A nova produtividade logística: fazer mais não basta, é preciso usar melhor
*Por Valeria Lima
Quanto custa transportar ar?
A pergunta pode parecer estranha. Mas, na logística, ela é bastante concreta. Quando uma embalagem ocupa mais espaço do que o necessário, transportamos ar. Quando um caminhão circula abaixo de sua capacidade ideal, transportamos capacidade ociosa.
Quando um armazém utiliza mal sua altura, pagamos por espaço que não produz.
Quando um ativo permanece parado esperando carga, descarga ou manutenção, pagamos por capacidade que não está sendo utilizada.
Quando profissionais gastam horas alimentando processos e sistemas que não conversam, pagamos por trabalho que não gera valor.
Talvez essa seja uma das discussões mais importantes para a logística brasileira neste momento. Durante anos, produtividade foi associada principalmente a fazer mais.
Mais entregas. Mais toneladas. Mais pedidos. Mais quilômetros. Mais operações.
Mas as notícias e análises publicadas pelo Portal Logweb nesta semana sugerem uma mudança importante: o próximo salto de produtividade pode depender menos de fazer mais e muito mais de utilizar melhor aquilo que já temos.
Espaço. Ativos. Energia. Tecnologia. Infraestrutura. Capital. E pessoas.

Quando espaço se transforma em dinheiro
Em sua coluna no Portal Logweb, Paulo Roberto Bertaglia chama atenção para um conceito conhecido da logística, mas que ganha outra dimensão quando observado pela ótica da produtividade: a cubagem.
Espaço não é apenas uma medida física. É uma variável econômica. Uma embalagem mal dimensionada ocupa espaço no armazém. Ocupa espaço no caminhão. Ocupa espaço no contêiner. Pode exigir mais viagens. Mais combustível. Mais movimentação. Mais área de armazenagem.
E produzir mais emissões. Isso significa que decisões aparentemente pequenas tomadas no início da cadeia podem multiplicar custos ao longo de toda a operação. A produtividade, portanto, pode começar antes mesmo de a mercadoria se movimentar. Começa na maneira como utilizamos cada centímetro disponível
Crescer para cima também é produtividade
Aexpansão do centro de distribuição da Havan ajuda a visualizar essa lógica. O projeto utilizará uma estrutura autoportante com aproximadamente 35 metros de altura. A verticalização permite ampliar significativamente a capacidade de armazenagem utilizando de maneira mais intensa a área disponível. É uma imagem interessante da nova produtividade logística.
Nem sempre aumentar capacidade significa ocupar mais território. Às vezes, significa utilizar melhor o espaço que já existe. Essa lógica tende a ganhar importância especialmente em regiões onde terrenos logísticos são escassos, caros ou distantes dos grandes mercados consumidores.
Produtividade também é transformar metros cúbicos em capacidade operacional.
Tecnologia precisa liberar capacidade
Ea transformação digital ferroviária apresentada pela MRS Logística oferece outra dimensão dessa discussão.
Digitalização, automação e dados podem aumentar a visibilidade, reduzir tarefas manuais e melhorar decisões. A videotelemetria aplicada à gestão de frotas segue o mesmo caminho.
A digitalização da jornada dos caminhoneiros proposta pela Parada Top também busca reunir serviços e informações em uma experiência mais integrada. A VEIC Redes digitaliza processos relacionados à gestão de vendas de combustíveis.
Em todos esses casos, existe uma pergunta que deveria acompanhar qualquer investimento tecnológico: quanto de capacidade produtiva essa tecnologia consegue liberar?
Pode ser tempo. Pode ser mão de obra. Pode ser disponibilidade de um veículo. Pode ser velocidade de decisão. Pode ser redução de erros. Pode ser menor necessidade de retrabalho.
No 8º Insights Logweb perguntamos qual problema real uma inovação conseguia resolver.
Agora podemos avançar um pouco mais: quanto valor ela consegue devolver para a operação?
Os R$ 40 milhões que não chegaram ao resultado
Talvez um dos exemplos mais interessantes desta semana venha de uma operação logística bilionária analisada em artigo da LAP Brasil.
O projeto possuía uma meta de aproximadamente R$ 200 milhões em sinergias. Cerca de R$ 160 milhões foram capturados. O resultado é expressivo.
Mas os R$ 40 milhões restantes talvez sejam ainda mais interessantes para a discussão sobre produtividade.
Porque eles mostram que identificar uma oportunidade não significa necessariamente conseguir transformá-la integralmente em resultado. Entre uma ideia e o ganho efetivo existe um território complexo. Execução. Integração entre áreas. Tecnologia. Processos. Governança. E pessoas.
É nesse território que muitas oportunidades de produtividade desaparecem.
Uma planilha pode demonstrar uma economia. Um sistema pode identificar um ganho. Uma consultoria pode encontrar uma oportunidade. Mas somente a operação consegue transformar potencial em resultado.
Produtividade não é o ganho identificado. É o ganho capturado
O Brasil possui uma reserva escondida de produtividade? Em sua análise sobre produtividade operacional no Brasil, Ozoni Argenton amplia essa discussão.
Baixa produtividade não significa necessariamente falta de esforço. Muitas vezes significa utilização inadequada de recursos. Processos pouco integrados. Tecnologia subutilizada. Retrabalho. Baixa previsibilidade. Falhas de gestão. Gargalos. Espera.
É por isso que simplesmente exigir que pessoas ou equipamentos trabalhem mais dificilmente resolve problemas estruturais de produtividade. Em determinadas operações, fazer mais rápido apenas significa produzir desperdício mais rapidamente.
A pergunta precisa mudar. Em vez de: Como fazemos mais? Talvez seja necessário perguntar: O que estamos fazendo hoje que consome recursos sem gerar valor?
Essa mudança parece pequena. Mas altera completamente a maneira de enxergar uma operação.
A rede física também precisa produzir mais
A FedEx anunciou investimentos superiores a R$ 75 milhões no Brasil, incluindo 34 novas unidades. É um movimento relevante de expansão de capacidade e capilaridade.
Mas, depois do nosso 9º Insights, sabemos que expansão e produtividade precisam caminhar juntas.
Uma rede maior possui potencial para aproximar serviços dos clientes, reduzir distâncias, melhorar tempos de atendimento e ampliar capacidade. Ao mesmo tempo, acrescenta ativos, pessoas, rotas e pontos que precisam ser coordenados. A questão deixa de ser apenas quantas unidades uma rede possui.
Passa a ser: quanto valor cada novo ponto adiciona ao funcionamento do conjunto?
A mesma lógica vale para centros de distribuição, filiais, terminais, frotas e qualquer outro ativo logístico. O tamanho da estrutura não determina sua produtividade. A utilização da estrutura determina.

Produtividade também pode estar na geografia
A discussão sobre a Rota Bioceânica amplia essa reflexão para uma escala continental. A criação de um corredor ligando o Brasil aos portos do Pacífico pode abrir novas alternativas para o agronegócio e para o comércio internacional. Nesse caso, não estamos falando apenas de infraestrutura. Estamos falando de produtividade geográfica.
O Brasil não consegue mudar a localização de suas regiões produtoras. Mas pode transformar a maneira como elas se conectam aos mercados internacionais. Novos corredores podem alterar distâncias, tempos, custos e alternativas logísticas. Isso significa utilizar melhor algo que o país já possui: sua própria posição geográfica.
Quando infraestrutura e corredores logísticos reduzem fricções entre produção e mercado, a produtividade deixa de ser apenas uma questão empresarial. Torna-se uma questão nacional.
Energia também precisa produzir mais trabalho útil
A transição energética aparece novamente nesta semana. IVECO e Toyota desenvolvem uma nova geração de caminhões pesados a hidrogênio. O Grupo SADA colocou em operação uma base própria de abastecimento de GNV em São Bernardo do Campo.
Essas iniciativas normalmente são observadas pela perspectiva ambiental. Mas existe também uma perspectiva de produtividade.
Quanto trabalho útil conseguimos produzir por unidade de energia consumida?
Qual tecnologia apresenta melhor desempenho para determinado perfil operacional?
Qual infraestrutura será necessária?
Qual autonomia é suficiente?
Qual o custo total da operação?
A logística de menor emissão também precisará ser uma logística economicamente produtiva. Sustentabilidade e produtividade não são necessariamente agendas concorrentes. Quando bem desenhadas, podem se reforçar.
Segurança protege capacidade produtiva
Os dados sobre roubo e furto de veículos pesados em São Paulo acrescentam outra dimensão à discussão.
Um veículo roubado. Uma carga perdida. Um caminhão parado após uma ocorrência. Uma operação interrompida. Tudo isso representa mais do que um problema de segurança. Representa capacidade produtiva retirada da cadeia.
O avanço de videotelemetria, monitoramento e seguros especializados mostra como segurança começa a se integrar cada vez mais à gestão operacional. Porque proteger ativos também significa proteger produtividade. Todo recurso indisponível deixa de gerar valor.
A Black Friday coloca a produtividade sob pressão
A proximidade da Black Friday oferece talvez um dos melhores testes para todas essas ideias. Durante picos de demanda, a operação é pressionada.
Mais pedidos. Mais separação. Mais transporte. Mais entregas. Mais atendimento. Mais exceções.
Nesse momento, aparece a diferença entre capacidade instalada e capacidade efetivamente utilizável. Uma empresa pode possuir armazéns, veículos, sistemas e equipes suficientes no papel. Mas se os processos não estiverem integrados, gargalos surgirão exatamente quando o volume aumentar.
É por isso que picos de demanda funcionam como uma espécie de exame de estresse da logística. Eles revelam onde existem recursos. E onde existem recursos realmente produtivos.
Fazer mais não basta
Quando observamos as notícias e análises desta semana em conjunto, talvez exista uma mudança importante na maneira como devemos pensar produtividade.
Produtividade não é simplesmente velocidade. Não é exigir mais das pessoas. Não é colocar mais caminhões na estrada. Não é construir armazéns maiores. Não é instalar mais tecnologia.
É conseguir gerar mais valor com os recursos utilizados. Às vezes, isso significa automatizar. Em outras situações, integrar. Redesenhar uma embalagem. Mudar uma rota. Verticalizar um armazém. Treinar uma equipe. Eliminar um processo. Compartilhar uma informação. Reduzir uma espera.
Ou simplesmente perceber que algo que sempre fizemos deixou de fazer sentido.
A nova produtividade logística talvez esteja menos em acrescentar recursos e mais em eliminar desperdícios invisíveis.

Os Cinco Movimentos da Semana
✔ Espaço passa a ser tratado como recurso econômico — cubagem, embalagens e verticalização mostram que produtividade também é utilizar melhor cada metro cúbico disponível.
✔ Tecnologia precisa liberar capacidade produtiva — digitalização, telemetria e plataformas ganham valor quando reduzem tarefas, erros, espera e tempo de decisão.
✔ Infraestrutura e geografia entram na equação — novas unidades e corredores logísticos podem aumentar produtividade ao aproximar operações e criar rotas mais eficientes.
✔ Energia torna-se variável operacional estratégica — hidrogênio, GNV e outras alternativas serão avaliados também por desempenho, infraestrutura e custo total.
✔ Execução determina quanto valor realmente será capturado — identificar oportunidades não basta; integração, processos, tecnologia e pessoas transformam potencial em resultado.
O que observar daqui para frente
Talvez uma das próximas fronteiras da logística seja justamente aprender a medir melhor aquilo que ainda não gera valor.
Quanto custa o espaço vazio?
Quanto custa um veículo parado?
Quanto custa uma espera?
Quanto custa uma informação duplicada?
Quanto custa o retrabalho?
Quanto custa uma rota mal desenhada?
Quanto custa uma tecnologia subutilizada?
Quanto custa uma oportunidade identificada e nunca implementada?
Empresas que conseguirem responder a essas perguntas poderão encontrar novas fontes de produtividade sem necessariamente aumentar sua estrutura.
E, para o Brasil, existe uma questão ainda maior: quanto de nossa baixa produtividade logística está associado à falta de recursos — e quanto está associado à maneira como utilizamos os recursos que já temos?
Reflexão Logweb
Talvez exista uma enorme reserva de produtividade escondida dentro das operações brasileiras. Ela não está necessariamente em um novo armazém. Em mais caminhões. Em uma nova tecnologia. Ou em equipes trabalhando mais rápido.
Pode estar justamente naquilo que quase não percebemos. Espaço vazio. Quilômetros desnecessários. Ativos parados. Estoque mal posicionado. Energia desperdiçada. Informação duplicada. Retrabalho. Espera. Processos que sobreviveram durante anos sem que ninguém voltasse a perguntar por que ainda existem.
Por isso, talvez a maior reserva de produtividade da logística brasileira não esteja em trabalhar mais rápido.
Esteja em descobrir tudo aquilo que estamos pagando para não produzir valor.
E fica uma pergunta para as lideranças: Se retirássemos amanhã da sua operação tudo aquilo que consome recursos sem gerar valor, quanto da estrutura atual ainda seria necessária?
Talvez a resposta revele onde está o próximo grande ganho de produtividade. Porque fazer mais não basta. É preciso usar melhor.
*Valeria Lima
Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain
Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística
“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”









