O futuro da logística pode estar no acesso e não na propriedade

*Por Gabriela Guimaraes

Em abril de 2026, o transporte de cargas no Brasil operava em um patamar 35,9% acima do registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia, segundo o IBGE. Esse crescimento aumenta a procura por estruturas, tecnologias e serviços que acompanhem as variações de volume sem exigir grandes investimentos a cada expansão.

O conceito de Everything as a Service (XaaS) amplia as alternativas para os modelos de negócio e para a forma como as empresas acessam soluções. Na minha avaliação, a tendência deve ganhar espaço na logística brasileira porque permite testar tecnologias, atender novos mercados e aumentar a capacidade operacional sem concentrar todos os recursos na compra de ativos.

Máquinas, sistemas, veículos, robôs, espaços de armazenagem e operações completas podem ser contratados de acordo com o uso, o volume ou o resultado esperado. O pagamento pode considerar o tempo de utilização, a estrutura disponibilizada, a quantidade produzida ou o número de tarefas realizadas.

O conceito ganhou força no setor de tecnologia, com os softwares oferecidos por assinatura, e chegou a outras atividades. Na logística, seu avanço está ligado à necessidade de acessar infraestrutura, sistemas e conhecimento especializado sem adquirir todos os ativos ou desenvolver internamente cada etapa da operação.

Durante muito tempo, aumentar a capacidade logística exigia comprar equipamentos, implantar sistemas, contratar equipes e ampliar espaços. Esse caminho continua necessário quando o ativo tem importância estratégica para o negócio. A contratação como serviço, porém, oferece uma alternativa para empresas que precisam crescer com flexibilidade.

O fornecedor pode assumir a manutenção, as atualizações e o suporte, enquanto o cliente paga conforme as condições previstas no contrato. Uma empresa também consegue testar uma solução antes de levá-la para outras unidades ou contratar recursos adicionais nos períodos de maior movimento. Para os fornecedores, o formato cria receitas recorrentes e relações comerciais mais longas, com responsabilidade sobre o desempenho do serviço.

O tema faz parte do novo DHL Logistics Trend Radar 8.0, estudo que acompanha transformações com potencial para influenciar as cadeias de suprimentos. Uma pesquisa complementar da DHL, realizada com mais de 2.500 profissionais do setor, identificou o XaaS entre as tendências consideradas importantes nas diferentes regiões analisadas. O conceito recebeu atenção especial em áreas como saúde e energia, nas quais contratos de disponibilidade, manutenção e desempenho já fazem parte das relações comerciais.

No Brasil, o termo XaaS ainda não é utilizado por todas as empresas, mas sua lógica está presente em diferentes operações. Os centros de distribuição multiclientes são um exemplo. Neles, várias companhias compartilham espaço, equipes, sistemas e equipamentos e contratam os serviços de acordo com seus volumes.

As redes de fulfillment seguem o mesmo princípio. Uma empresa pode contratar armazenagem, gestão de estoque, separação, embalagem, expedição, distribuição e logística reversa sem montar toda a estrutura por conta própria. Os serviços podem ser ampliados conforme o crescimento das vendas ou a entrada em novas regiões.

Outras aplicações aparecem nos sistemas de gestão logística contratados por assinatura, nas frotas oferecidas com manutenção e telemetria e no Robotics as a Service. Nesse último modelo, o fornecedor disponibiliza robôs, sistemas, implantação e suporte, com cobrança relacionada ao uso ou à produtividade.

A oferta de produtos como serviço também fortalece a logística reversa. Quando um fabricante mantém a propriedade de um equipamento, precisa organizar sua entrega, manutenção, coleta, reparo e redistribuição. Pallets, contêineres e embalagens retornáveis seguem lógica semelhante, com recolhimento, higienização e reutilização.

O XaaS, porém, não deve ser escolhido apenas pela redução do investimento inicial. Cada empresa precisa comparar o custo do serviço com o da propriedade, avaliar a importância do ativo para sua estratégia e estabelecer indicadores claros. Integração de sistemas, segurança das informações, qualidade do suporte e dependência do fornecedor também devem fazer parte da análise.

A propriedade dos ativos continuará importante em muitas operações, mas será uma entre as diferentes formas de acessar capacidade logística. O XaaS deve avançar principalmente entre empresas que precisam responder com rapidez às mudanças de demanda e incorporar tecnologias com menor risco.

Para a logística brasileira, esse movimento abre espaço para serviços mais flexíveis e relações baseadas em desempenho. Seu avanço dependerá de contratos claros, integração de dados e fornecedores preparados para assumir responsabilidade pelos resultados. As empresas que combinarem ativos próprios com serviços contratados terão mais alternativas para crescer e adaptar suas operações às mudanças do mercado.

*Gabriela Guimarães é Vice-presidente de desenvolvimento de Novos Negócios na DHL Supply Chain.

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