Piso Mínimo de Fretes: da regulação econômica à transformação da gestão no transporte rodoviário brasileiro

Representantes da LAP Brasil, como colunista do Portal Logweb, analisam neste artigo como o Piso Mínimo de Fretes evoluiu de uma política de regulação econômica para um tema estratégico de gestão, destacando o papel da tecnologia, da governança e dos indicadores de desempenho na construção de operações mais eficientes, sustentáveis e competitivas no transporte rodoviário brasileiro. O conteúdo também discute os impactos da nova fase regulatória sobre embarcadores, transportadores e operadores logísticos.

Entre fiscalização, eficiência operacional e tecnologia, o futuro do transporte rodoviário depende de uma nova mentalidade de gestão.

O transporte rodoviário de cargas é a espinha dorsal da logística brasileira. Responsável pela movimentação da maior parte das mercadorias no país, o modal conecta cadeias produtivas estratégicas como agronegócio, bens de consumo, alimentos, indústria química, varejo, e-commerce, mineração, construção e manufatura.

Em operações de alta escala, onde milhares de veículos movimentam milhões de toneladas diariamente, a discussão sobre o Piso Mínimo de Fretes não pode ser limitada apenas ao valor contratado pelo transporte.

O tema envolve uma reflexão mais profunda sobre a sustentabilidade econômica do setor, a profissionalização das relações comerciais e a necessidade de evolução da gestão em todo o ecossistema logístico.

A grande questão para o mercado deixou de ser apenas: Qual é o valor mínimo a ser pago pelo transporte?

A pergunta estratégica passou a ser: Como construir um modelo de transporte eficiente, sustentável e competitivo, capaz de gerar valor para embarcadores, transportadores e toda a cadeia produtiva?

A resposta está em uma mudança de mentalidade: sair de uma lógica baseada exclusivamente em negociação de preço e avançar para uma gestão orientada por dados, produtividade, tecnologia, processos estruturados e indicadores de performance.

Do Piso Mínimo à fiscalização: a evolução de uma política que busca equilíbrio no mercado

A discussão sobre o Piso Mínimo de Fretes ganhou força em 2018, após a paralisação dos caminhoneiros, que evidenciou um dos principais desafios históricos do transporte rodoviário brasileiro: a contratação de fretes abaixo dos custos necessários para manter uma operação sustentável.

Naquele momento, foi criada a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC), estabelecida pela Lei 13.703/2018, com o objetivo de criar uma referência mínima de remuneração para o transporte rodoviário de cargas.

A política buscou endereçar uma realidade conhecida pelo setor: a estrutura de custos do transporte é complexa e envolve variáveis como:

– Combustível;

– Pneus;

– Manutenção;

– Depreciação dos veículos;

– Seguros;

– Impostos;

– Mão de obra;

– Financiamento;

– Custos administrativos.

Quando esses fatores não são adequadamente considerados, os impactos atingem todo o ecossistema:

– Transportadores perdem capacidade de investimento;

– A frota envelhece;

– A segurança operacional pode ser comprometida;

– A rentabilidade dos profissionais é pressionada;

– O mercado entra em ciclos de redução de preço sem necessariamente gerar produtividade.

Ao longo dos anos, a tabela de Piso Mínimo de Fretes passou por atualizações metodológicas conduzidas pela ANTT, considerando variáveis como distância, tipo de operação, características do veículo, carga transportada e impactos dos custos operacionais.

Mais recentemente, o debate entrou em uma nova fase.

A discussão deixou de ser apenas sobre a definição do valor mínimo e passou a envolver a efetividade do cumprimento da política.

A nova Medida Provisória publicada em 2026 trouxe mecanismos relacionados à fiscalização e sanções para situações de descumprimento do Piso Mínimo de Fretes, reforçando que a regulamentação precisa ser acompanhada de instrumentos que garantam sua aplicação prática no mercado.

Esse novo cenário amplia a responsabilidade de todos os agentes da cadeia logística.

Embarcadores, transportadores, operadores logísticos e intermediários precisam fortalecer seus processos de governança, controles internos e conformidade regulatória.

Entretanto, a sustentabilidade do transporte não será construída apenas pela fiscalização.

Ela dependerá também da capacidade do mercado de evoluir sua gestão.

Piso Mínimo de Fretes: solução ou distorção?

O tema foi debatido no episódio “Piso Mínimo de Fretes em Debate: Solução ou Distorção?”, do LAP Cast, podcast da comunidade LAP Brasil – Logísticos de Alta Performance, com participação dos especialistas João Rigueiral, Michel Roulet e Adriana Bueno, sob mediação de Cinthya Levy.

O debate trouxe diferentes perspectivas sobre os impactos práticos da política e uma reflexão central: Como equilibrar proteção econômica, livre negociação e eficiência operacional?

Entre os pontos discutidos está o papel da regulação nas relações entre embarcadores e transportadores.

Para alguns agentes do mercado, o Piso Mínimo representa uma ferramenta importante para evitar práticas de contratação abaixo da realidade econômica da operação.

Para outros, existe o alerta de que uma referência uniforme pode não capturar todas as particularidades das operações, considerando diferenças regionais, tipos de carga, modelos logísticos e níveis de produtividade.

Um dos pontos relevantes está relacionado aos caminhões de menor porte e ao frete de retorno, fatores que influenciam diretamente a rentabilidade dos transportadores e a utilização dos ativos.

Outro aspecto debatido foi o impacto nas decisões estratégicas das empresas, incluindo movimentos de primarização logística, quando embarcadores avaliam internalizar frota própria como alternativa para ampliar controle operacional.

A discussão reforça uma conclusão importante: Regulação pode estabelecer parâmetros, mas eficiência será construída por gestão.

O impacto do frete nas cadeias de alta escala

Agronegócio: eficiência em grandes volumes e longas distâncias

No agronegócio, o transporte representa uma variável crítica de competitividade.

O deslocamento de commodities como soja, milho, açúcar, fertilizantes e insumos agrícolas envolve grandes volumes, longas distâncias e forte influência de fatores externos.

Nesse ambiente, ganhos de produtividade geram impactos financeiros expressivos.

Melhor ocupação dos veículos, redução de quilômetros improdutivos, planejamento de rotas e maior previsibilidade operacional podem representar milhões de reais em ganhos ao longo de uma safra.

O desafio não é apenas reduzir o frete.

É reduzir desperdícios.

Bens de consumo: logística conectada ao consumidor

Na indústria de bens de consumo, que movimenta alimentos, bebidas, higiene, limpeza e produtos de alto giro, transporte eficiente significa disponibilidade no mercado.

Uma operação inadequada pode gerar:

– Ruptura de estoque;

– Perda de vendas;

– Aumento de custos;

– Baixa experiência do consumidor.

Nesse cenário, o menor frete nem sempre representa o menor custo total da cadeia.

Indústria química: equilíbrio entre custo, segurança e conformidade

Na indústria química, o transporte exige alto nível de controle operacional.

Além da eficiência econômica, é necessário garantir:

– Segurança;

– Rastreabilidade;

– Transportadores qualificados;

– Gestão de risco;

– Atendimento regulatório.

Eficiência significa transportar com segurança, previsibilidade e excelência.

Varejo e e-commerce: velocidade e inteligência operacional

A transformação do consumo aumentou a complexidade logística.

A expansão do e-commerce e da omnicanalidade exige operações com maior visibilidade, velocidade e capacidade de adaptação.

Nesse ambiente, a tecnologia tornou-se um diferencial competitivo.

Tecnologia: o novo acelerador da eficiência logística

O futuro do transporte rodoviário passa pela digitalização.

Soluções como TMS, roteirizadores, torres de controle, telemetria, inteligência artificial, plataformas de gestão de fretes e analytics permitem transformar dados em decisões estratégicas.

Entre os principais ganhos estão:

– Redução de quilômetros improdutivos;

– Melhor utilização dos veículos;

– Gestão de performance dos transportadores;

– Controle de custos por rota;

– Maior previsibilidade operacional;

– Decisões baseadas em fatos.

A tecnologia não substitui a gestão.

Ela potencializa organizações que possuem processos maduros e profissionais preparados.

Processos e indicadores: a disciplina da alta performance

Operações eficientes precisam abandonar decisões baseadas apenas em negociação e adotar uma gestão estruturada por indicadores.

Entre os principais KPIs estão:

– Custo por tonelada transportada;

– Custo por quilômetro rodado;

– Ocupação dos veículos;

– OTIF (entrega no prazo e completa);

– Tempo de ciclo;

– Produtividade da frota;

– Consumo de combustível;

– Índice de avarias;

– Performance dos parceiros logísticos;

– Emissões de carbono.

Indicadores não existem apenas para medir o passado.

Eles direcionam decisões futuras.

Empresas maduras utilizam dados para prever riscos, corrigir desvios e construir operações mais previsíveis.

Uma nova relação entre embarcadores e transportadores

O futuro do transporte exige uma relação mais colaborativa entre os elos da cadeia.

Embarcadores precisam:

– Melhorar planejamento;

– Reduzir tempos improdutivos;

– Compartilhar previsibilidade;

– Construir relações sustentáveis.

Transportadores precisam:

– Conhecer seus custos;

– Profissionalizar sua gestão;

– Investir em tecnologia;

– Medir produtividade.

Operadores logísticos precisam integrar pessoas, processos e tecnologia para entregar escala e eficiência.

A alta performance nasce da colaboração.

O futuro do transporte será definido pela gestão

O Piso Mínimo de Fretes representa uma etapa importante da evolução do transporte rodoviário brasileiro.

Desde sua criação em 2018 até a nova fase regulatória, marcada pelo fortalecimento da fiscalização e das sanções pelo descumprimento da política, o setor vive uma transformação: Sair de uma discussão exclusivamente sobre remuneração e avançar para uma agenda de conformidade, eficiência e gestão de performance.

A regulação estabelece parâmetros.

A tecnologia gera visibilidade.

Os processos trazem disciplina.

Os indicadores direcionam decisões.

E a gestão transforma tudo isso em resultado.

O transporte brasileiro continuará sendo estratégico para o crescimento econômico, mas as empresas vencedoras serão aquelas que compreenderem que logística não é apenas movimentação de cargas.

Transporte é estratégia.
Logística é vantagem competitiva.
Eficiência é o caminho para a sustentabilidade do ecossistema.

Compartilhe:
LAP

LAP Brasil

É uma comunidade dedicada a conectar profissionais, empresas e especialistas que acreditam na logística como um diferencial estratégico para os negócios. Seu propósito é acelerar a evolução da logística brasileira por meio do compartilhamento de conhecimento, reconhecimento de cases de alta performance e disseminação de boas práticas capazes de gerar resultados concretos.

Atua promovendo benchmarking, estudos e conteúdos técnicos que fortalecem a colaboração entre os diferentes elos da cadeia de suprimentos. Como parte dessa missão, produz o LAP Cast, podcast que reúne executivos e especialistas para compartilhar os bastidores de projetos, desafios de implementação, decisões estratégicas e aprendizados obtidos em operações reais.

A LAP Brasil acredita que a transformação da logística acontece quando conhecimento, experiência e colaboração caminham juntos. Por isso, trabalha para fortalecer uma comunidade que inspira inovação, desenvolve pessoas e contribui para elevar o nível de competitividade da logística no Brasil.

www.lapbrasil.log.br

In: /lapbrasil

Insta: @lapbrasil

Fechamento histórico do Paso Los Libertadores amplia impactos ao transporte internacional e preocupa empresas brasileiras
Fechamento histórico do Paso Los Libertadores amplia impactos ao transporte internacional e preocupa empresas brasileiras
Grupo Rodonaves inicia operação de frota movida a gás e reforça estratégia de transição energética
Grupo Rodonaves inicia operação de frota movida a gás e reforça estratégia de transição energética
Gobrax anuncia a contratação de Gabriel Pannebecker Fernandes como novo diretor comercial
Gobrax anuncia a contratação de Gabriel Pannebecker Fernandes como novo diretor comercial
Estudo do BCG mostra que planejamento da cadeia de suprimentos supera IA isolada em ganhos de eficiência
Estudo do BCG mostra que planejamento da cadeia de suprimentos supera IA isolada em ganhos de eficiência
Terminal portuário no Porto de Santos da Eldorado Brasil supera 2,3 milhões de toneladas embarcadas de celulose
Terminal da Eldorado Brasil no Porto de Santos supera 2,3 milhões de toneladas de celulose embarcadas
Master Cargas Brasil inaugura maior câmara fria do Paraná e amplia capacidade de armazenagem refrigerada no Sul
Master Cargas Brasil inaugura maior câmara fria do Paraná e amplia capacidade de armazenagem refrigerada no Sul

As mais lidas

01

Navepark reforça infraestrutura logística em Navegantes, SC, e acompanha crescimento do polo portuário
Navepark reforça infraestrutura logística em Navegantes, SC, e acompanha crescimento do polo portuário

02

CEOs e C-Levels serão homenageados, durante a INTRA-LOG, por projetos que transformam a intralogística no Brasil
CEOs e C-Levels serão homenageados, durante a INTRA-LOG, por projetos que transformam a intralogística no Brasil

03

Multimodal Nordeste 2026 começa hoje e reúne soluções para fortalecer a logística e o transporte de cargas
Multimodal Nordeste 2026 começa hoje e reúne soluções para fortalecer a logística e o transporte de cargas