O avanço da intermodalidade

16/11/2009

Se o Brasil foi um dos primeiros países a sair da crise e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos, como prevê o economista Jim O´Neill, do Goldman Sachs, criador da expressão Bric (o grupo dos grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), vem por aí uma fase de intensificação do comércio exterior em que brasileiros e asiáticos poderão preencher os espaços deixados pela exuberância do consumidor norte-americano.

Diante disso, uma pergunta se impõe: como o país poderá crescer a 5% ou a um ritmo ainda mais forte com a atual infraestrutura logística? É de lembrar que 93% das cargas transportadas no Estado de São Paulo, por onde circulam 40% da economia nacional, continuam a seguir por via rodoviária. E que os acessos rodoviários ao porto de Santos, responsável por 27% do comércio exterior brasileiro, só não alcançaram ainda um estágio de estrangulamento total porque a crise internacional afetou sobremaneira a demanda.

Sem crise, como será?

A resposta para essa pergunta só pode estar no avanço da intermodalidade, ou seja, na restauração e ampliação da malha ferroviária e na adoção de uma política aquaviária de grande alcance. Mas não é assim que enxergam os nossos administradores públicos. Pelo menos é o que se conclui quando se constata que o chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) dirige 60% de seus investimentos para o transporte rodoviário. Quer dizer: num país de dimensões continentais e com mais de oito mil quilômetros de costa marítima, parece que o governo ainda acredita que a saída é abrir (e asfaltar) estradas, deixando de lado modais tão imprescindíveis como o ferroviário, o hidroviário e a cabotagem.

O problema é que o Brasil está atrasado em todos os modais. E nunca há dinheiro que chegue. Afinal, o País não pode deixar de investir no modal rodoviário porque tem apenas 196 mil quilômetros pavimentados de uma malha rodoviária de um milhão de quilômetros. A título de comparação, diga-se que a Austrália dispõe de três milhões de quilômetros asfaltados, enquanto os EUA têm oito milhões. Isso significa que transportar contêineres ou carga geral em cima de caminhões ou carretas é ainda uma aventura, tal o número de obstáculos, como pontes mambembes ou caídas, estradas esburacadas, atoleiros, eixos quebrados, assaltos etc.

A solução, obviamente, seria recorrer à intermodalidade. Acontece, porém, que tanto a ferrovia como a hidrovia e a cabotagem dispõem de estruturas acanhadas, que têm servido, na maior parte das vezes, para transportar granéis. É verdade que, nos últimos tempos, com a privatização da malha ferroviária, esse panorama vem passando por mudanças e muitas indústrias já começaram a optar por enviar seus produtos acabados dentro de uma logística intermodal, que inclui trens e navios em território nacional.

Há quem diga que essa recente procura por vagões e embarcações é resultado da crise internacional, que reduziu a demanda dos grãos e minérios, e que o reaquecimento do consumo global pode levar outra vez as cargas industrializadas a perder espaço nesses modais alternativos para commodities. A percepção que se tem, porém, é que a intermodalidade é hoje um conceito em expansão no País, como provam os investimentos privados na aquisição de novas embarcações e vagões. Em outras palavras: a intermodalidade não está crescendo apenas por conta da crise, mas constitui um conceito e uma tendência que vieram para ficar.

Portanto, o que se espera é que os operadores de transportes venham a construir mais terminais ou plataformas logísticas que permitam a integração dos modais, ou seja, trocas rápidas das cargas entre eles, especialmente fora da região Sudeste, que é a única que dispõe de uma rede de terminais portuários e ferroviários em boas condições para a distribuição de produtos industrializados.

Da parte do governo, o que se percebe é que, apesar de toda a propaganda, os investimentos em projetos de infraestrutura necessários para o escoamento das cargas ainda são extremamente tímidos em comparação com as reais necessidades do País. Basta ver que um estudo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) estimou que o País deveria investir R$ 280 bilhões em infraestrutura logística – dos quais R$ 127 bilhões só em rodovias. Mas o PAC só destina R$ 65 bilhões para todas as obras de logística. Desse jeito, convenhamos, o Brasil vai continuar a correr atrás do prejuízo por muito tempo.

Milton Lourenço – presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
fiorde@fiorde.com.br

Compartilhe:
Suzano adquire 10% do empreendimento portuário Imetame Logística Porto, em construção no Espírito Santo
Suzano adquire 10% do empreendimento portuário Imetame Logística Porto, em construção no Espírito Santo
Preço do etanol cai 2,7% em agosto e amplia vantagem sobre gasolina, aponta Veloe/Fipe
Preço do etanol cai 2,7% em agosto e amplia vantagem sobre gasolina, aponta Veloe/Fipe
nstech anuncia integração da Active Corp, referência em gestão de transporte, ao seu ecossistema 
nstech anuncia integração da Active Corp, referência em gestão de transporte, ao seu ecossistema 
BNDES aprova R$ 10,6 milhões para AutoMind desenvolver soluções de IA para logística de combustíveis
BNDES aprova R$ 10,6 milhões para AutoMind desenvolver soluções de IA para logística de combustíveis
SLC Sementes amplia logística com novos centros de distribuição para a safra 2026/27
SLC Sementes amplia logística com novos CDs em regiões estratégicas para a safra 2026/27
INTRA-LOG Expo 2026 debate o futuro da logística e embalagens com megahub de eventos em São Paulo
INTRA-LOG Expo 2026 debate o futuro da logística e embalagens com megahub de eventos em São Paulo

As mais lidas

01

Benel investe R$ 45 milhões em novos veículos e equipamentos de transporte no primeiro semestre de 2026
Benel investe R$ 45 milhões em novos veículos e equipamentos de transporte no primeiro semestre de 2026

02

Amazon abre 30 vagas no programa de trainees de operações em São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro
Amazon abre 30 vagas no programa de trainees de operações em São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro

03

INTRA-LOG Expo 2026 debate o futuro da logística e embalagens com megahub de eventos em São Paulo
INTRA-LOG Expo 2026 debate o futuro da logística e embalagens com megahub de eventos em São Paulo