A proximidade da Black Friday e do Natal deve acelerar as importações brasileiras no segundo semestre. A estimativa do Grupo Allog, agente de carga que atua no transporte internacional de mercadorias, é de crescimento de aproximadamente 5% no volume de cargas importadas no período. Eletrônicos e eletrodomésticos devem concentrar parte relevante dessa demanda, acompanhando o aumento das compras associado às principais datas do varejo.
O movimento, entretanto, ocorre em um cenário de maior pressão sobre a logística internacional. Dessa forma, os importadores precisam conciliar o aumento dos volumes com fatores que não estão diretamente relacionados à demanda brasileira, como alterações de rotas, gargalos portuários, disponibilidade de navios, condições climáticas e oscilações nos custos de transporte.
“O aumento da demanda não significa necessariamente que o volume de importações acompanhará o crescimento do faturamento na mesma proporção. Além disso, tivemos um primeiro semestre forte, impulsionado, entre outros fatores, pelas importações de veículos elétricos, que cresceram mais de 10% na comparação anual”, afirma Kall Claudino, gerente de Importação do Grupo Allog.
Segundo o executivo, a principal preocupação dos importadores deve ser a previsibilidade e a antecipação da operação. Quanto maior for a antecedência no planejamento, maior será também a capacidade de absorver eventuais atrasos sem comprometer a disponibilidade dos produtos no mercado.
“Em produtos sazonais, um atraso de poucos dias pode comprometer o abastecimento justamente no período de maior demanda. O planejamento baseado na expectativa de que o processo sairá 100% conforme o previsto é um dos maiores erros de um importador. É importante trabalhar com uma margem maior no prazo de chegada, considerando possíveis contratempos na origem, durante o transporte ou na chegada ao Brasil”, diz.

Clima, geopolítica e concentração de cargas pressionam a logística internacional
Entre os fatores que podem interferir nas operações está a ocorrência de eventos climáticos em regiões importantes para o comércio internacional. As cargas provenientes da Ásia, por exemplo, estão sujeitas a alterações na programação de navios e portos em razão de condições meteorológicas adversas. No início de agosto, o tufão Dolphin atingiu áreas do Japão e avançou em direção à costa chinesa, levando à interrupção de operações portuárias, aeroportuárias e de transporte em algumas regiões. Na sequência, a tempestade tropical Chan-hom também afetou áreas do Japão.
Além disso, os conflitos geopolíticos acrescentam outra variável à operação. Restrições e incertezas envolvendo o Estreito de Hormuz, importante corredor para o transporte internacional de petróleo e derivados, permanecem no radar do mercado. Embora Hormuz não seja uma rota direta para a maior parte dos contêineres que saem da Ásia com destino ao Brasil, uma instabilidade prolongada na região pode repercutir sobre preços de combustíveis, seguros, disponibilidade de embarcações e custos logísticos globais.
Ao mesmo tempo, mudanças nos fluxos de navios em outras áreas estratégicas podem produzir efeitos indiretos sobre a oferta de capacidade. A reorganização das rotas internacionais tende a aumentar o transit time em determinados serviços e, consequentemente, pode pressionar a disponibilidade de espaço e equipamentos.
No Brasil, a expectativa de maior concentração de cargas durante o período que antecede a Black Friday também representa um ponto de atenção. Gargalos nos terminais e eventuais restrições na disponibilidade de contêineres podem ampliar o intervalo entre a chegada do navio e a efetiva entrega da mercadoria.
“Não basta considerar o transit time contratado. É preciso acompanhar a operação e entender o que está acontecendo na origem, com os navios e nos portos. Uma alteração em qualquer uma dessas etapas pode repercutir no prazo final”, explica Kall.
Fretes marítimos também exigem planejamento
Os fretes marítimos são outro componente que precisa ser acompanhado pelos importadores. As tarifas respondem ao equilíbrio entre oferta e demanda. Enquanto a ampliação da capacidade dos armadores pode pressionar os preços para baixo, movimentos como os blank sailings, quando viagens são canceladas ou retiradas da programação, podem provocar aumento dos custos.
Por isso, a escolha do transporte precisa considerar mais do que o valor do frete. Para produtos de alto giro, como eletrônicos e eletrodomésticos, o impacto de um atraso sobre os níveis de estoque e as vendas pode superar a economia obtida com uma alternativa logística de menor custo.
“Não existe uma fórmula única. É preciso avaliar o valor da carga, o prazo necessário, o risco de ruptura de estoque e o impacto financeiro de cada alternativa”, explica Kall.

Desembaraço aduaneiro entra na estratégia
Com a concentração das vendas em poucas semanas, o desembaraço aduaneiro passa a ter impacto direto no resultado das operações. Menito Luz, gerente de Desembaraço Aduaneiro do Grupo Allog, explica que a liberação das cargas deve ser considerada parte da estratégia comercial dos importadores.
“Uma carga parada no porto ou no aeroporto pode significar uma venda perdida. Por isso, o desembaraço precisa começar antes da chegada da mercadoria, com planejamento e conferência antecipada de toda a documentação”, afirma.
Entre as medidas citadas estão a pré-conferência de documentos, a gestão antecipada de licenças e, quando aplicável, o registro antecipado de declarações aduaneiras, como DUIMP ou DI. Além disso, a integração com o transporte terrestre pode evitar que uma carga, depois de liberada, permaneça no terminal aguardando a programação de retirada.
“Embora o importador não controle as oscilações globais, uma assessoria aduaneira estratégica mitiga esses riscos. O monitoramento constante das etapas da operação, pré-conferência documental rigorosa e uso de regimes especiais ou entrepostos, ajuda a neutralizar gargalos previsíveis”, finaliza Luz.









