No cenário caprichoso do Rio Amazonas, o transporte intermodal não está garantido

07/06/2024

JGVantine

 

Na esteira do rico folclore da região amazônica, certamente o “Boi Bumbá” (que também existe em outras regiões do Brasil), a lenda conta uma linda história de amor entre um homem e sua mulher grávida, é lenda mais festejada mais festejada, Quem não conhece o famoso Festival Folclórico de Parintins/AM, onde no bumbódromo, duas agremiações se apresentam em shows com temáticas indígenas e regionais? Torcidas apaixonadas divididas entre o “Boi Garantido”, identificado na cor vermelha e o “Boi Caprichoso” identificado pela cor azul.

 

Natureza exuberante cantada em prosa e verso, a região norte do Brasil chega a apresentar controvérsia, pois é extremamente rica pela dádiva da natureza, tanto no subsolo, como na floresta e na imensidão dos seus rios, mas em contrapartida tem habitantes com nível econômico beirando a linha da pobreza. Mas de outro lado, a natureza da região oferece uma biodiversidade ímpar que apresenta muitas opções para um novo ciclo de exploração racional e ambientalmente sustentável para geração de emprego e renda aos nativos de todas as origens.

 

Ocupando quase 50% da área do nosso país, a região Norte, no entanto, a população representa apenas 8%. Fechando o foco no Amazonas, único estado do Brasil sem conexão terrestre com o restante do país (a BR-319 ligando Manaus a Porto Velho com 885 Km encontra-se em condição não operacionais). E ampliando o olhar para Manaus que tem pouco mais que 2 milhões de habitantes (pouco mais que 50% da população do estado), é a referência global da Floresta Amazônica.

 

E, ainda com uma lupa no setor da Economia e da Logística, está a ZFM – Zona Franca de Manaus, que apesar da nomenclatura, abrange estados da Amazonia Ocidental (Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima e Amapá).

 

E, com lupa de duplo alcance, dentro da ZFM, encontra-se o PIM – Polo Industrial de Manaus que reúne mais de 600 indústrias dos polos: Eletroeletrônico, Duas Rodas, Naval, Mecânico, Metalúrgico, Termoplástico, Relojoeiro. Em 2022 faturou US$32,2 bi (95% vendas internas) com geração de 114 mil empregos conforme informe da SUFRAMA (órgão que administra a ZFM).

 

Dentro dessa riqueza natural e da indústria, adiciona-se toda a cadeia de valor das empresas de serviços logísticos: Portos fluviais de navegação marítima, Portos fluviais de navegação interior (balsas, empurradores), Portos de navegação comercial e de passageiros, Companhias de Transporte Fluvial, Operadores Logísticos, Companhia de Navegação, Companhias Aéreas, Transportadoras Rodoviárias, Empresas de Serviços de Comércio Internacional e com destaque a pujança do Comércio Tradicional, já que Manaus é um Centro Abastecedor da hinterlândia amazonense.

 

Enquanto no restante do país a capilarizarão (distribuição de produtos) é via rodoviária (modo ferroviário não atua nesse segmento), no Amazonas fundamentalmente é aquaviário destacando três segmentos mais importantes: A rota Belém-Manaus (a maior), a rota Manaus – Porto Velho e a rota Manaus – Interior (a mais complexa pela dispersão de habitantes das longínquas cidades e aglomerados ribeirinhos.

 

E onde entra a Logística nesse cenário?

 

Com atuação em muitos projetos na região, através do CIEAM – Centro das Indústrias do Estado do Amazona e apoiado pela SUFRAMA e Governo do Estado, iniciei minha jornada de atuação no final da década de 80 e tive o privilégio de trabalhar na elaboração do PLANAMAZONAS, conduzido pelo grande amigo, à época Secretário da Industria e Comércio, Raimar Aguiar (in memoriam), que foi o guerreiro da Logística Manauara (hoje tem seu nome na identidade do auditório  da FIEAM – Federação das Indústrias do Estado do Amazonas).

 

A partir de então, realizamos muitos projetos visando o desenvolvimento do Amazonas, de Manaus e da ZFM, todos fundamentados em Transporte, Logística e Infraestrutura. Foram projetos de caráter institucional para servirem de diretrizes para estruturação de Estratégia de Governo, bem como, para atender as necessidades da Indústria e do Comércio. Os principais:

 

  • SAIDA PARA O CARIBE – Ligação rodoviária pela BR-174 ligando Manaus a Boa Vista (RR), acessando de um lado a Venezuela (Puerto Cabello) e de outro a Guiana através e Georgetown. Foi muito utilizada até mesmo para ligar Manaus com a Colômbia e a pioneira foi a “Rodoviário Michelon”

 

  • LIGAÇÃO BIO-OCEÂNICA – “Atlântico – Pacífico” utilizando o rio Solimões (Marañon) de Manaus até Iquitos (Peru) e via rodoviária até Piura (norte) ou Ilo (sul). Se apresentou como totalmente inviável pelo elevado investimento e baixa demanda bilateral;

 

  • Criação de modelo chamado de “CENTRAL DE TRÂNSITO” que ao ser transformado em lei estadual passou a ser EIZOF – Entreposto Internacional da Zona Franca. Inicialmente funcionou dentro do Porto Público, mas depois da inauguração do EADI – Porto Seco Manaus, perdeu sua finalidade inicial;

 

  • EIZOF-SIDERAMA – Siderama foi uma Siderúrgica(desativada).Participei de uma consórcio em projeto executivo para lá instalar o EIZOF e transformou o local numa super estrutura de Logística e Comércio Internacional, com localização privilegiada ao lado da BR-319 (próximo ao local conhecido por Ceasa)e na margem do Rio Negro. Com mudanças de governos (SUFRAMA), o projeto foi engavetado;

 

  • LOGÍSTICA INTEGRADA PIM – Envolvendo mais de 200 indústrias do Polo, foi fundamental no princípio, para a sinergia nas operações de Transportes desde as fábricas até o destino (NE e SE) incluindo a gestão por Operador Logístico na contração de balsas, carretas, terminais fluviais em Manaus e Belém. Foi desenvolvido para o CIEAM / SUFRAMA, e continua aplicável na integra até hoje;

 

  • CORREDOR DE CONTEINER MACAPÁ – SANTANA / MANAUS – foi concebido para ser uma alternativa para evitar o transit time de navios de longo curso até o porto de Manaus. Sendo um porto de transhipment em Santana/AP, os contêineres seriam transferidos dos navios conteneiros para balsas em comboio até Manaus. Por ser projeto estruturante não foi incluindo nos Planos dos Governos Federais que se sucederam;

 

  • PROJETO CLAD – COMPLEXO LOGÍSTICO AMAZONAS / FLÓRIA-USA, com instalação de Armazém Alfandegado dentro do Porto Everglades (Condado de Broward/FL) incluiu instalação de linha de navegação direta de Manaus e Companhias Aéreas operando entre Manaus e Fort Lauderdale/FL. Entregue para inciativa privada;

 

  • PNLT – AMAZONAS – foi o primeiro Plano de Logística e Transportes desenvolvidos pelo Ministério dos Transportes. Atuamos no desenvolvimento de propostas para o estado do Amazona e a ZFM. Composto por: Polo Irradiador de Manaus (bidirecional), Eixo Leste via Santarém (BR-163), Eixo Oeste via Porto Velho (BR-319 / BR-364) e Eixo Norte via BR-174 até Boa Vista acessando a Venezuela na divisa com município de Santa Elena).

 

Ao concluir essa resenha expresso o desejo que ao olhar para a proa, governantes, políticos e empresários não deixem de olhar para a popa, porque o passado ensina a projetar um futuro mais consistente e definitivo.

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