O futuro do transporte depende de políticas sérias

26/02/2016

Manoel Sousa Lima Jr.

 

O transporte terrestre de cargas no Brasil passa por um momento crítico e isso não é novidade. Há décadas, o setor, principalmente o rodoviário, enfrenta dificuldades com a falta de infra-estrutura viária, restrições à circulação de cargas, acidentes e diversos outros problemas, que passam pela falta de investimentos em rodovias seguras e eficientes para o escoamento das riquezas do País e pela falta de incentivos para as empresas.

A falta de boas estradas em nosso País é crônica. No Estado de São Paulo, o cenário é um pouco diferente por causa das concessões rodoviárias, que trouxeram estradas em boas condições, mas com uma contrapartida amarga para as empresas: os onerosos pedágios.

No campo do meio ambiente, o desafio é a redução das emissões de gases, problema que tem sido enfrentado pelas montadoras e pelas transportadoras. As empresas que operam o transporte rodoviário de cargas têm buscado soluções nesta área, com o uso do biodiesel na mistura dos combustíveis e o emprego de estratégicas ambientais, como a regulagem dos motores, o monitoramento das emissões e a busca por uma direção mais econômica e eficiente.

As montadoras têm feito seu papel, desenvolvendo motores mais eficientes e com menores índices de emissão de gases estufa. Projetos piloto de caminhões elétricos e que empregam outras fontes de energia, mais limpa, como o GNV e o etanol, também são vistos, demonstrando uma tendência do setor.

O modal rodoviário, que representa 60% de todo o transporte de cargas no Brasil, é essencial para todas as operações, pois é o único que pode atender à última milha, chegando à porta dos consumidores e dos destinatários das cargas, seja no comércio, na indústria ou no setor de serviços.

Para ser mais rápido, o transporte rodoviário precisa de investimentos em estradas e, nas áreas urbanas, depende de uma mobilidade que é muito atrapalhada pelos grandes congestionamentos que encontramos nas grandes cidades, principalmente em São Paulo. Além da falta de espaço viário para a realização do transporte, o setor esbarra também nas restrições à circulação de veículos de cargas. Para termos um transporte mais ágil, é necessário priorizar o transporte de cargas, a exemplo do que acontece em grandes cidades do mundo, como Londres e Nova Iorque.

Somente com políticas em favor da mobilidade urbana será possível ter um transporte de cargas mais rápido. É necessário estimular o uso do transporte coletivo, como o metrô, como forma alternativa para retirar carros das ruas. Estimular o uso de veículos como o VUC (Veículo Urbano de Carga, com 7,20 metros entre pára-choques) também é uma medida saudável para a mobilidade urbana.

Como se não bastassem a falta de infraestrutura para o transporte e as restrições ao caminhão nas grandes cidades, o escoamento de produtos entre os Estados brasileiros ainda sofre com mais um problema: as barreiras fiscais Estaduais. Para transpor uma fronteira entre as unidades da Federação, um caminhão tem que parar na barreira e ser fiscalizado. Até aí, o setor entende a necessidade de os Estados verificarem as notas fiscais e o recolhimento dos tributos. Mas, se houver qualquer problema com os produtos transportados e suas notas fiscais, mesmo que seja um problema de natureza do embarcador ou do recebedor, o transportador é obrigado a ser o depositário fiel das cargas e permanecer com os produtos até que a questão seja resolvida, o que gera custos absurdos e atrapalha as operações. Muitas vezes, o caminhão é utilizado como armazém, fato que fere totalmente a natureza deste equipamento, feito para circular.

Apesar de todos os entraves, as empresas de transporte de cargas brasileiras têm feito seu papel. Se adaptaram à falta de mobilidade das grandes cidades, buscaram meios mais eficazes para realizar suas operações e estão de olho na sustentabilidade. Somente com a carga tributária, o setor arca com um ônus de mais de 50% de seu faturamento. Como se não bastasse, o roubo de cargas também afronta o setor, obrigando as empresas a investir, até 15% de seu faturamento em ações de gerenciamento de risco, como escoltas, rastreamento de frotas e cargas, sistemas de segurança com câmeras e outros aparatos para evitar estes sinistros.

Sem políticas sérias para o transporte de cargas, assistiremos, em breve, a um verdadeiro colapso logístico no Brasil.

Manoel Sousa Lima Jr. – Diretor da RG LOG, ex-presidente do SETCESP – Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região.

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