformar desafios históricos em vantagens competitivas, construindo uma infraestrutura capaz de sustentar todo o potencial de crescimento e fortalecer o papel da região nas cadeias globais de valor.







