Em novo artigo, o colunista do Portal Logweb Agapito Sobrinho analisa os desafios da infraestrutura brasileira e defende uma mudança de perspectiva sobre a logística, que deve ser tratada como uma estratégia de Estado para ampliar a produtividade, a competitividade e a integração das cadeias produtivas.
A recente carta aberta da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) aos candidatos à Presidência da República recoloca no centro do debate uma questão que o Brasil conhece há décadas, mas ainda não resolveu: a necessidade de transformar a logística em uma prioridade estratégica de Estado.
O tema vai muito além do setor de transportes. A qualidade da infraestrutura logística determina a capacidade do país de produzir, exportar, atrair investimentos e competir nas cadeias globais de valor.
O Brasil investe apenas 0,7% do PIB em infraestrutura de transporte, enquanto economias que disputam mercados semelhantes aplicam entre 3% e 5%. Essa diferença ajuda a explicar por que os custos logísticos brasileiros superam 15% do PIB, contra uma média superior a 8% nos países da OCDE.
Mais do que números, esses indicadores revelam um problema estrutural. Há décadas, a infraestrutura brasileira cresce em ritmo inferior às necessidades da economia real. E, para quem está na operação, os efeitos são concretos: mais tempo de trânsito, menor previsibilidade, maior necessidade de estoques, menor produtividade dos ativos e mais dificuldade para cumprir prazos.

Em logística, velocidade é importante, mas previsibilidade é fundamental. Uma cadeia produtiva não consegue operar de maneira eficiente quando não consegue planejar com segurança.
Esse é um dos motivos pelos quais o Brasil precisa superar a dependência excessiva do modal rodoviário. Mais de 60% do transporte de cargas está concentrado nas rodovias, enquanto ferrovias e hidrovias ainda têm participação abaixo do potencial de um país com a dimensão territorial e a vocação produtiva brasileiras.
O desafio não é simplesmente substituir um modal por outro. É construir uma matriz integrada, na qual cada modal seja utilizado de acordo com sua vocação e todos funcionem de forma coordenada. A multimodalidade deve ser entendida não apenas como alternativa para reduzir custos, mas como condição para aumentar a eficiência e a resiliência das cadeias.
Para isso, precisamos de infraestrutura, mas também de terminais, tecnologia, integração de dados e regras que permitam aos diferentes elos trabalhar como um sistema. O Brasil já possui capacidade empresarial e tecnológica para avançar. Falta, em muitos casos, um ambiente que permita transformar essas capacidades em ganhos de produtividade em escala.
O mesmo vale para o ambiente regulatório e aduaneiro. Processos lentos, fragmentados e pouco padronizados aumentam custos e reduzem a capacidade de planejamento das empresas. A modernização precisa avançar na digitalização, na integração de sistemas, na padronização de procedimentos e na coordenação entre os diferentes órgãos envolvidos.
Mas infraestrutura e regulação não são os únicos desafios. A logística também passa por uma transformação profunda nas próprias operações. Digitalização, automação, análise preditiva e integração de dados estão mudando a forma como as cadeias são planejadas e executadas. Ao mesmo tempo, a disponibilidade de profissionais preparados ainda não acompanha essa evolução.
O profissional da logística do futuro continuará precisando conhecer a operação, mas também deverá interpretar dados, utilizar novas ferramentas e tomar decisões em ambientes cada vez mais dinâmicos. Investir em formação e requalificação, portanto, não é apenas uma agenda de recursos humanos. É uma agenda de produtividade e competitividade.
A sustentabilidade segue a mesma lógica. A transição para uma logística de menor emissão já deixou de ser apenas uma discussão ambiental e começa a influenciar decisões de clientes, investidores e mercados. Caminhões elétricos pesados já estão disponíveis no mercado regional, iniciativas de eletrificação de frota e compensação ambiental começam a ganhar escala, e a pressão global por uma logística mais limpa cresce rapidamente.
Segundo dados apresentados pela ABOL, os operadores logísticos empregam cerca de 2,7 milhões de pessoas, entre postos diretos e indiretos, movimentam mais de R$ 247 bilhões em faturamento anual e respondem por mais de R$ 57 bilhões em arrecadação. O setor representa mais de 20% dos gastos nacionais com transporte e armazenagem e sustenta cadeias produtivas inteiras.
Logística, portanto, não é uma atividade acessória da economia. É infraestrutura vital.
O próximo salto brasileiro não dependerá apenas de construir mais estradas, ferrovias, portos ou terminais. Dependerá de fazer com que essa infraestrutura funcione de maneira integrada, previsível e eficiente. Isso exige uma visão que ultrapasse os ciclos eleitorais.
O Brasil precisa romper o ciclo de investir pouco, operar com restrições, absorver custos elevados e, depois, voltar a discutir a necessidade de investir. Não se trata apenas de aumentar recursos para infraestrutura, mas de garantir continuidade, planejamento, governança e capacidade de execução.
O país tem território, produção, demanda, capacidade empresarial e tecnologia para ocupar uma posição ainda mais relevante nas cadeias globais de valor. O que falta é transformar esses ativos em uma estratégia de longo prazo.
A logística brasileira não deve ser vista apenas como um custo a ser reduzido. Ela precisa ser entendida como uma das principais alavancas de produtividade, desenvolvimento e competitividade do país.
O setor privado está pronto para participar dessa transformação. O que precisamos agora é de continuidade, integração e prioridade.
Porque o Brasil não precisa apenas transportar mais. Precisa transformar a maneira como movimenta sua economia.
Fontes:
https://logweb.com.br/abol-propostas-logistica-brasileira-presidenciaveis-2027-2030/.
https://abolbrasil.org.br/publicacoes/carta-aberta-candidatos-a-presidencia-da-republica
https://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/PIT/politica-e-planejamento/publicacoes/pnl2025.pdf
https://ilos.com.br/custo-logistico-cai-mas-ainda-consome-155-do-pib/https://logweb.com.br/abol-propostas-logistica-brasileira-presidenciaveis-2027-2030/









