Black Friday já coloca a cadeia logística à prova

*Por Caciporé Valente

A Black Friday costuma ser associada a uma sexta-feira de grandes descontos, mas, para a logística, a operação começa muito antes. O aumento da demanda exige planejamento de estoques, contratação de capacidade de transporte, definição de novas rotas, ampliação de turnos e, em muitos casos, entrada de novos fornecedores e prestadores de serviço na cadeia.

A dimensão desse movimento ajuda a explicar a necessidade de preparação. Segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia (ABIACOM), o comércio eletrônico brasileiro deve movimentar cerca de R$ 258 bilhões em 2026. As principais datas comerciais do segundo semestre devem responder por aproximadamente R$ 65 bilhões, enquanto a Black Friday deve representar cerca de R$ 14,7 bilhões.

Esse volume pressiona toda a cadeia de abastecimento. Em 2025, os operadores logísticos registraram crescimento médio de 13% nas atividades durante a Black Friday, considerando armazenagem, distribuição, controle de estoque e transporte de cargas, segundo a Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (Abol). No mesmo período, as vendas do comércio eletrônico cresceram 16,1%, de acordo com o Índice Cielo do Varejo Ampliado.

Mais pedidos significam mais mercadorias em circulação, maior demanda por transporte e armazenagem e uma rede de parceiros que pode crescer para acompanhar o pico. Com isso, aumentam os pontos que precisam ser acompanhados pela gestão de riscos.

Os efeitos dessa pressão aparecem na ponta. No monitoramento realizado pelo Reclame AQUI nos dias 26 e 27 de novembro de 2025, os atrasos na entrega representaram 25,29% das reclamações relacionadas à Black Friday. Produto não recebido apareceu em segundo lugar, com 12,62% dos registros.

Quando uma entrega atrasa, o consumidor enxerga o resultado final de uma cadeia de decisões que começou muito antes. A gestão de risco precisa acompanhar essa expansão desde o início, com visibilidade sobre os parceiros envolvidos e sobre as condições em que eles operam.

Em períodos sazonais, essa necessidade aumenta porque a rede pode mudar rapidamente. Empresas incorporam novos transportadores, aumentam o número de motoristas, contratam operadores para etapas específicas ou redistribuem a operação entre centros e rotas.

A homologação é um ponto de partida. Ao longo da operação, porém, parceiros podem apresentar alterações cadastrais, regulatórias ou operacionais. Por isso, o monitoramento contínuo precisa fazer parte da gestão, permitindo identificar mudanças relevantes e avaliar seus possíveis impactos antes que cheguem à operação.

Esse acompanhamento pode partir de uma classificação de risco dos parceiros, considerando fatores como criticidade da rota, volume movimentado e participação em etapas sensíveis. A partir disso, a empresa consegue definir diferentes níveis de acompanhamento e concentrar atenção nos pontos com maior exposição.

A preparação para a Black Friday também envolve a expansão temporária da força de trabalho. Em São Paulo, novembro de 2025 terminou com saldo de 20.446 vagas no comércio e nos serviços, segundo a FecomercioSP. A entidade relacionou o resultado às contratações temporárias para atender à demanda da Black Friday e do Natal. O varejo respondeu por 19.306 dessas vagas.

Essa entrada de trabalhadores temporários acrescenta outra camada de risco à operação e exige critérios de avaliação compatíveis com as funções desempenhadas e o nível de acesso a processos, informações e ativos.

A preparação para a Black Friday passa, portanto, por dimensionar a capacidade operacional e acompanhar continuamente a rede que sustenta essa capacidade. Quanto mais a cadeia se amplia, maior a importância de identificar mudanças enquanto ainda existe margem para agir.

A data pode durar um dia para o consumidor, mas a operação começa meses antes. Chegar ao pico com capacidade de entrega depende também de uma rede de parceiros monitorada ao longo de todo o processo.

*Caciporé Valente é CEO da Netrin, empresa brasileira especializada em Third-Party Risk Management (TPRM), oferecendo uma plataforma que simplifica e automatiza a gestão de riscos envolvendo fornecedores, clientes e parceiros de negócio.

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