Produtividade operacional no Brasil: desafios, determinantes e caminhos para o aumento da eficiência

Neste artigo, Ozoni Argenton, colunista do Portal Logweb, analisa os principais desafios que impactam a produtividade operacional no Brasil e apresenta caminhos para ampliar a eficiência, a competitividade e o aproveitamento de recursos nas empresas.

1. Introdução

A produtividade operacional é um dos principais fatores que determinam a capacidade de uma empresa, setor ou economia de produzir mais e melhor utilizando os recursos disponíveis. No contexto brasileiro, o tema assume importância estratégica diante dos desafios relacionados à competitividade, aos custos de produção, à qualificação da mão de obra, à infraestrutura e à necessidade de incorporar novas tecnologias aos processos produtivos.

De forma geral, produtividade pode ser entendida como a relação entre os resultados obtidos e os recursos empregados para alcançá-los. No ambiente empresarial, a produtividade operacional está diretamente associada à capacidade de transformar mão de obra, capital, tecnologia, materiais, energia e informações em produtos e serviços de maneira eficiente.

No Brasil, o assunto produtividade não é recente. Estudos realizados pelos Órgãos de Pesquisa Econômica e Operacional mostram que o país enfrenta, há décadas, dificuldades para elevar sua produtividade média e aproximá-la dos níveis observados nas economias mais desenvolvidas.

2. O cenário brasileiro

O Brasil apresenta uma estrutura produtiva bastante heterogênea. Existem empresas altamente eficientes, digitalizadas e integradas às cadeias globais de produção, ao lado de organizações que ainda trabalham com processos manuais, baixa automação, pouca utilização de dados e deficiências de gestão.

Essa heterogeneidade ajuda a explicar parte das dificuldades brasileiras para elevar a produtividade média.

O problema é particularmente relevante para as pequenas empresas. Estudos demonstram o baixo crescimento da produtividade média como uma questão estrutural da economia brasileira e destaca os desafios específicos enfrentados pelas empresas de pequeno porte.

Ao mesmo tempo, existem setores que apresentam ganhos expressivos. Segundo pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Observatório da Produtividade (FGV IBRE), nos últimos 05 anos (2020/2025) verificaram-se:

  • Ganhos do Setor Agropecuário (Comparativo) +13,2% ao ano (maior propulsor da produtividade nacional)
  • Aumento da Produtividade Total do Trabalho (Geral no Brasil) +0,4% (sustentado quase exclusivamente pelo agro).

Esse resultado demonstra que o Brasil possui capacidade de desenvolver modelos produtivos altamente eficientes quando combina tecnologia, conhecimento, escala, investimento e gestão.

3. O significado da produtividade operacional

A produtividade operacional não deve ser confundida simplesmente com a quantidade produzida por trabalhador. Ela envolve um conjunto amplo de indicadores capazes de demonstrar como uma organização utiliza seus recursos.

Entre os principais indicadores estão:

  • Produtividade da mão de obra;
  • Produção por hora trabalhada;
  • Utilização da capacidade instalada;
  • Tempo de ciclo dos processos;
  • Nível de perdas e desperdícios;
  • Custos operacionais por unidade produzida;
  • Indice de retrabalho;
  • Qualidade dos produtos e serviços;
  • Disponibilidade e utilização dos equipamentos;
  • Prazo de atendimento ao cliente;
  • Produtividade dos ativos e do capital.

Na perspectiva macroeconômica, a produtividade do trabalho é tradicionalmente calculada pela relação entre o valor adicionado gerado e o número de postos de trabalho ou horas efetivamente trabalhadas.

Outro ponto importante a ser destacado é a importância da produtividade total dos fatores, que procura capturar a parcela do crescimento do produto que não é explicada apenas pelo aumento da utilização de trabalho e capital.

Assim, elevar a produtividade não significa simplesmente exigir que os trabalhadores produzam mais. Significa melhorar o sistema produtivo como um todo.

4. Principais obstáculos à produtividade

4.1 Qualificação profissional

A qualidade da mão de obra é um dos elementos centrais da produtividade. Trabalhadores adequadamente capacitados conseguem operar equipamentos, interpretar informações, solucionar problemas e utilizar tecnologias de maneira mais eficiente.

No entanto, a transformação digital e a modernização dos processos produtivos exigem competências cada vez mais sofisticadas. A formação profissional precisa acompanhar essa mudança.

Além da formação técnica, competências como análise de dados, resolução de problemas, gestão de processos, comunicação e capacidade de adaptação tornam-se cada vez mais importantes.

4.2 Tecnologia e digitalização

A tecnologia pode reduzir custos, eliminar atividades repetitivas, melhorar a qualidade e permitir decisões baseadas em dados.

Soluções como automação, inteligência artificial (A.I.), internet das coisas (IoT), sistemas integrados de gestão, análise de dados e computação em nuvem podem aumentar significativamente a eficiência operacional.

Entretanto, a simples aquisição de tecnologia não garante produtividade. É necessário redesenhar processos, capacitar pessoas e estabelecer indicadores capazes de medir os resultados obtidos.

4.3 Infraestrutura e logística

A produtividade de uma empresa também depende do ambiente em que ela opera.

Problemas relacionados a transporte, armazenagem, energia, conectividade e infraestrutura podem aumentar o tempo e o custo necessários para produzir e distribuir mercadorias.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a eficiência logística possui impacto particularmente relevante sobre a competitividade das empresas.

4.4 Ambiente regulatório e burocracia

Processos administrativos complexos também consomem recursos que poderiam ser destinados à atividade produtiva.

Quanto maior o tempo gasto para cumprir obrigações, obter autorizações, registrar informações ou lidar com procedimentos burocráticos, maior tende a ser o custo operacional.

A simplificação e a digitalização dos processos públicos e empresariais podem contribuir para liberar recursos e aumentar a eficiência.

4.5 Baixo investimento

A produtividade depende, em grande medida, da capacidade de investir em máquinas, equipamentos, infraestrutura, pesquisa, desenvolvimento e qualificação.

Dados recentes mostram que, apesar de a formação bruta de capital fixo ter avançado no segundo trimestre de 2026, a taxa de investimento brasileira permaneceu em 16,1% do PIB. No mesmo período, o PIB cresceu 0,5% na comparação com o trimestre anterior, enquanto indústria e serviços apresentaram expansão bastante limitada.

Esse cenário evidencia a necessidade de investimentos capazes de ampliar não apenas a capacidade produtiva, mas também a eficiência dessa capacidade.

5. Produtividade e competitividade empresarial

A produtividade operacional está diretamente relacionada à competitividade.

Uma empresa produtiva consegue, em princípio, produzir com menor custo, entregar com maior rapidez, utilizar melhor seus ativos e oferecer maior qualidade. Isso permite competir tanto no mercado doméstico quanto internacional.

O conceito também está relacionado à sustentabilidade financeira. Reduzir desperdícios de matéria-prima, energia, tempo e mão de obra significa diminuir custos sem necessariamente reduzir a qualidade.

Na indústria, por exemplo, o IBGE utiliza informações sobre produção, custos, pessoal ocupado, formação de capital e outras variáveis para permitir análises de produtividade do trabalho e intensidade de capital.

A produtividade, portanto, deve ser tratada como um indicador estratégico e não apenas como uma métrica operacional.

6. O papel da gestão

Uma das formas mais acessíveis de aumentar a produtividade é melhorar a gestão dos processos.

Empresas que conhecem detalhadamente seus fluxos de trabalho conseguem identificar gargalos, atividades que não agregam valor, retrabalhos e desperdícios.

Metodologias como Lean Manufacturing, Gestão da Qualidade, Seis Sigma, Manutenção Produtiva e Gestão por Indicadores podem contribuir para esse processo.

Um programa estruturado de produtividade pode seguir cinco etapas:

Diagnóstico – identificar os principais problemas e desperdícios.

Medição – estabelecer indicadores objetivos de desempenho.

Priorização – selecionar os processos com maior potencial de ganho.

Implementação – executar mudanças organizacionais, tecnológicas ou operacionais.

Monitoramento – acompanhar os resultados e promover melhoria contínua.

O ponto fundamental é estabelecer uma relação clara entre as ações implementadas e os resultados alcançados.

7. A importância das pequenas e médias empresas

As micro, pequenas e médias empresas possuem papel fundamental na economia brasileira, mas frequentemente enfrentam maiores dificuldades para investir em tecnologia, treinamento e modernização.

Isso cria um círculo que pode limitar sua produtividade: menor produtividade reduz a capacidade de geração de caixa; menor geração de caixa limita investimentos; e investimentos insuficientes dificultam novos ganhos de produtividade.

Por essa razão, políticas de crédito, capacitação, inovação e acesso à tecnologia podem ter papel importante na transformação da estrutura produtiva.

8. Oportunidades trazidas pela Inteligência Artificial

A inteligência artificial representa uma nova fronteira para a produtividade operacional.

Sua aplicação pode ocorrer em áreas como:

  • Previsão de demanda;
  • Planejamento da produção;
  • Manutenção preditiva;
  • Controle de estoques;
  • Atendimento ao cliente;
  • Análise financeira;
  • Identificação de falhas;
  • Otimização logística;
  • Automação de tarefas administrativas;
  • Apoio à tomada de decisões.

Entretanto, o impacto da IA dependerá da qualidade dos dados, da infraestrutura tecnológica e da capacidade das organizações de redesenhar seus processos.

A tecnologia deve ser vista como instrumento para solucionar problemas concretos, e não como objetivo isolado.

9. Produtividade, emprego e renda

Um dos principais equívocos no debate sobre produtividade é considerar que aumentar a produtividade necessariamente significa reduzir empregos.

No longo prazo, o aumento da produtividade pode permitir que uma economia produza mais bens e serviços, aumente sua competitividade e gere condições para crescimento dos salários e da renda.

O próprio debate do Ipea sobre produtividade ressalta sua relação com o crescimento econômico e com a evolução da renda por habitante.

O desafio está em garantir que os ganhos de produtividade sejam acompanhados por qualificação profissional e pela criação de novas oportunidades econômicas.

10. Caminhos para elevar a produtividade no Brasil

O aumento sustentável da produtividade brasileira exige uma estratégia que combine ações empresariais e políticas públicas.

Entre as principais prioridades estão:

  • ampliar a qualidade da educação básica e profissional;
  • estimular a formação tecnológica;
  • facilitar o acesso das empresas à inovação;
  • aumentar os investimentos em infraestrutura;
  • melhorar a logística;
  • ampliar a digitalização das empresas;
  • estimular pesquisa e desenvolvimento;
  • reduzir burocracias;
  • facilitar o acesso ao crédito produtivo;
  • fortalecer pequenas e médias empresas;
  • estimular a concorrência e a inovação;
  • melhorar a gestão empresarial;
  • promover maior integração às cadeias produtivas globais.

Também é importante considerar as diferenças entre os setores. A produtividade da agricultura, da indústria, do comércio e dos serviços possui determinantes distintos e, portanto, exige políticas e estratégias específicas.

Conclusão

A produtividade operacional constitui um dos principais desafios estruturais para o desenvolvimento econômico brasileiro. O país possui empresas e setores altamente competitivos, mas ainda convive com grande heterogeneidade produtiva e com obstáculos relacionados à qualificação, tecnologia, infraestrutura, investimento e gestão.

Os dados recentes mostram que o crescimento econômico brasileiro continua apresentando diferenças importantes entre os setores. No segundo trimestre de 2026, por exemplo, a agropecuária cresceu 2,8%, enquanto indústria e serviços avançaram apenas 0,1% e 0,2%, respectivamente.

O desafio, portanto, não é simplesmente aumentar a quantidade de trabalho ou ampliar a produção. É criar condições para produzir mais valor com os mesmos recursos, utilizando melhor pessoas, máquinas, tecnologia, capital, energia e conhecimento.

Nesse sentido, a produtividade deve ser compreendida como uma agenda permanente de desenvolvimento. Para as empresas, significa melhorar processos, reduzir desperdícios, investir em pessoas e tecnologia e tomar decisões baseadas em dados. Para o país, significa criar um ambiente capaz de transformar inovação, investimento e qualificação em crescimento sustentável da produção e da renda.

O futuro da competitividade brasileira dependerá, em grande medida, da capacidade de transformar eficiência operacional em ganhos permanentes de produtividade. Mais do que uma questão empresarial, essa é uma condição fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

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Ozoni Argenton

Ozoni Argenton

CEO na OAJ Consult – Consultoria & Assessoria Empresarial. Executivo com sólida experiencia e atuação no segmento de Logística Empresarial e Logística Integrada, com Especialização em Logística Frigorificada – Cadeia do Frio. Como Executivo C-Level, atuou em empresas como: SPA – Santos Port Authority(CODESP), McLane do Brasil AS, Protege AS – Transportes & Segurança de Valores, Comfrio Soluções Logísticas AS, Martin Brower do Brasil SA, Philip Morris do Brasil AS, Danone Group AS. Membro do Conselho Executivo da ABRALOG – Associação Brasileira de Logística.

e-mail:oaj.consult@hotmail.com | Linkedin: linkedin.com/in/ozoni-argenton-junior-29ab8420

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