O verdadeiro custo da logística não está apenas no frete

*Por Marcos Rodrigues

Quanto custa, de fato, uma operação logística ineficiente? A pergunta parece simples, mas raramente é respondida considerando custos como perda de clientes e prejuízos operacionais em cadeia.

Uma entrega atrasada pode exigir uma nova tentativa, mobilizar equipes de atendimento, comprometer a programação de uma loja, gerar horas extras e ainda afetar a percepção do consumidor. O valor do frete continua o mesmo na planilha, mas, para a empresa, o custo aumenta.

A esse respeito, o levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) mostra que os custos logísticos representaram 15,5% do PIB brasileiro em 2025. O transporte respondeu por 8,5%, seguido por estoque, com 5,3%, armazenagem, com 1%, e despesas administrativas, com 0,6%. O estudo revela, em síntese, que a logística continua consumindo uma parcela expressiva da riqueza produzida no país.

O relatório da ILOS também destaca uma questão estrutural: na última década, o Brasil passou a movimentar 25% mais carga, mantendo praticamente a mesma infraestrutura logística. Em tal ambiente, por sua vez, procurar eficiência exclusivamente pela redução do valor contratado pode produzir uma falsa sensação de economia.

Quando uma empresa escolhe um transportador apenas por ter oferecido a menor cotação, mas o serviço apresenta baixa previsibilidade, as consequências podem aparecer em diferentes pontos da cadeia. Uma mercadoria que chega depois do planejado pode exigir reprogramação; uma baixa ocupação dos veículos pode elevar o custo por unidade transportada; assim como um atraso recorrente pode levar a empresa a manter estoques maiores para compensar a incerteza.

Cada ocorrência, isoladamente, parece administrável, mas, quando somadas, corroem as margens de forma relevante. Por isso, a discussão sobre eficiência logística precisa deixar de ser apenas uma disputa pelo menor preço e passar a considerar o custo total da operação.

Assim, um frete mais caro pode fazer sentido quando oferece maior previsibilidade, melhor ocupação, rastreabilidade, menor índice de ocorrências e capacidade de resposta. Por outro lado, um fornecedor aparentemente barato pode se tornar muito mais oneroso quando transfere seus problemas para outras áreas da empresa.

O ponto central nesta reflexão é que a logística começa antes da estrada e sua eficiência depende de estratégia. Planejamento de demanda, gestão de estoques, consolidação de cargas, escolha de parceiros, ocupação dos veículos, roteirização e acompanhamento das entregas formam uma sequência de decisões que determina boa parte do resultado final. Quando essas etapas são executadas de maneira isolada, a empresa pode perder a capacidade de enxergar onde o desperdício realmente começa.

Desse modo, o custo logístico não deve ser visto como pertencente exclusivamente ao transporte, mas como um elemento construído pela cadeia inteira, e a tecnologia pode ajudar a tornar essa relação mais evidente. Sistemas de gestão, rastreamento, analytics, automação e inteligência artificial permitem reunir informações que antes ficavam dispersas entre diferentes áreas.

Com dados adequados, é possível identificar padrões de atraso, quilômetros improdutivos, baixa ocupação, reentregas e desvios de produtividade. Tudo isso pode ser traduzido como um Custo de Servir. 

O ganho mais importante está na capacidade de antecipar problemas e tomar decisões antes que eles se transformem em custo.

Essa transformação, porém, exige mais do que instalar novas ferramentas. A própria discussão sobre as tendências da logística para 2026 aponta a visibilidade de ponta a ponta e as decisões orientadas por dados como capacidades cada vez mais relevantes para operações complexas. O uso de inteligência artificial, por exemplo, pode apoiar a previsão de demanda, a roteirização, a manutenção e a análise de variáveis operacionais.

Nesse contexto, o desafio está em transformar informação em rotina de gestão. Uma operação orientada por dados precisa estabelecer quais informações importam, quem é responsável por cada decisão, quais desvios exigem intervenção e como os resultados serão medidos. A inteligência operacional nasce dessa combinação entre tecnologia, processo e capacidade de execução.

Atualmente, a logística brasileira trata essa mudança de perspectiva como uma questão estratégica. Entre as oportunidades apontadas para o futuro do setor estão automação, integração sistêmica, multimodalidade e governança orientada por dados. Já a gestão preditiva aparece como principal caminho para antecipar gargalos operacionais e estabilizar custos.

A questão, portanto, não é quanto custa transportar uma carga. É quanto aquela operação custa para o negócio quando todas as suas consequências são colocadas na mesma conta. Esse cálculo muda a conversa e o que parecia um frete barato pode revelar baixa produtividade, excesso de estoque ou elevado índice de reentrega.

Da mesma forma, um investimento maior em planejamento, tecnologia ou qualidade pode gerar economia em etapas que sequer pertencem diretamente ao transporte. Em um mercado competitivo, essa diferença pode definir a capacidade de crescer com consistência, já que a eficiência logística consiste em fazer com que cada recurso empregado produza o maior resultado possível, reduzindo incertezas e evitando que problemas de uma área sejam empurrados para outra.

Em suma, em vez de perguntar apenas quanto custa transportar, as empresas precisam entender quanto custa uma logística que não entrega previsibilidade, produtividade e qualidade. É nessa conta mais ampla que a eficiência passa a funcionar como uma das bases reais da competitividade.

*Marcos Rodrigues é CEO da Jamef

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