Logística reversa: a importância da conscientização

19/07/2018

Por Miriam Bastos*

Desde 2010, está vigente no Brasil a Lei 12.305, de logística reversa, que faz parte da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Pela Lei, as empresas são responsáveis pelos produtos que inserem no mercado, devendo acompanhar todo o seu ciclo de vida. Trata-se de um conjunto de atribuições dos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental.

Segundo a PNRS, a logística reversa é um dos instrumentos para aplicação da responsabilidade compartilhada, sendo uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, seja para reaproveitamento em sua própria cadeia produtiva ou para outra destinação final ambientalmente adequada.

O grande problema é que falta visão por parte do empresariado brasileiro sobre a relevância dessa questão. Como não há fiscalização para o assunto, a grande maioria das indústrias prefere simplesmente descartar o refugo ou vendê-lo a sucateiros. Aparentemente, trata-se de uma solução mais simples, que demanda pouco esforço. No entanto, essa prática não é sustentável, visto que, ao concluir o ciclo de vida, muitos produtos são simplesmente lançados nos mares, rios ou matas, sem nenhum tipo de tratamento.

A logística reversa, embora exija investimentos financeiros e humanos para a criação e manutenção dos processos, apresenta muitos ganhos em diversas esferas, como econômica, social e ambiental. Do ponto de vista do meio ambiente, o benefício é muito claro ao reduzir o volume de resíduos e reaproveitar matérias primas, poupando recursos naturais. Na questão social, processos de logística reversa promovem empregos diretos e indiretos, uma vez que comunidades precisam ser engajadas a fim recolher os materiais que seriam descartados. Economicamente, o sistema permite um rápido payback, tornando-se bastante lucrativo no médio e longo prazo.

Contudo, criar um programa de logística reversa exige bastante foco e determinação. As pessoas envolvidas precisam conhecer muito bem a jornada de consumo e os hábitos de descarte para criar uma forma de captura e retorno à fábrica. É preciso também fazer adaptações, afinal, quando os produtos saem para consumo, atendem determinados padrões de qualidade, mas quando chegam, precisam ser separados e higienizados antes de iniciar os processos necessários para a reciclagem. Tudo isso requer adaptação e preparo.

Depois, o próximo desafio é promover a cultura dos produtos com compostos reciclados, que costumam enfrentar alguns tipos de preconceitos. A resistência ao novo é sempre comum entre os seres humanos, mas é preciso desenvolver uma consciência no sentido de comprovar que os produtos fabricados com material reciclado possuem tanta qualidade quanto os produzidos com matéria-prima totalmente virgem. Os problemas, quando surgem, costumam ser muito mais derivados das falhas nos processos de fabricação do que propriamente dos componentes.

Apesar de todo o trabalho demandado, um bom programa de logística reversa cabe em praticamente todos os tipos e portes de indústrias. Basta criar uma mentalidade que valorize o impacto social, econômico e ambiental, a partir de toda a cadeia do ciclo produtivo. Tirar do meio ambiente objetos que demorariam 400, 500 e até 800 anos para se decompor, por si só, já é uma grande vantagem. As empresas que desenvolverem esse tipo de consciência, certamente serão recompensadas.

*Miriam Bastos é engenheira e plant manager na Mazzaferro, indústria com 65 anos de atuação no ramo de nylon.

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