Uma nova agenda para o Brasil

29/08/2011

Até o século XX, uma forma que toda grande nação encontrava de ocupar espaço e reafirmar hegemonia era o expansionismo baseado no poderio militar. Essa premissa valeu até o fim da Guerra Fria (1945-1991) e, se serviu para colocar os EUA numa situação de supremacia mundial, comprometeu em boa parte o futuro da Rússia que, empenhada na corrida espacial e na ocupação de espaços no mundo a pretexto de “vender” a suposta excelência do estilo de vida soviético, não investiu como deveria em sua infraestrutura que hoje surpreende desfavoravelmente o visitante tal a sua precariedade.

No século XXI, o expansionismo não foi enterrado, mas, pelo contrário, adquiriu uma nova forma, ou seja, a comercial. Isso significa que qualquer país que, por sua formação, circunstâncias históricas, conformação física e potencial econômico, tenha alguma importância deve claramente ter traçada uma estratégia de expansionismo comercial, sob o risco de ser ultrapassado por aqueles que já têm esse tipo de objetivo definido.

O Brasil, em que pese ter aumentado sobremaneira nos últimos quinze anos o seu comércio internacional, infelizmente, não definiu até hoje uma estratégia de expansionismo comercial, como o fez, por exemplo, a China a partir da década de 1980. Nunca se viu em nenhum governo brasileiro a preocupação de se colocar em prática uma poderosa diplomacia comercial, que pudesse abrir caminhos no mundo para o produto nacional.

A prova é que, embora nos últimos oito anos as exportações tenham triplicado, o País continua a se satisfazer com ínfimo 1% de participação no comércio global, o que é muito pouco para uma nação das dimensões e importância geopolítica do Brasil. Sem contar que grande parte dos números das exportações é proveniente da venda de commodities – minério de ferro, soja e suco de laranja, principalmente – e não de produtos de alto valor agregado.

Para piorar, nos últimos meses, houve um crescimento da entrada no País de produtos de tecnologia ou manufaturados, especialmente porque a indústria local, sem competitividade, acaba estimulando a importação. Segundo dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), entre 2004 e 2010, o consumo interno de bens de média e alta tecnologia cresceu 76%, a produção apenas 40% e as importações 177%. Em contrapartida, o País, se já ocupa modestamente a 58ª posição em termos de competitividade, segundo o Fórum Econômico Mundial, tem agora pela frente outro obstáculo em sua pretensão de aumentar o valor agregado de sua pauta e vender mais produtos industrializados: a queda do dólar.

Diante disso, está mais do que na hora de o País adotar uma agenda estratégica de expansionismo comercial que deve começar pela simplificação e desburocratização das operações de comércio exterior, passando por um fortalecimento dos órgãos fiscalizadores de práticas ilícitas e de defesa comercial, até uma política de negociação mais ampla e ostensiva, que inclua a assinatura de acordos de livre comércio.

Basta ver que, enquanto nos últimos oito anos o Chile assinou 45 acordos desse tipo e o México, 42, o Brasil limitou-se a dois, de reduzida importância comercial, com Israel e Egito. Ninguém é contra o crescimento das importações. Pelo contrário, desde que esse crescimento seja acompanhado pelo aumento das exportações, especialmente de produtos de valor agregado, a fim de que a balança comercial não entre em desequilíbrio. Ao que parece, porém, esta é uma agenda que ainda não faz parte dos planos do atual governo.

Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

 

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