Neste artigo, a logística como valor estratégico é destacada por Paulo Roberto Guedes – colunista do Portal Logweb – como elemento essencial para a competitividade e o desenvolvimento econômico, exigindo integração, inovação e maior protagonismo nas decisões empresariais e institucionais.
Reiteradamente tenho salientado que a logística deve, e precisa, ser vista como um bem de extremo valor estratégico, tanto para as empresas como para os países, pois propicia, ao mesmo tempo, crescimento e desenvolvimento econômico e, consequentemente, progresso para toda a sociedade.
Compreender a logística apenas como instrumento para que se alcance a eficácia das operações e das atividades de movimentação de pessoas e mercadorias é uma simplificação que não reflete, de forma correta e justa, os benefícios que ela pode gerar para todo o mundo, sempre e quando bem praticada. É essencial que se reconheça, de fato, a importância estratégica que a logística tem neste mundo atual. Aliás, essa constatação, que tenho chamado de “importância estratégica da logística” ou “cultura logística” (1), foi o título de um artigo publicado por mim há quase 15 anos (Revista Mundo Logística nº 30, set/out/2012).

Mais recentemente, aqui mesmo no site da Logweb (10.12.25) escrevi sobre “a importância estratégica da logística para o desenvolvimento econômico”.
Ressalte-se, também, que esse foi um dos motivos pelos quais, há cerca de 13 anos, foi fundada, por empresários do setor, a Associação Brasileira de Operadores Logísticos, a ABOL. Buscava-se, então, fazer com que os operadores logísticos fossem reconhecidos como tais, e não somente como empresas que realizavam partes das operações logísticas existentes (transporte, armazenagem, despachos aduaneiros etc.), uma vez que o operador logístico, concebe, desenvolve, integra e operacionaliza todas as atividades logísticas necessárias para a movimentação de mercadorias e pessoas. Por conta própria ou subcontratando terceiros. E sempre sob sua inteira responsabilidade.
Claro que uma das primeiras providências da ABOL foi definir e conceituar, com objetivos claros (2), o “operador logístico”, de tal forma que se caracterizasse, de fato, as empresas que realizavam essas atividades. Segundo a ABOL, “Operador Logístico (OL) é a pessoa jurídica capacitada a prestar, através de um ou mais contratos, por meios próprios e/ou por intermédio de terceiros, os serviços de transporte (em qualquer modal), armazenagem (em qualquer condição física ou regime fiscal) e gestão de estoques (utilizando sistemas e tecnologia adequada).”
Aqui mesmo no site da Logweb, em maio do ano passado, escrevi o artigo “Logística como valor” (3), para ressaltar, mais uma vez, que em face de uma população mundial próxima das 8 bilhões de pessoas, e ainda em crescimento, exigir-se-á que se produza e se movimente, no menor espaço de tempo possível e a custos menores, quantidades cada vez maiores de bens e serviços econômicos. Seja para melhorar a vida daqueles que todos aqui já se encontram, assim como para aqueles que vêm chegando (4).
Não há qualquer dúvida que é fundamental a expansão, o aprimoramento e a melhoria da infraestrutura operacional, dos sistemas de comunicação e de transferência de informações, dos ‘softwares’ de controle e administração, dos equipamentos de movimentação e transporte, das estruturas de armazenamento, dos programas de gerenciamento de riscos, do monitoramento e da cobertura de seguro e das legislações pertinentes.
Essencial, indiscutivelmente, a capacitação dos profissionais da área, ficando claro que a busca desses objetivos, que inclui a necessidade de alcançar, permanentemente, melhorias contínuas, notadamente quando consideramos o desenvolvimento da automação e da tecnologia, serão exigidos programas de aperfeiçoamento, aprendizado e capacitação constantes de todos os profissionais do setor, que os transformará, inevitavelmente, em ativo empresarial e diferencial competitivo (5).
Mas é importante observar, também, que a logística, realizada de forma ‘sustentável’, é essencial para que empresas e países obtenham vantagens competitivas e diferenciais mercadológicos. Não se admite, atualmente, elaboração de estratégias e planos de negócios sem um correspondente projeto logístico, sendo imprescindível que se revejam as relações entre operadores logísticos e os usuários desses serviços, pois é necessário adaptar-se aos novos momentos e compreender as necessidades e exigências específicas de cada cliente (6).
E mais, considerando “que os desenhos logísticos tendem a ser mais personalizados e específicos para cada cliente, produto ou região, em mercados (consumidores ou fornecedores) cada vez mais complexos, caberá aos operadores logísticos, por exemplo, entender que essas novas circunstâncias e problemas, assim como as soluções, além de alto desempenho, precisam ter maior resiliência, pois ali estarão incorporadas todas as decisões estratégicas e táticas do cliente”. Sem esquecer, é óbvio, os novos desafios postos pelos impactos gerados pela crise climática, violência, corrupção e desgovernança (7).
E para complementar, caso eu precisasse incluir alguns outros pontos em face das circunstâncias atuais, me limitaria a defender dois aspectos: a) as empresas, assim como os operadores logísticos, não sobreviverão sem uma estratégia que considere a inovação e a resiliência como práticas comuns; e b) torna-se imperativo que essas práticas estejam alinhadas e façam parte das atividades realizadas por todos os segmentos da organização.
De fato, estratégia e alinhamento organizacional são fundamentais para que as empresas, ao se adaptarem aos novos tempos, promovam um ambiente no qual sejam privilegiadas a inovação e o desenvolvimento tecnológico. Mudança, inovação e evolução tecnológica são fenômenos indiscutíveis e devem fazer parte do ‘dia-a-dia’ de todos.
Para minha surpresa, boa, diga-se de passagem, e corroborando muito daquilo que tenho defendido, eu tive o prazer de ler a conceituação do amigo Cesar Meireles, dia 30 pp., em matéria publicada aqui mesmo no site da Logweb. Naquela, com o título “Nova face do operador logístico exige tecnologia, integração e papel estratégico na cadeia de suprimentos”, Meireles concluiu, dentre diversos outros pontos importantes, que os operadores logísticos, além de suas funções operacionais, atualmente também executam funções estratégicas e assumem posição essencial, não só no campo empresarial, mas também junto aos governos e sociedades nas quais estão inseridos. Perfeito!
E não somente por haver maiores “pressões por eficiência, prazos mais curtos e redução de custos”, mas porque a complexidade das cadeias logísticas, o aumento do rigor das legislações pertinentes, a preocupação com o clima e as instabilidades políticas e geoeconômicas passaram a ser cada vez maiores. Como se vê, assuntos que estão ligados a toda e qualquer atividade desenvolvida pelos seres humanos e, portanto, interessando à toda a sociedade.
Sem dúvida, a logística é imprescindível para que o crescimento e o desenvolvimento econômicos ocorram de forma sustentável. Aliás, corroborando com o que escrevi, gostaria de reproduzir dois parágrafos de um artigo (“A Logística e o Desenvolvimento”) que publiquei no livro “Logística Viva” (Editora Lisboa, 2024): “E se a busca pela eficácia passou a ser um dos motivos pelos quais a logística, ao longo do tempo, teve aumentada sua importância estratégica, mais notadamente nos setores produtivos da economia, há que se considerar que, além de ‘fundamental’ para o sucesso empresarial e de todas as atividades econômicas existentes, ela também se tornou ‘essencial’ para a melhoria do desempenho econômico e social das nações, posto que, quando bem realizada, viabiliza de forma eficiente os sistemas de abastecimento e de distribuição de uma sociedade”.
Vale acrescentar: é de inquestionável relevância observar-se mais atentamente os aspectos éticos e morais de tudo que poderá redundar no exercício dessas atividades, bem como a preservação dos valores democráticos, cujos objetivos, entre eles o bem-estar da população, precisam ser preservados. Não resta outro caminho.
(1) Cultura logística “nada mais é do que a compreensão de que uma logística eficaz, além de diminuir os custos operacionais, também se torna instrumento para alavancar a força do marketing, possibilita o aproveitamento e a exploração de mercados mais distantes (de insumo ou de consumo), agrega valor aos produtos, às empresas e às nações, gerando satisfação a todas as pessoas que compõem a sociedade mundial. Além de ser um vigoroso meio para redução de custos, uma logística eficaz colabora e facilita a realização dos negócios empresariais e, também nacionais.
(2) Objetivos: a) Ter como associadas, empresas cuja atividade principal caracteriza-se pela prestação de serviços de logística. Essas atividades poderão ser executadas com recursos próprios e/ou através da subcontratação de terceiros; b) Representar suas associadas junto às autoridades e organizações nacionais ou internacionais ligadas direta ou indiretamente aos assuntos logísticos, sempre com os objetivos de unificação e defesa de seus interesses; c) Participar das discussões a respeito da legislação e dos regulamentos que afetam as atividades logísticas, em âmbito nacional ou internacional; d) Promover, recomendar e estimular suas associadas para praticarem as boas normas administrativas e operacionais em todas as suas atividades, notadamente naquelas ligadas diretamente às atividades logísticas, sempre respeitando a legislação, a qualidade, a segurança e o meio ambiente; e) Promover a atualização contínua das boas técnicas logísticas e, sempre que possível, patrocinar estudos, trabalhos ou publicações que ajudem no desenvolvimento da logística; f) A partir de uma rede de intercâmbio de informações, conhecimentos e experiências, promover e estimular, e sempre que possível patrocinar, a realização de estatísticas do setor; e g) Sempre que possível, realizar eventos que divulguem as atividades logísticas.
(3) Entretanto, como esses assuntos nunca são resolvidos ou equacionados de uma forma completa e integrada, de ‘tempos em tempos’ eu volto a comentá-los. Com respeito à nossa precária e insuficiente “infraestrutura logística”, por exemplo, tenho elaborado, com certa frequência, diversos textos (https://logweb.com.br/colunas/cultura-logística). No dia quinze de outubro do ano passado, foi a vez da “Capacitação Logística”, quando publiquei, aqui mesmo no site da Logweb, artigo abordando “a urgência e a necessidade de melhor capacitar nossos profissionais” (https://logweb.com.br/colunas/a-urgencia-e-a-necessidade-de-melhor-capacitar-nossos-profissionais/).
(4) “A evolução tecnológica, que por si só tem feito crescer o comércio eletrônico e a forte integração econômica instalada neste mundo ‘globalizado’ e ‘interdependente’, seja entre blocos econômicos, países ou empresas, e apesar do momento de incerteza atual, estão fazendo com que as atividades comerciais, nacionais e internacionais correspondentes ocorram em volumes e complexidades ainda maiores. A exigência de eficiência, tanto na movimentação de mercadorias como no deslocamento de pessoas, também está presente, pois não pode haver desperdícios, atrasos ou realização de custos desnecessários”. “Além de ter que se adequar aos ‘novos tempos’, atividades logísticas internacionais, por exemplo, que contemplam operações entre países com cultura, costume, documentação, tributação e legislação diferentes, continuarão a solicitar estratégias específicas, sofisticação operacional e correta adequação. Assim como as atividades administrativas, financeiras, transacionais ou negociais pertinentes. Vale ressaltar que em face do aumento da conectividade e da instalação de programas automatizados de transferência de dados, que têm como um dos seus principais pilares de sustentação e evolução, a tecnologia e os sistemas computacionais, também se exige maior proteção contra possíveis ataques cibernéticos”.
(5) Como ressaltou o empresário e professor da USP Sérgio Rodrigues Bio, em seu livro “Do Empreendedorismo ao Empresadorismo” (Alta Books Editora – 2019), “o desenvolvimento de habilidades e competências profissionais constitui-se num ativo inalienável das pessoas. As empresas, em larga medida, são o campo em que se pode transformar o conhecimento adquirido nos bancos escolares em competências profissionais remuneradas. Empresas são o ‘palco’ dos processos, questões e desafios que exigem a aplicação do conhecimento e do comportamento requeridos para equacioná-los. Muitas empresas tratam de criar seus próprio programas de desenvolvimento e treinamento de operários, funcionários administrativos, especialistas e executivos”.
E continua o professor Sergio: “para além da satisfação e melhoria profissional que pode advir do aprimoramento de competências, as pessoas buscam um sentido de contribuição, um significado no trabalho. As empresas podem (o que nem sempre ocorre) prover condições de um trabalho significativo que preserve o sentido de contribuição e a autoestima das pessoas”.
(6) Se já era importante a realização periódica de avaliações de performance e ajustes contratuais, agora se tornou fundamental a reavaliação dos contratos vigentes e, principalmente, das premissas consideradas à época da contratação, pois muitas mudanças vêm ocorrendo, notadamente neste século.
Portanto, os operadores logísticos que quiserem ocupar espaços maiores terão, sem dúvida, que compreender as novas exigências, o novo momento e, mais do que nunca, os possíveis e eventuais impactos gerados atualmente, muitos dos quais ainda não se conhecem com a profundidade requerida. É óbvio que na medida em que as empresas usuárias de serviços logísticos, quase que de forma obrigatória, busquem melhorias no atendimento aos seus clientes e às suas cadeias de abastecimento, novos espaços e oportunidades vão sendo criados para os operadores. Mas é preciso estar preparado para bem aproveitá-las.
(7) O mundo empresarial em geral, e os operadores logísticos em particular, diante dos problemas que surgem, ocupam-se, inicialmente, quase que única e exclusivamente com sua sobrevivência. Mas sabem que chegou o momento de “repensar seus negócios”, de forma profunda e que incorpore, de fato e concretamente, os princípios empresariais já aceitos mundialmente, como aqueles constantes na sigla ESG (“Enviromment, Social e Governance”), por exemplo. Mas é preciso ressaltar alguns outros, tais como a utilização de energia renovável, a proteção ao meio ambiente, o cuidado com a educação, a inclusão social, o combate ao racismo e à discriminação e à governança corporativa.









